L 1 Heb 9, 15. 24-28; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4. 5-6 Ev Mc 3, 22-30

Depois de ler o Evangelho de hoje, deparei-me com esta afirmação de Edgar Morin, encontrando nela uma explicação para a verdade que Jesus ensinou aos escribas. Pode acontecer nos grupos da sociedade e até nas comunidades da Igreja a tendência para isolar as pessoas, separando-as, por medo da diferença ou falta de compreensão do que ela implica ou por não se saber lidar com ela dentro dos padrões vigentes. A consequência é a separação ou segregação que impede qualquer relacionamento, mesmo aquele que poderia ajudar as pessoas a crescer e a converterem-se para uma melhor humanidade, a que sabemos ser iluminada pela verdade que está em Cristo.
Por seu lado, o pensamento que distingue e une não anula as diferenças, mas inlui-as num processo de humanização, em que não há bons e maus, mas pessoas que caminham num esforço de erradicar o mal que desumaniza, construindo com o bem possível. Deixando para Deus a realização do impossível. A questão é: se não deixamos que Deus nos apareça na pessoa do outro que me completa ou complementa de algum modo ─ à luz da ética paulina do Corpo (proclamada no 3º domingo do tempo comum, em 1 Cor 12, 12-30) ─, como me posso conceber como transmissor da verdade que está em Deus e que só posso comungar com os irmãos através de uma sinfonia de dons que constituem a consonância de mentalidades, a convergência de sensibilidades e a pedagogia de comunhão com os outros?

Os escribas estavam a descartar Jesus e os seus discípulos das suas relações, estando, eles próprios, a excluir-se de um projeto novo, divino, que completa a humanidade. Na verdade, quem exclui, exclui-se; quem segrega vive segregado; na melhor das hipóteses, quem procura integrar, busca integrar-se; mas só quem inclui é que vive incluído.
Escutei alguém uma vez questionar: num mundo fragmentado ou polarizado, por causa das ideologias e das guerras, como poderá a Igreja ser protagonista da missão de paz se ela mesma estiver fragmentada ou polarizada? Como podemos na Igreja acolher a instauração do Reino de Deus feita por Cristo de uma vez para sempre com o seu único Sacrifício por toda a humanidade? Não será através da inclusão? Tenho por certo que a única condição é a da liberdade em aceitar-se os seus valores.
Hoje, o Evangelho é anúncio de que o Reino de Deus já está entre nós pelo poder de Deus e não dos homens. E Jesus veio instaurá-lo livrando-nos das ciladas do demónio. O orgulho do ser humano impede-o de reconhecer a obra de Deus e leva-o a negar o papel do Espírito Santo.
Esta secção do Evangelho relata-nos a sucessão dos acontecimentos após Jesus ter rejeitado o “odres velhos” das instituições judaicas vigentes para verter o “vinho novo” do Reino de Deus. Foi com os seus discípulos para a Galileia pregar e curar. Mas os “donos” da religião de Jerusalém foram atrás deles e, alarmados pelas notícias, foram ao encontro de Jesus para Lhe instaurar um processo.
E a sentença escriba de hoje é confundir-se a missão de Jesus com a missão do demónio. Mas Jesus desmascara rapidamente esta pretensão de “confundir para reinar”, informando-os de que é impossível alguém expulsar o inimigo e estar de acordo com ele ao mesmo tempo. Irmãos, quem é que ainda não viu disto ─ “confundir para reinar” ─ dentro das nossas comunidades e em movimentos da Igreja, para além das famílias? Precisamos, por isso, com urgência, da conversação no Espírito Santo!
Então, Jesus aproveita para delinear a “red line” que define o que tem perdão e o que não tem: uma coisa é pecar contra Jesus, outra coisa é pecar contra o Espírito Santo. Aquele pecado tem perdão; este não. Esta fronteira esteve e está bem visível no desafio do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade. Quantas polarizações? Quantas más-vontades em invocar o Espírito Santo para o diálogo comum, no sentido da vivência da comunhão, participação e missão? Dito de outro modo: quanta falta de conversação no Espírito Santo? Tenho contemplado o Santo Padre, também, menos preocupado com os ataques que são infligidos a ele, quanto aos ataques à presença e guia deste Vento divino capaz de mover a Igreja não sem a colaboração dos homens e mulheres unidos na boa vontade.
O nepotismo* não está só alojado na memória da história passada da Igreja. Infelizmente, vemo-lo não só como tendência, mas também presente em muitos atrasos no dinamismo do Espírito Santo a respeito da construção do Reino de Deus no tempo presente. Isto mostra que nem sempre a inculturação da fé significou na prática a evangelização das culturas sociais ou humanas.
Para reconhecermos Cristo como mediador da nova aliança, para reconhecermos que Ele não foi feito por mãos humanas, para reconhecermos que o seu único sacrifício vale mais do que todos os nossos sacrifícios juntos, teremos de nos unir à volta e caminhar sob o mesmo Espírito Santo. Não basta programar tarefas ou atividades eclesiais; é preciso perguntar se estamos todos de acordo com o mesmo Espírito de Deus! Cristo ofereceu-Se uma só vez; agora, cabe a cada pessoa o ato livre de se oferecer a si mesma no seu projeto divino!
____________________
* Procedimento levado a cabo por alguns papas, que consistia na atribuição de posições de relevo na hierarquia eclesiástica a elementos da própria família; prática de favorecimento de familiares ou amigos na atribuição de cargos ou privilégios por parte de um detentor de cargo público ou de alguém em posição de poder; favoritismo (Infopédia).
