Porta estreita: o espaço por onde espreita, no tempo, a luz da glória divina

[Leitura] Is 66, 18-21; Hebr 12, 5-7. 11-13; Lc 13, 22-30

[Meditação] Quem não deseja a cura na doença e a paz na tristeza? Porém, acontece, frequentemente, na alegria nos despistarmos pelo caminho da tristeza e na saúde descuidarmos a prevenção do que faz sofrer. Por isso, em qualquer “matrimónio” − seja o dos esposos, seja a esponsalidade entre cada crente ou consagrado e Deus − a correção permite a consistência da relação em todas as circunstâncias, mesmo que isso nos cause um sofrimento que será só momentâneo na vida terrena: «na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida» (do Consentimento, no Ritual do Matrimónio).

Num outro texto litúrgico desta semana ouvimos os discípulos fazer uma pergunta idêntica a Jesus sobre os que se salvam: «Quem poderá então salvar-se?» (cf. Mt 19, 23-30). A pergunta de hoje não se refere à qualidade de «quem», mas ao número de «quantos». Segundo Mateus, a resposta de Jesus refere-se ao que só Deus, que é o único Bom, pode fazer (o impossível). Em Lucas, a resposta de Jesus refere-se ao que o homem pode/deve fazer como procedimento para acolher a salvação: entrar na “porta estreita”. Portanto, quanto à qualidade só a Bondade de Deus pode julgar e possibilitar; quanto à contingência da quantidade, depende da resposta da liberdade humana no espaço de tempo que lhe é permitido viver na terra.

Segundo o Papa Francisco, “o tempo é superior ao espaço”. Esta afirmação da Evangelii Gaudium (nn. 222-225) surge como um dos 4 princípios úteis à construção do bem comum e da paz social de um povo. Trata-se de assumir a tensão (que ele chama de “bipolar”) entre a plenitude e o limite, que caracteriza toda a realidade humana, pessoal ou colectiva:

Existe uma tensão bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o limite é o muro que nos aparece pela frente. O «tempo», considerado em sentido amplo, faz referimento à plenitude como expressão do horizonte que se abre diante de nós, e o momento é expressão do limite que se vive num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço. (n. 222)

Ora, a plenitude está em Deus e é Ele que nos pode “abrir a porta” para acedermos à mesma; já o limite, este encontra-o o ser humano cada vez que se confronta com as contingências que o separam da perfeição de Deus. Por isso, na sua história com o Povo, Ele apresenta-se como um Pai que acompanha o ser humano com sentimentos e ações de paternidade, suscitando e esperando respostas filiais, como descreve a Carta aos Hebreus e, como também garante o Papa Francisco, não o faz sem Se colocar no lugar do outro e sentir o seu coração, dialogando… Por isso, é útil a correção e o sofrimento causado não só pelos limites, mas pelas más (re)ações que se decide fazer diante dos mesmos. Está provado que educar pressupõe sempre desagradar aos que se educam, sendo que isso não represente sempre a correção de um mau comportamento, mas, em sentido positivo, a defesa dos sonhos que se “matam” se não se dedicar tempo na educação ou se esta se fizer às pressas.

O objetivo de Deus foi alcançado em Jesus Cristo, que no monte do calvário possibilitou a que pudéssemos contemplar a sua glória, obedecendo-Lhe até à morte de cruz e merecendo a exaltação de Ressuscitado. A educação humana e a da fé requerem-se, no tempo e nos espaço, para resolver aquele bipolarismo da tensão entre a plenitude e o limite, sofrido na nossa humanidade e que pode resultar em distúrbio psicológico grave se não se for resolvendo com tal educação. Resistir a esta educação é fonte de infelicidade e, em última análise, de guerras interiores, familiares e entre povos e nações. Aceitá-la de bom agrado é responder ao convite de nos encontrarmos todos para contemplar a glória de Deus naquele monte prometido. Participemos neste desafio, como aconselha Etty Hillesum, começando por melhorar alguma coisa a partir do interior de cada um de nós.

[Oração] Sal 116 (117)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo