A graça da cura vem sempre depois da oração coleta

[Leitura] Tg 3, 13-18; Sal 18 B (19B), 8. 9. 10. 15; Mc 9, 14-29

[Meditação] Na segunda-feira após o Pentecostes, a Igreja, pela primeira vez, convidou-nos a celebrar a Memória obrigatória dedicada à Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja. É uma boa forma de retomarmos a vivência/celebração do Tempo Comum, desta vez na 7ª semana do mesmo. O trecho do Evangelho, tomado do lecionário ferial (só nas Festas é que se costumam tomar do Santoral ou caso as razões pastorais o inspirem), faz-nos contemplar uma cura que tem a ver com a relação entre um pai e um filho.

O primeiro aspeto que ouso partilhar, fruto da minha humilde reflexão é o de que, frequentemente, nos esquecemos que a Oração coleta (da Missa principalmente) não serve só para convocar os fiéis, mas também para invocar (como o conteúdo da mesma sempre insinua) a graça do Senhor que está quando dois ou três se reúnem em nome d’Ele (cf. Mt 18, 20). Portanto, coletam-se os fiéis para, juntos, se coletar a graça que o Senhor oferece pelo Sacramento. Foi o que Jesus conseguiu no final e apesar de tudo, com a oração unânime ao Pai, no mesmo Espírito Santo.

O segundo aspeto, partilho-o em comunhão com a análise psico-esiritual de Anselm Grün e Maria-M. Robben (em “Come curare le ferite dell’infanzia”), que sugerem que o capítulo novo do evangelho segundo S. Marcos se dedica à cura na relação pai-filho. Sem culpar o pai de tal possessão, quer analisar-se tal relação que por vezes é falida: o pai diz que o filho está possesso por um espírito impuro; por sua parte, o filho não emite nenhum som, mas manifesta-se de muitas outras maneiras (ficando rígido e espumando…). Na verdade, na relação com o pai, não encontrou espaço para falar de si e dos próprios sentimentos. Entre os dois há uma ausência total de comunicação. Não têm mais nada para se dizerem. Talvez a mudez do filho nos reenvie para uma mudez do pai, uma vez que talvez o pai também não tenha conseguido nunca emitir os seus sentimentos reais, mas apenas descrever os sinais da doença do filho.

O terceiro aspeto é a afirmação de que, frequentemente, a cura de alguém como um filho pode implicar a cura do pai (o mesmo se pode considerar entre uma filha e a própria mãe), o que permitirá a cura da relação entre ambos. Naquele cenário, podemos olhar para o fogo para o qual as forças do mal atiram o filho como se se tratasse a paixão, a sexualidade, a agressividade; e a água como símbolo do inconsciente em que ficam “arquivadas” todas as forças que “falam” sem palavras, mas com sintomas físicos que acabam por declarar o que existiu ou não existiu no crescimento de um filho. É curioso que aquele pai não peça a cura só para o seu filho: «Mas se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e socorre-nos». Pede para a relação recíproca.

O quarto e último aspeto é o da fé que preside à oração. Declara-lhe Jesus: «Se posso?… Tudo é possível a quem acredita». Por um lado, sugere àquele pai que também ele pode, desde a fé no Pai do céu, curar o filho a partir de uma nova relação com ele. Este filho levanta-se, apoiado pela mão de Jesus e, também, no descanso de uma nova relação com o pai. Aos discípulos diz o mesmo: não se pode curar estas doenças a não ser pela oração. Deixemos, hoje, que Maria nos inspire desde a sua capacidade de crer, mantendo os discípulos em oração no cenáculo na espera do Espírito Consolador, tão necessário nos relacionamentos humanos, para que, pelos mesmos, nos sintamos parte de um só Corpo, o do Filho Unigénito do Pai.

[Oração] Desde sempre que os filhos, para obter algo dos pais, frequentemente foram ter com as mães, em primeiro lugar ou reenviados por eles, para se obter a satisfação dos desejos filiais. Rezemos, pois, à Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja:

Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe santíssima, abençoai as nossas crianças e a sua relação com os pais, a quem as confiais. Guardai-as com cuidado maternal, para que nenhuma delas se perca. Defendei-as contra as ciladas do inimigo e contra os escândalos do mundo, para que sejam sempre humildes, mansas e puras. Ó Mãe nossa, Mãe de misericórdia, rogai por nós e, depois desta vida, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Ó Clemente, ó Piedosa, ó Doce sempre virgem Maria. Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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