A fé do cristão promete mais que o pé-de-feijão do João!

xxviidtcc[Leitura] Hab 1, 2-3; 2, 2-4; 2 Tim 1, 6-8. 13-14; Lc 17, 5-10

[Meditação] Há um antigo conto de fadas inglês que pode, em parte, ajudar-nos a entender e a pôr em prática a Palavra deste domingo, o do «João e o Pé de Feijão». Apresento a sua síntese com o aviso de que pode não ser a melhor das versões:

Um menino chamado João foi mandado por sua mãe ao mercado para vender uma vaca, pois eram pobres. Substituindo a figura do pai, lá foi ele tentar fazer o negócio, levando a vaca que acabou por entregar a alguém que lhe deu pelo animal um punhado de feijões. Sem dar conta de que fora enganado, talvez eufórico por ter conseguido concretizar o que a mãe lhe mandou, lá chegou o menino a casa para contar o sucedido. Já se adivinha o resultado: ouviu um ralhão da mãe por não ter trazido algumas moedas para o sustento. Zangada, atirou com os feijões para fora da janela e mandou-o dormir. Ora, durante a noite, qual o espanto quando João se deu conta de que estava a crescer um feijoeiro junto da janela do seu quarto. Foi ver e reparou que ele chegava ao céu, furando as nuvens. Aventureiro que era, não tardou em subir por ele acima até chegar a um castelo. Foi uma maravilha encontrar a galinha dos ovos de oiro que rapidamente decidiu levar para repor a alegria de sua mãe, mas… azar dos azares… acordou o dono que era um gigante que se aprontou para o apanhar e castigar pelo roubo. A esposa do gigante achou o menino tão querido que procurava protegê-lo. Lá por sorte, o rapaz voltou a encontrar o feijoeiro, apressando-se a descer por ele sem se deixar apanhar por tais gigantes figuras. Chegado cá abaixo, procurou logo cortar o “pé de feijão” com um machado, depois de ter entregado a galinha dos ovos de oiro à sua mãe.

Os nórdicos tinham várias versões deste conto, conforme as finalidades pedagógicas a partir do qual queriam corrigir a cultura. Encontra-se na Internet, inclusivamente, uma versão interessante para o aprofundamento da psicodinâmica do crescimento dos rapazes. Este conto ajuda-nos, também, a acolher a fé como um dom incompreendido que, nem sempre aproveitado como devia (como os feijões lançados fora), acaba por ter os seus efeitos. Por isso, a partir deste Evangelho, penso a fé como a semente humana da grande árvore da vida de que Deus quer que nos alimentemos, quando à medida em que tivermos a coragem de nos desligarmos de um mero dever fazer, deixando que nos nossos sonhos Deus semeie os seus projetos alguma vez insuspeitados. Esta aventura assemelha-se à saga de «João e o Pé de Feijão», apesar de não dever ser seguida no seu final: João vê-se obrigado a cortar o pé de feijão para não ser atacado pelo gigante. Na vida cristã, esse é o risco da aventura para mero proveito humano: mal se ganha o que se deseja, desliga-se da fonte que a tudo pode obter.

Quando se vive a fé com uma visão curta como a da oração inicial de Habacuc, acontece a divergência entre os foguetes e o machado. Aqueles para celebrar o sucesso efémero e este para selar a desistência perene. Por isso, Deus manda-lhe escrever a vida na base de uma visão de longo alcance, que faz da fé algo a transmitir ao longo das gerações. A partir daqui, já entenderemos a segunda parte do Evangelho: a consciência de sermos servos inúteis a partir do dever cumprido não basta. Penso que Jesus não o disse para o termos como lema de cristãos exageradamente auto-humilhados! Somos, de facto, inúteis se ao dever fazer não precedermos uma fé de qualidade, segura no que Deus fará conforme promete. A “inutilidade” vem-nos, por vezes, do facto de a nossa fé não preceder as nossas boas ações! Sem ela, serão meramente ações humanas! Para serem ações de Deus, como as que Jesus descreve serem possíveis, teremos de fazer o que devemos com o auxílio de uma fé inquebrantável.

Como é que, então, podemos manter o nosso “pé-de-fé” ligado ao céu? Proponho os seguintes “segredos” que estão à vista de todos, mas que nem todos os seguem, por falta de visão:

1° – A forma de conceber a fé: não é coisa minha, é dom de Deus, a sã doutrina que é preciso guardar, a visão de longo alcance que é preciso “escrever” bem contra todos os desejos mesquinhos e as contrariedades do tempo. Para uma mudança de visão, requer-se a participação numa contínua “lectio” (leitura) da vida humana em confronto com a Palavra divina, a partir da catequese oferecida pela comunidade ou através de outras formas pedagógicas.

2° – O transplante de vaso que a fé precisa, da família para a comunidade dos crentes que se reúne para celebrar a fé à volta de duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia. Aqui faz-se o ofertório da vida que inspira a levar a vida com a moderação de quem não pensa só na fé como útil para o sucesso nas atividades lucrativas a curto prazo. Deste ofertório pobre, sairá o ofertório infinitamente fecundo de Jesus que Se dá, para a salvação de toda a humanidade.

3º – A espera ativa que, para além da comunidade, deve transferir os valores recebidos para a sociedade, em todas as esferas do existir humano. O pé-de-fé tem de se transformar num pé-de-meia que chegue a todos, em vez da tendência de alguns quererem a galinha dos ovos de oiro só para eles. Por isso, os valores que a fé permite viver, não se podem cortar, pois Deus não se pode comparar a um “gigante” que nos queira mal, mas é Aquele que nos oferece muito mais do que possamos desejar ou imaginar.

[Oração] Sal 94 (95)

[ContemplAção] Em: <a href=”http://twitter.com/padretojo&#8221; target=”_blank”>twitter.com/padretojo</a>