navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Pr 3, 27-34; Sl 14 (15), 2-3ab. 3cd-4ab. 5 Ev Lc 8, 16-18

O Evangelho de hoje traz-nos três afirmações de Jesus, à partida, desconcertantes e desafiadoras a uma maior abertura à graça de Deus e a uma transparência diante dos outros:

1) Uma afirmação sobre o valor da verdade.

2) Outra sobre as fronteiras da privacidade.

3) Outra sobre a abertura à graça de Deus.

Nas suas afirmações, Jesus parece derrubar aquilo aquilo que nos parecia ou a que nos parecia termos direito: patentearmos a verdade em favor próprio (“cobrir com uma vasilha ou a colocar debaixo da cama”), o direito à intimidade (ao “oculto” e ao “secreto”) e a opção preferencial pelos pobres (“àquele que não tem”). Como interpretar esta passagem?

O que Jesus nos quererá dizer é que:

1) A sua “luz” é a Verdade que é absoluta só em Deus e que Ele quer que todos sejam herdeiros. É para todos “os que entram” a vejam. O que Ele nos pede é que não sejamos “donos” da Verdade, mas que saibamos criar um ambiente em que os que o habitem possam contactar com essa Verdade que é o próprio Cristo. Assim, a melhor maneira de favorecer este encontro é preparar e convidar para a relação com Ele, através do nosso testemunho de vida. Não se trata de relacionar com ideias, mas com uma Pessoa. A verdade é a Pessoa de Jesus e quem se relacionar com Ele contactará a verdade plena, aprenderá, também, a ser verdade.

2) A intimidade é um direito, mas esconde o dever da transparência e esta implica, por sua vez, a responsabilidade de viver dentro o que se deveria espelhar fora. No fundo, o conselho é: não viver na intimidade o que não fosse conveniente mostrar às pessoas. O contrário, seria viver uma vida dupla. E em vez de uma unicidade de vida, na aproximação crescente entre a realidade e a aparência, viver-se-ia o perigo da despersonalização, que é fonte de muita ansiedade (para si e para os outros).

3) A abertura à graça de Deus é o que nos ajuda a progredir na transparência, que é partilha de intimidade, uma vez que essa graça penetra os corações até ao mais íntimo de nós mesmos e ajuda-nos a intuir para além da nossa pobre consciência. Se nos fecharmos a essa graça (“àquele que não tem”), ficaremos sempre mais pobres. Se nos abrirmos constantemente a ela (“àquele que tem”), com docilidade ao Espírito Santo, aventurar-nos-emos a ser cada vez mais transparência não só de nós mesmos, mas também da bondade de Deus.

O segredo para vivermos esta boa nova com docilidade serena e sem fundamentalismos parece-me ser o “cuidado com a maneira como ouvis”. Vejo nesta afirmação a chave que Jesus nos deixa. A este respeito, pode ajudar-nos a obra matriz de Bernard Lonergan, o “Insight. Um Estudo do Conhecimento Humano”. A partir do estudo da intelecção, ele aborda alguns dos principais desafios do nosso tempo, que estão, de uma forma ou de outra, relacionados aos preconceitos que interferem nas operações de experimentar, compreender e julgar. Então, ele não apenas nos mostra os diferentes tipos de inteleções, mas também exibe os diversos tipos de preconceitos que interferem nas inteleções e nos impedem de permanecer atentos, inteligentes, razoáveis e responsáveis. Ele parte da famosa “alegoria da caverna” de Platão. Com este ponto de partida em diálogo com o estudo do ser humano, Lonergan quer ajudar-nos a evitar ser manipuladores da verdade, mas simplesmente transparência da mesma, para que todos juntos possamos, ainda que cada um a seu ritmo, alcançar a luz da vida.

Sem docilidade ao Espírito Santo que nos habita, facilitaremos que os nossos desejos se projetem na forma como vemos as coisas, como vemos Deus e na forma como vemos os outros. Dando azo a fundamentalismos, deixaremos de estar apoiados no verdadeiro Fundamento da verdade, fixando o nosso coração numa só ou poucas “poldras” da passagem para a outra margem. Cristo deixou-nos uma “ponte” comum: a comunidade de fé, onde, dando-nos as mãos e unindo os corações, podemos fazer esta travessia com ânimo e segurança. Tinha razão São Tomás quando dizia “na certeza, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade”.

A capacidade de ouvir e de interpretar é fundamental para o acolhimento da verdade, que é sinfónica na medida em que a escuta e a meditação abarcam as várias faculdades da alma e as colocam em uníssono ou acorde perfeito com a sabedoria de Deus. São Pio era um homem que, na relação pastoral com as pessoas, perscrutava a um nível mais profundo da alma, ao jeito de Jesus. Confiemo-nos à misericórdia divina que de forma tão especial o Padre Pio administrava na terra.