L 1 At 16, 22-34; Sl 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 7c-8 Ev Jo 16, 5-11
Na trivialidade da nossa vida humana, não estamos habituados a falar da conveniência ou necessidade da partida de um ente querido deste mundo, uma vez que implica a morte. (Curiosamente, na Índia, não se aceita religiosamente o divórcio, de modo que quando morrem os maridos, algumas mulheres querem ser queimadas vivas e atiradas com eles ao rio Ganges.) Humanamente, não gostamos de (vi)ver a partida dos nossos e ponto. E por saber da tristeza que as partidas como a Sua iriam causar nos seus discípulos que Jesus, pela terceira vez, lhes anuncia o benefício da sua partida: a vinda do Espírito Santo, para dar início a uma nova e definitiva etapa da sua missão sobre a terra.
Não será que dentro das nossas famílias seria interessante, fazer a pergunta: o que será conveniente termos como atitude quando um nosso ente querido partir? Seria uma outra forma de provocar a resposta à pergunta de Jesus “nenhum de vós me pergunta para onde vais?”. Habitualmente, influenciados pelas leis da natureza e as maravilhas da medicina, pensamos que vão primeiro os mais velhos, que, inclusivamente, nos deixarão a sua herança. No entanto, as notícias dizem-nos que os mais novos também não ficam para o fim da história. Já dizemos com menos ingenuidade: cada um vai na sua vez. Morremos como vivemos; a vida de um cristão deve ser a resposta à pergunta: como irei morrer, quer dizer, como irá ser para além da morte aparente?
Aos que partem, encomendamo-los ao abraço misericordioso de Deus na oração, apontada nos seus louvores e súplicas, para a descanso da bem-aventurança eterna. E aos que ficam? Bem, o expectável será a evocação das memórias agradecidas e as vivências positivas que herdámos com a presença daquele ente querido. O levar para a frente a esperança partilhada, ligando-a como “ponte” lançada para a fé no reencontro futuro em Deus.
Jesus, para além do anúncio que foi fazendo aos seus discípulos, após a sua morte e ressurreição, também lhes apareceu, em variadíssimas circunstâncias, desde a porta do túmulo vazio, às suas casas, à beira mar, à refeição, à pregação, à comunhão… Os discípulos tinham a “lente” do Espírito de Jesus bem graduada e limpa, para O poderem VER como Ressuscitado. Após a Ascensão de Jesus, passaria a estar DENTRO deles, para viverem como Ele a experiência da missão. Trata-se de O verem para o acolher e, de seguida, trata-se de O transmitir desde dentro.
Quanto ao luto, respeitando o que nos informam as ciências humanas, sobre as fases a considerar no mesmo, para que os que veem partir possam reaprender a viver com a ausência (ver modelo Kluber-Ross), do ponto de vista cristão seria interessante considerar que tipo de PRESENÇA dos nossos entes queridos é preciso celebrar. Pastoralmente ─ e não obstante a habitual imersão dos párocos num mar de tarefas pastorais mais ou menos partilhadas/delegadas ─ seria de se considerar (e há comunidades que já o fazem) o ministério do luto ou da consolação, aquém (contemple-se este exemplo) e além (contemple-se este exemplo e este exemplo) da experiência da doença e morte ou partida de um ente querido. Requer-se, para isso, uma sinfonia de serviços, de que o pároco pode/deve ser o acolhedor e o assistente espiritual. Não pode coordenar tudo, mas só liderar espiritualmente. Senão, quem fica cá na terra com a mesma missão de Jesus de recordar/anunciar permanentemente que o Senhor, ao partir, nos deixou o seu Espírito Santo, para que vivamos para sempre com e por Ele? As fases do luto são várias e não só “estações” de um dia de funeral, entre a casa mortuária e o Reino de Deus, e não só o cemitério. E o acompanhamento pode demorar anos… muitas vezes já à porta de uma nova e, por vezes, não muito remota partida, de um outro ente querido ou, até, a própria partida, olhada em direção da memória que deixaremos a outros.
Na sua obra “As oito bem-aventuranças, caminho para uma vida bem conseguida” (A.O. Braga 2010), o monge Anselm Grün avisa que para conseguir viver bem a 2ª bem-aventurança ─ Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (Mt 5,4) ─ é preciso fazer a elaboração do luto, contactando com os seus recursos interiores (porventura testemunhados/ensinados pelos entes queridos em vida). Não conseguir esta elaboração poderá levar à deriva que é o apego a substitutos (materiais, religiosos, etc.), podendo levar à depressão, uma vez que não há “substitutos” que possam colmatar a ausência de uma pessoa, a não ser a esperança de um feliz reencontro já anunciado pela fé.
Como contemplamos no desenrolar da entrada e expansão do cristianismo pela Europa, após o batismo da primeira cristã ─ Lígia ─ acontece a primeira perseguição de Paulo pelas autoridades locais. A crónica dos Atos mostra-nos aquilo que só podemos ler à luz do Espírito Santo: que foi preciso uma multidão amotinar Paulo para que um carcereiro e a sua família fossem evangelizados e batizados. É assim a aventura do Espírito de Jesus: Ele quer entrar o mais dentro possível das “prisões” em que os homens se encontram, para ali poder tremer com os alicerces do mal, substituindo-os por um alicerce mais forte que é Jesus Cristo. Onde ameaça a vontade de se suicidar por causa do medo dos poderosos, aparece a vontade de viver ao serviço d’Aquele Deus que tudo pode para a salvação do homem. Aquela vigília de oração que anima os presos e acende a luz no coração dos corações frios pode assemelhar-se a uma vigília pascal como celebração da promessa daquela vida que jamais termina, não obstante as tribulações desta vida.
Ai! Temos de melhorar o modo de sair das igrejas (templos/sinagogas), partindo ao encontro daquelas margens da existência humana onde ouvintes adoradores do Deus verdadeiro aguardam a pregação acerca da loucura de Jesus pela humanidade. Os “pregadores” são/seremos, com toda a certeza os nómadas; os que precisam de ouvir serão/seremos maioritariamente sedentários/”presos”. Não deveríamos voltar ao cumprimentos dos ritos que nos alimentam sem alimentarmos de esperança o caminho dos que padecem, os distantes ou os ausentes. E se o luto tem várias fases, também a Evangelização tem as suas, tal como o Papa Francisco nos sugeriu no modelo Evangelii gaudium: «Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar (n.º 24).
