Paliativos cristãos: a mansidão, a fé e o viático

[Leitura] Mt 11, 25-30; Jo 11, 21-27; Jo 6, 51-58

[Meditação] Mansidão, fé e viático são os três “paliativos” que encontro nos textos evangélicos das três Missas desta comemoração de Todos-os-Fiéis-Defuntos. Acrescentando algo mais à ação peliativa médica − que não visa a terapêutica curativa, mas minorar o sofrimento de quem está no final do decurso da sua vida terrena − o que a Liturgia de hoje nos propõe celebrar é a vida nova de Jesus Ressuscitado é o arauto para aqueles que partiram desde mundo. Se na solenidade de Todos-os-Santos temos presente a vocação universal à santidade, neste comemoração de Todos-os-Fiéis-Defuntos celebramos a concretização da plena felicidade que consiste vermo-nos livres da morte eterna. Se os cuidados paliativos e a santidade, na sua face ascética, implicam ações, estes “paliativos cristãos” sugerem três tipos de “paixões”:

A mansidão é uma virtude moral radicada na virtude cardeal da temperança. Na verdade, de que vale exercer muito os movimentos do querer tudo e do fazer tudo, se no final, nos juntamos à sorte material comum…? A mansidão, embora pressuponha trabalho espiritual, seria o não-movimento. O povo diz: “faz mais quem não atrapalha”. Como garante a sabedoria do tempo do P. Vasco Pinto de Magalhães (s.j.), “só avança quem descansa” (Tenacitas 2012). Na última fase da vida, de facto, pode caminhar-se mais espiritualmente do que fisicamente. Provam-no tantos idosos e doentes que nos dão testemunhos belos de vida, ainda que não fisicamente ativa. O homem não vale pelo que faz ou fez, pura e simplesmente, mas pelo amor que praticou para acolher o Ser.

A fé, que é primeiramente dom teologal (divino), implica uma adesão pessoal manifestada por palavras e gestos. A profissão da fé batismal contém a resposta que permite à salvação não ser imposição. Ninguém é feliz pela obrigação de ser, ainda que a felicidade implique construção fatigosa, à moda de “quem corre por gosto não cansa”. A fé é um “ponto de encontro” na ponte entre as duas margens da vida. Esta ponte não é física e a parte da margem de lá já nos foi dada; a parte de cá depende de cada um. Passá-la implica não “vender a alma ao diabo”, mas acreditar n’Aquele que já a passou e deixou aberta de uma vez para sempre em favor de todos.

O viático é a “provisão para o caminho”, garantia de que se tem forças espirituais, mesmo depois da experiência terrena, para acolher o abraço do Pai na vida que não tem fim. O Código de Direito Canónico insiste na importância de os pastores o proporcionarem aos  moribundos conscientes de poder receber a comunhão sacramental, não por acaso, mas porque é um penhor de ressurreição após a morte, conforme Jesus Cristo nos prometeu em Jo 6, 54. O povo costuma dizer “quem vai p’ró mar avia-se em terra”. Esta afirmação bem pode caber na eminência de mergulharmos no mar da infinitude de Deus, após a morte. É um gesto que, associado à rpofissão de fé e à confissão sacramental dos pecados, atua a cristificação da pessoa que, deixando um corpo mortal, adquire o corpo glorioso prometido por Jesus.

Nunca é demais organizar uma melhor pastoral dos enfermos e moribundos e seus familiares, muito aquém e além do ato de sepultar. Não é tarefa só de padres; requer uma equipa preparada e disponível. Impede que se imponham as “caricaturas” da morte que não deixam que se mostre a Vida, que o “véu” da descrença teima em obscurecer com uma proposta de “beleza a curto prazo”. Urge ajudar a construir o lado de cá da ponte para a outra margem com estes “paliativos cristãos”. Não permitem só ter qualidade de vida no fim da vida (terrena); garantem uma entrada feliz na vida nova que não tem fim.

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