L 1 Gl 5, 1-6; Sl 118 (119), 41 e 43. 44-45. 47-48 Ev Lc 11, 37-41, na memória de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja. Os itálicos a negrito referem-se às admonições presentes do site da Liturgia.pt
Entre o Evangelho de hoje e o de ontem, está um pequeno inciso em que Jesus fala da vista como a candeia do corpo, advertindo que conforme for a limpidez do olhar, assim será a iluminação do corpo. E foi “depois de Jesus ter falado” porventura sobre este assunto que “um fariseu convidou-O para comer em sua casa”. O que acontece nesta cena é que o fariseu tem a sua vista marcada por etiquetas que não o ajudaram a preparar bem o encontro com Jesus Cristo. A este respeito, em maio passado, o Papa Francisco teve um encontro com jovens estudantes de um Instituto de Liturgia em Barcelona, onde ensinou que
O homem é para a liturgia porque é para Deus, mas uma liturgia sem esta união do homem com Deus é uma aberração. E aqui uma aberração seria, por exemplo, uma liturgia presa ao rubricismo, que não favorece a união com Deus este encontro à volta de Deus é de todos.
Numa das orações do Ângelus deste mês de setembro, afirmou que
A relação com Deus fica reduzida a gestos externos, e internamente permanecemos impermeáveis à ação purificadora da sua graça, entregando-nos a pensamentos, mensagens e comportamentos desprovidos de amor. (…) A pureza não está ligada a ritos externos, mas antes de tudo a disposições internas, disposições interiores. Para ser puros, portanto, não há necessidade de lavar as mãos diversas vezes, se depois se alimentam no coração sentimentos malvados como ganância, inveja e orgulho, ou más intenções como engano, roubos, traição e calúnia.
Curiosamente, hoje, comemora-se o Dia Mundial da Lavagem das Mãos, apontando-se este ato de higiene como uma “vacina” contra doenças. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, a lavagem correta das mãos pode reduzir em até 41% as mortes de recém-nascidos. E até se ensina a lavar corretamente as mãos, com sabão em todos os seus recantos onde se possa alojar sujidade, apontando-se como principais momentos para lavar as mãos antes de comer e depois de ir à casa de banho. E isto está correto para a saúde pública.
O que Jesus nos quer ensinar neste Evangelho é que o que purifica o interior dos homens são os gestos de amor e não os ritos externos de higiene. Não é só a água que se deve lançar sobre as próprias mãos, mas também a esmola nas mãos dos outros. No fundo, hoje recebemos uma lição sobre o sentido espiritual da religião, sem com isso pretender negar as suas expressões externas e as regras gerais da higiene.
É esta a “a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou” apresentada por Paulo como sendo o jugo suave do Senhor e não a escravidão. Por isso, aponta-nos a nova lei do Espírito Santo, que nos justifica. O que torna, hoje, os cristãos justos aos olhos de Deus é a sua fé em Jesus Cristo, e não, como no seu tempo ainda alguns pensavam, a prática da antiga lei de Moisés. Esses tempos passaram; hoje Deus fala-nos por seu Filho. A circuncisão era, para os Judeus, o sinal de pertencer ao seu povo; mas, depois que veio Jesus Cristo, o sinal de pertença ao povo de Deus, que é a Igreja, é a fé, que se celebra no Batismo e nos outros sacramentos, e se manifesta na vida de caridade.
Não foi à toa que Santa Teresa de Jesus disse que
Vi claramente que temos de entrar por esta porta se quisermos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos. Não se procure outro caminho, mesmo estando no mais alto grau da contemplação; é por aqui que se vai seguro. É por este Senhor nosso que nos vêm todos os bens; Ele o ensinará; olhando a sua vida, teremos o melhor exemplo.
Por vezes, a servir como cerimoniário de algumas celebrações não sei o que me “irrita” mais: se a “distração” com as coisas rituais que me impedem de serenar diante do essencial ou se a preocupação sobre se os acólitos estão a exercem aquilo que treinámos para as celebrações. A experiência tem-me ensinado a aproveitar bem o momento a que chamamos de pastoral litúrgica, que é a preparação remota e próxima de cada celebração litúrgica, em proveito de uma vivência mais serena da mesma, diante da Presença misteriosa que se apresenta.
Como formador dou-me conta de que os formandos mais rígidos em matéria ritual costumam estar mais distraídos dentro da mesma celebração para a qual almejam o rigor litúrgico. E não se trata das palavras e gestos centrais, nos quais devemos pôr todo o rigor para a validade sacramental. É uma questão de aprender a diferenciar o que é central/essencial e o que é acessório. À semelhança da diferença entre a celebração de uma solenidade e uma memória facultativa. A beleza litúrgica há de ser parceira da cortesia no trato com os outros. A beleza é a verdade, é a verdade da santidade, é como a verdade: é sinfónica entre o dentro e o fora, entre a consideração de Deus e a consideração dos irmãos.
Anedota: Qual é a diferença entre um liturgista (ritualista) e um terrorista? Resposta: com este ainda é possível negociar; com aquele não.
