navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 53, 1-10; Sl 21 (22), 7-8. 15. 17-18a. 22-23; Ev Jo 19, 28-37
Na Festa das Cinco Chagas do Senhor
Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

O evangelista João parte de um facto compreensivelmente natural de Jesus ter sede, depois dos trabalhos da Paixão, que o usa como metáfora de uma sede mais profunda que está em todo o coração do ser humano: a se sede infinito que em Jesus é manifestada como a intensa tendência para Deus.

Enquanto Jesus está plenamente consciente da entrega que Lhe cabe e da sede correspondente ao que diz o Salmo 63 ─ Ó Deus, meu Salvador, Anseio por Ti! A minha alma tem sede de Ti!” ─, os soldados ficam-se pelo entendimento de uma sede puramente física e tentam matar a sede de Jesus com o vinagre atenuante da dor. E quando Jesus chama por Elohim, leí, os judeus pensam que está a chamar por Elias. O discípulo amado intui que Jesus está a recitar aquele salmo e a insinuar aquela sede profunda que serve de referência para nós.

João sabe que a vida do Senhor ficou completa. A sua obra termina quando termina a sua vida. Trata-se da obra que Deus Lhe mandara realizar para a salvação da humanidade. E esta obra atinge a plenitude no momento da sua hora, na qual entrega o Seu Espírito, inclinando a sua cabeça, como se a salvação definitiva da humanidade fosse o seu último sim.

A partir de agora, cada um de nós é chamado a percorrer o mesmo caminho do Senhor. Sim, é Ele que nos salva, mas o acolhimento da salvação por nossa parte necessita de percorrer estes mesmos atos que saciam a intensa sede de Deus: saber as Escrituras, exclamá-las, com a vitória sobre qualquer mau entendimento da vida, expirando o mesmo Espírito de Cristo através de um feliz testemunho de adesão a Ele. Sabemos nós, também, que a nossa vida só fica completa quando virmos Deus face-a-face. Porém, podemos ir ensaiando o conhecimento que nos permite a fé, vivendo o atrevimento que nos permite a esperança e o testemunho alegre de vida que nos permite a caridade.

Por estes dias, no Vaticano, está a decorrer o Simpósio Internacional sobre a Formação Permanente dos Sacerdotes. Para quê? Para que através do ministério presbiteral as pessoas de hoje percebam a beleza de ser discípulos. Para isso, é precisa uma formação única, integral, comunitária e missionária (cf. Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, n. 3). Para que não se pense que a formação sacerdotal fique terminada no Seminário, correndo o risco de se descartar a formação permanente. Nesta caso, o cardeal Tagle avisa de que os sacerdotes transformar-se-iam nuns “lobos”. De facto, a Ordenação não é o fim da formação. Para que os sacerdotes possam levar a luz ao mundo secularizado, afirma o cardeal You Heung-sik, é preciso “reavivar o dom” e viver sempre alegres e felizes. Isto só acontece fugindo da solidão e indo ao encontro de quem precisa da luz.

Como nos inspira A. Cencini, a formação sacerdotal passa, numa primeira fase, por um processo de educação ─ dos comportamentos, das atitudes, dos sentimentos e das motivações do ser humano ─ para, numa segunda fase, acontecer um processo formativo, que dura toda a vida ─ das motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos de Cristo. No entanto, para que aconteça a passagem da primeira fase para a segunda, é preciso fazer uma opção fundamental de fé diante do equívoco de fundo pessoal. E entre aquela opção e este equívoco está a cruz pessoal diante da Cruz de Cristo. De facto, o ser presbítero é possível mediante esta configuração, que é preciso reavaliar e alimentar e reavaliar ao longo de toda a vida. (Cf. Cencini, Amedeo. I sentimenti del Figlio: il cammino formativo nella vita consacrata. Collana Psicologia e formazione 19. Bologna: EDB, 1998.)

À luz da Festa de hoje, diria que precisamos de aprender constantemente a inclinar a cabeça diante de três tipos de manifestação da sede que “sacia” uma intensa tendência para Deus:

1ª ─ Sede de saber ver (“intueor”) em profundidade e não só à superfície, ou seja, não só acumulando saberes, mas adentrando-nos na lógica de Deus, que não cabe na lógica humana. Para isso, é preciso educar bem a escuta, olhar bem para Aquele que trespassámos.

2ª ─ Sede de experimentar (“experior”), tentando o que vai completando a nossa vida, no encontro com Cristo. Para isso, precisamos de nos deixar ser trespassados pela água viva do Batismo que purifica as respostas “vinagrentas” com que procuramos atenuar os desafios difíceis da vida e dar atenção ao modo como Jesus nos vai provocando através das mediações que coloca à nossa frente.

3ª ─ Sede de testemunhar (“mártyras”) não só fazendo coisas por fazer, mas pouco e com qualidade, partindo sempre do mesmo Espírito que Cristo partilhou connosco ao “expirar”.

Enfim, a sede de quem “transpira” o desejo de Deus, em que o equívoco que impede de uma entrega se transforma numa entrega alegre, através do olhar para o irmão que sofre ou definha porque ainda não se sente pertencer ao projeto de Deus, como confirma o testemunho de Alfredo Abreu, de “Serve the City”:

Não sendo o Seminário uma instituição “total”, a formação inicial não pode terminar com a Ordenação, como se argumenta abaixo, mas tem de prolongar-se com a formação permanente. É o cômputo destas duas que a formação pode ser “única, integral, comunitária e missionária” (cf. RF, 3).