L 1 Co 1, 2-11; Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17 Ev Lc 9, 7-9
Por vezes a cultura presta-se a superficialidades, mesmo à mesa de anfitriões ilustres, quando fica presa a clichés diplomáticos. O mesmo pode acontecer nos ambientes religiosos, nos quais se põe mais ênfase nas leis e ritos do que no acolhimento da pessoa como ela é ou como ela vem. O fariseu que convidou Jesus para sua casa não sabia o que era um verdadeiro profeta. E nem sequer poderia adivinhar ou vislumbrar o que seria um ritual da reconciliação. A sua mesa muito menos estava preparada para se altar eucarístico (à maneira do que viriam a ser as primeiras celebrações da Eucaristia entre um simples repasto partilhado e a bênção do pão e do cálice a selar o pacto de fé e de fraternidade).
Nesta cena, o verdadeiro “altar” são os pés de Jesus, onde o Mestre serve o perdão àquela mulher arrependida. E a fé desta está ali à porta de Quem a pode justificar. Ora, na sociedade de hoje ─ com a qual por vezes os ambientes eclesiásticos de confundem ─ como no tempo de Jesus, algumas pessoas são catalogadas de “impuras” em contraste com aquilo que se considera, não só por lei moral, mas por padrão cultural, ser a “pureza”. Daí que, sobretudo quem sofre esta “marginalização”, veja um claro fosso entre a própria situação e o ambiente acolhedor que possa ser para si mediação de salvação. A este respeito, São Januário, bispo e mártir que hoje a Igreja comemora, declarou que
o que há de mais temível neste ministério é o perigo de nos satisfazer mais o seu aspeto honorífico do que a sua utilidade para a vossa salvação. Mas se por um lado me atemoriza o que sou para vós, por outro lado consola me o que sou convosco. Sou bispo para vós, sou cristão convosco. Aquele nome significa um encargo recebido, este exprime o dom da graça; aquele é ocasião de perigo, este é caminho de salvação.
Poderá a geografia da vida cristã conter um “muro de Berlim” a separar “puros” e “impuros”? Ou mais modo de acolhimento em lugares improváveis como o da casa de um fariseu? Temos que o “pêndulo” da vida dentro e fora da igreja-templo nos leve a um bipolarismo desviante do que deveria ser o discipulado-missionário. Jesus fez daquela refeição um “púlpito” onde “matou dois coelhos com um tiro só”: reconciliou aquela mulher consigo mesma e com Deus, e evangelizou aquele fariseu na sua própria casa. Uma verdadeira complementaridade entre liturgia da palavra e liturgia do perdão.
Daqui decorre que a celebração de um Sacramento é sempre totalizante, na perspetiva de que tem efeitos não só pessoais, como eclesiais e sociais. A cura de Jesus vai para a mente, para o coração e pode chegar até ao inconsciente, porquanto os gestos constituem-se símbolos que unem o conhecido com o desconhecido. Numa cena em que todos sabem que a mulher é pecadora, só há Um, O que sabe que ela tem uma saída. Já o fariseu Simão não se sabe bem se tem saída. Não foi por acaso que o Papa Francisco já nos alertou para a consideração da diferença entre o pecado e a corrupção. A solução desta nem sempre está à vista, mas precisa de cura; a solução do perdão está ao pé: junto aos pés de Jesus. A este respeito, leia-se “A corrupção não se perdoa, tem de ser curada“. Naquele momento relatado pelo Evangelho, enquanto que Jesus celebrou com a mulher a Reconciliação, com o Simão Ele realizou um momento de acompanhamento espiritual. A mulher serve de guarda-costas a Jesus diante da presunção do fariseu e Jesus serve à pecadora arrependida de escudo diante da prepotência do mesmo. Simão acaba por estar indefeso na sua própria casa, que bem pode ser símbolo do seu coração solitário.
O verdadeiro cristão é chamado a aproveitar todos os momentos e lugares para evangelizar, não só com palavras exortativas, mas sobretudo com gestos de acolhimento. E chamado a estar atento ao “ouro, incenso e mirra” dos que buscam de novo a “estrela” daquela Presença no meio de nós:
1) As lágrimas do arrependimento não escutado ou reconhecido por gestos simples e, talvez, envergonhados à espera de um contexto acessível ao chão de quem rasteja para obter atenção. Nas comunidades precisa-se melhor concretizar a profissão ferial e espacial da virtude teologal da Fé.
2) Os beijos, por vezes, só feito com os olhos de uma fantasia que sonha o reencontro. As comunidades precisam de concretizar melhor o que é sonhar a virtude teologal da Esperança.
3) O perfume transpirado pelos suspiros do Espírito Santo que não só sopra, mas também “geme” em que íntimo quiser. As comunidades precisam de saber que, nos seus programas e lugares, nunca esgotarão a força que está na virtude teologal da Caridade, com a abertura ao novo.
E para que não haja “fossos” tão grandes nas comunidades cristãs, o melhor é complementar momentos de oferta do Sacramento da Reconciliação com Celebrações Penitenciais comunitárias, onde a meditação da Palavra tenha mais ênfase para verdadeiros exames de consciência, assim como momento de formação das consciências e acompanhamento espiritual pessoal. Não há “fossos” só entre pessoas, mas também entre o que é “Sacramento” e o que não é “sacramento” ou meramente “sacramental”. O Sacramento da Penitência, fora do contexto comunitário soa a tribunal; as comunidades que refletem e formam à volta da misericórdia eterna de Deus podem acender as consciências para a necessidade do perdão, como cura e não meramente como condição para…
Sem esta complementaridade, corremos o risco de vir a considerar os Sacramentos não como verdadeiros encontros com a misericórdia divina na fraternidade, mas como “alfândegas” da fé, o que quer dizer: nada que ajude à salvação (ninguém se aproxima de um rito que não realize aquele verdadeiro encontro com Jesus), nem mesmo a uma verdadeira coabitação nesta terra (onde se tende a criar fronteiras visíveis entre grupos/movimentos e estratos sociais). Ninguém pode encontrar-se verdadeiramente com Jesus se não souber encontrar-se verdadeiramente com o seu semelhante.
Como prova a cena evangélica, havia muito agradecimento e valentia, para além do arrependimento que Jesus não deixa limitar por fronteiras, na presença sorrateira daquela mulher. Já na diplomacia do fariseu, há muita rigidez que impede que os sinais da misericórdia de Deus, que é infinita, transitem nos caminhos de mediação humano-divina. Ora, a bem-aventurança da misericórdia “paga-se” a ela própria (cf. Mt 5,7): temos a “faca e o queijo na mão”.
Paulo transmite fielmente o kerigma: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez…”. Se o transmitirmos sem filtros e muitas etiquetas, talvez muitos “simões” e muitas “pecadoras/es” vejam a aparição deste Mestre que ensina e cura, sem muitas fronteiras. Coloquemo-nos, como aquela mulher, “atrás de Jesus” ─ o lugar do seguimento a que Pedro também foi convidado (cf. Mt 16,23), porque não somos nós que temos de dizer a Jesus o que Ele tem de fazer, mas é Ele mesmo que nos diz o que haveremos de fazer (cf. Jo 2,5).
O perdão é talvez a única experiência que permite ao ser humano tocar em algo da ressurreição, porque no perdão experimentamos algo que está morto – por exemplo, um amor traído – e graças ao perdão volta à vida.
