navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 2Mac 12, 43-46; Sl 102, 8 e 10. 13-14. 15-16. 17-18 L 2: 2Cor 5, 1. 6-10 Ev: Jo 11, 21-27, Segunda Missa da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

No recente documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, intitulado “Venite ad Me” ─ Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época (22 out. 2026), ao falar-se das novas fronteiras da evangelização, lê-se:

É preciso reconhecer que, muitas vezes, a atratividade de tal proposta decorre de algumas carências objetivas nas formas de anúncio do Evangelho, que nem sempre conseguem levar em conta de maneira adequada as necessidades reais e concretas das famílias. Isso implica que as comunidades cristãs sejam chamadas a buscar formas saudáveis de apresentar o Evangelho como resposta eficaz também às necessidades mais tangíveis, seguindo o exemplo de Jesus, que percorria a terra de Israel «fazendo o bem e curando a todos» (At 10,38), demonstrando assim saber responder não apenas às questões últimas, mas também às “penúltimas”. De fato, nem sempre esses anseios têm uma origem egoísta (por exemplo, a preocupação com o bem-estar dos filhos, o cuidado com a saúde, o desejo de restaurar os laços familiares, etc.). Descobrir que a Igreja pode oferecer uma ajuda espiritual concreta diante dessas preocupações prepara o coração para receber o anúncio kerygmático com vigor renovado.

O que a Igreja nos está a dizer no n.º 69 destas “considerações” é que para uma eficaz evangelização em relação às questões “últimas”, somos chamados a dar uma resposta mais eficaz às questões “penúltimas” ou “tangíveis”, seguindo o exemplo de Jesus, que percorria a terra de Israel “fazendo o bem e curando a todos”.

Ontem, na Solenidade de Todos os Santos, celebrámos os “últimos” que Deus fez “primeiros” no Reino dos Céus. Hoje, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, celebramos os “penúltimos” dentro da mesma esperança da ressurreição.

Ao proclamarmos um pedaço do episódio da ressurreição de Lázaro (na primeira parte do capítulo 11 do Evangelho segundo João), contemplamos que o que acontece com Lázaro, morto havia quatro dias, na verdade, é uma reanimação. A Palavra de Jesus, ao dizer «Lázaro, vem para fora!» (v. 43) é a Palavra criadora, que realiza o que significa. Com esta obra, Jesus está, também, a preparar a fé dos seus discípulos para a fé na Sua ressurreição, uma vez que o Sinédrio está para decidir a Sua morte (nos vv. 45 a 57 do mesmo cap. 11).

Desta forma, ao lidar com a morte de um amigo muito chegado, e da perda das duas irmãs Marta e Maria, Jesus está a responder a uma situação “penúltima”, como “penúltima” é a partida dos nossos entes queridos, parentes e benfeitores. E podemos dizer, na fé, como “penúltima” é a situação de todos os fiéis defuntos que se encontram no Purgatório.

Imitando Jesus, na sua vida terrena, podemos, também nós, proclamar a Palavra que realiza a vida eterna, acompanhada de “sacrifícios de expiação pelos pecados” dos que morreram. Neste diz, a oração é de esperança, uma esperança achada diante de Deus como não sendo em vão, à maneira do Judas Macabeu. Segundo este, a nossa oração pode ser proveitosa não só para os nossos irmãos que partiram, mas também para alimentar o piedoso pensamento de morrer piedosamente.

Não podemos alimentar a ideologia de que, diante do “tribunal de Deus” não há mais nada a fazer pelos nossos irmãos defuntos, como alguns protagonizam. Se fosse assim, Marta, irmã de Lázaro, estaria calada com um choro mudo. Caminhar à luz da fé, como incentiva Paulo, é ter uma visão ainda não muito clara do que irá acontecer. O que ele nos garante é que «todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que receba cada qual o que tiver merecido enquanto esteve no corpo». E ele mesmo refere «quer o bem quer o mal», portanto não só o mal, mas também o bem. O momento final é o de separar o trigo do joio (cf. Mt 13,24-30), ação essa que só Deus poderá fazer na sua perspetiva divina.

Para quem, como Marta, reclama a presença da compaixão do Senhor, certamente Ele não nos deixará “exilados” para sempre, nem neste corpo, nem na etapa da Igreja purgante que é o Purgatório. É o próprio Jesus que o diz, leiamos bem:

Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá.

Portanto, Lázaro, mesmo dentro do túmulo, enfaixado, pôde acreditar em Jesus. Também hoje, podemos rezar para que os nossos entes queridos e todos os que já morreram para este mundo, acreditem em Jesus.

Hoje rezo, de forma especial, por todos aqueles que não têm nesta terra quem reze por eles.