L 1 Gl 3, 7-14; Sl 110 (111), 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 11, 15-26, na memória de São João XXIII, papa
Jesus costumava ler os pensamentos dos que conviviam com Ele e dos que se debatiam com Ele. A este respeito, não faltam citações bíblicas e respostas a perguntas frequentes on-line a pretexto de que se o demónio pode conhecer os pensamentos dos homens. Sem querer fazer aqui afirmações forçadas ao contexto desta reflexão, adianto que, sendo Deus o único omnipotente, omnisciente e omnipotente, então a respeito do ser humano ─ criado à imagem e semelhança de Deus ─ o demónio, ainda que esperto e experiente, não tem acesso a todas as dimensões a criatura semelhante a Deus. Quando muito, será cúmplice dos maus pensamentos consentidos pelo ser humano, aqueles que são objeto de reconciliação.
Serve esta introdução para constatar que Jesus tinha por pedagogia olhar para os pensamentos do coração das pessoas. Para quê? Para monitorar os percursos do bem e os percursos do mal. Na qualidades dos seus atributos, Deus nunca deixará ninguém sozinho… Daí que só o Senhor sabia, com base do Espírito de Deus que estava n’Ele, abeirar-se e dialogar com toda a realidade. É por isso que, nas disciplinas ministeriais do 6º ano do caminho de preparação para o presbiterado está uma disciplina chamada de acompanhamento das consciências. É para que os candidatos ao sacerdócio possam representar Jesus no acompanhamento e avaliação da interioridade das pessoas que interage com os relacionamentos e a vida prática do quotidiano.
Sobre a existência do demónio, não sejamos ingénuos, não temos dúvidas (como têm vindo a sugerir os sumos pontífices). No entanto, confundir as obras de Deus com as obras do demónio já não tem nada a ver com o “dedo de Deus” que veio para esclarecer e para salvar e não confundir para reinar. Deus não reina pela confusão, mas pela clareza e iluminação. João XXIII, quando decidiu convocar o Concílio Ecuménico Vaticano II, não a favor da vontade de todos, afirmou:
5. O grande problema, proposto ao mundo, depois de quase dois milénios, continua o mesmo. Cristo sempre a brilhar no centro da história e da vida; os homens ou estão com ele e com a sua Igreja, e então gozam da luz, da bondade, da ordem e da paz; ou estão sem ele, ou contra ele, e deliberadamente contra a sua Igreja: tornam-se motivo de confusão, causando aspereza nas relações humanas, e perigos contínuos de guerras fratricidas.
6. Os Concílios Ecuménicos, todas as vezes que se reúnem, são celebração solene da união de Cristo e da sua Igreja, e por isso levam à irradiação universal da verdade, à reta direção da vida individual, doméstica e social; ao reforço das energias espirituais, em perene elevação para os bens verdadeiros e eternos.
De facto, era necessário este chamado “papa de transição”, para ajudar a Igreja a caminhar das velhas certezas à missão de conciliação necessária para a missão do anúncio do Reino de Deus, diante dos novos problemas e desafios da Igreja. O objetivo com que o chamado “papa bom” abria este Concílio era o de “dar à Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente para a solução dos problemas da modernidade”.
Estas palavras de Jesus no Evangelho ─ “Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança” ─ podem muito bem ser atribuídas ao Papa João XXIII. E ao Papa Francisco pode ser atribuída a coragem de empreender o percurso deste Sínodo sobre a Sinodalidade, porque, conforme Jesus garante no Evangelho, quando o espírito do mal vê uma casa arrumada, volta com espíritos de contradição piores para a arruinar.
Outrora, segundo este articulista no Observador, foram estas sete lições do Papa Bom: o foco no futuro, a noção das limitações humanas, somos sempre nós, não vale a pena pensar nas limitações que nos impõem, ouvir os outros é muito importante, humor e elogios não custam, o mundo não pára.
Hoje, os parâmetros da esperança são formulados como sendo a escuta da realidade, que é superior às ideias mesquinhas, o todo é superior à parte, a unidade prevalece sobre o conflito, o tempo é superior ao espaço. E os pontos de força do caminho sinodal da Igreja são as relações, os percursos e os lugares, convocados para que juntos vivamos a comunhão, a participação e a missão.
Para o homem sábio, de olhar atento, é preciso ver o tal “dedo de Deus” no caminhar histórico da Igreja em direção ao seu Reino, não deixando que alguém nos confunda e nos use dentro da confusão para reinar de um modo que não seja o estilo de Jesus. Interpretar de qualquer maneira o percurso histórico da Igreja pode lavar a contrariar a verdade, correndo o risco de se deixar manipular e de manipular os outros. É por isso que o Evangelho de hoje nos mostra esta pequena parábola de Jesus: para nos fazer compreender a importância da vigilância na luta contra os espíritos do mal.
Por exemplo, a muitos “fez espécie” que o Concílio Vaticano II se tivesse chamado e tivesse um objetivo ecuménico. Esqueceram-se da citação proclamada por Paulo aos Gálatas: “Tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar os gentios pela fé, anunciou previamente a Abraão esta boa nova: «Em ti serão abençoadas todas as nações». Assim, os que vivem segundo a fé são abençoados com Abraão, que acreditou. (…) Assim, por meio de Jesus Cristo, a bênção de Abraão se estendeu-se aos gentios e nós recebemos, pela fé, o Espírito prometido.”
É pela fé que os homens se tornam verdadeiros filhos de Abraão, e não apenas pelo sangue nem pela simples prática da lei de Moisés. Paulo quer fazê-lo compreender, citando uma série de passagens do Antigo Testamento. Hoje devemos ter muito cuidado com as meias verdades, porquanto o demónio também é capaz de citar a Escritura, não como fez Paulo a favor da evangelização, mas a seu bel prazer, como se provou nas tentações sofridas por Jesus no deserto (cf. Mt 4). Foi, certamente, tendo também Paulo por referência que o Papa Francisco nos fez regressar a Abraão através da Encíclica Fratelli tutti.
Que nesta memória de São João XXIII e neste aniversário da convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II saibamos velar pela beleza da diversidade a partir da unidade dos nossos corações em Deus.
