O peso da hipertextualidade da Lei ou a espiritualidade de um gesto simples?

hipertextualidade_vs_espiritualidade[Leitura] Rom 8, 12-17; Lc 13, 10-17

[Meditação] Quem navega na Internet dá-se conta que uma das suas mais valias é a hipertextualidade, ou seja, a possibilidade de podermos clicar numa palavra e irmos ao encontro do seu significado ou múltiplos significados, através da visualização de sons, imagens, vídeos, etc. Esta novidade da tecnologia da informação é tida como uma vais valia. Agora, imaginemos que num texto, todas as palavras de um texto fossem apontadores para mil significados e interpelações a outras mil interpretações: isto não só originaria uma descomunal equivocidade, como um perdermo-nos na confusão de detalhes que iriam prejudicar a compreensão do essencial, com um enorme risco, não só para a compreensão da vida, como para a eficácia dos meios. Dizem ser assim, também, com a faculdade da memória: quem tem uma memória prodigiosa para a memorização e recordação dos detalhes, habitualmente não é capaz de compreender o sentido profundo das coisas (cf. L. MLODINOW, Subliminar). O chefe da sinagoga seria forte em detalhes quanto às leis básicas, assim como na sua multiplicação em leis secundárias, terciárias, etc., até à lista de 613 preceitos, dos quais imaginamos não ter a profunda ideia do seu porquê, quanto mais da sua eficácia para uma melhor vida religiosa. A curvatura daquela mulher que se aproximou de Jesus talvez fosse também consequência do peso das leis, uma vez que ela, sem aquela hora prodigiosa de Jesus, nunca teria tido a oportunidade de ser curada. De facto, dá muito “trabalho” (porque querem!) aos legalistas certificar-se de seria devido ou não curar-se ou alguém curar no dia de sábado. Se calhar nem sequer os animais deveria comer nesses dias, uma vez que não se movimentam sozinhos… valia-lhes a ignorância da Lei por parte dos mais simples que, curvados, não poderia ver mais longe e mais alto no horizonte de sentido que deveria presidir à confeção e cumprimento da Lei. Jesus ultrapassou toda essa pesada “hipertexutalidade” das leis dos judeus para, aproximando-se e chamando-a, através de um simples gesto, lhe dar a cura há muito tão desejada. Na verdade, não existiram somente o exílio da Babilónia e da solidão, mas também o da amarra das leis desnecessárias para que a vida e a felicidade (mesmo a verdadeira) se cumpram. Fazendo um trocadilho com a mensagem de S. Paulo, procuremos viver uma espiritualidade incarnada para que os nossos corações de pedra se transformem em corações de carne. E, uma vez, transformados em carne, deixemo-nos iluminar pelo Espírito que dá vida. De “pedras duras” a carne e da carne a espírito incarnado. Penso que de pedras a espírito será difícil…

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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