L 1: Ex 22, 20-26; Sl 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab L 2: 1Ts 1, 5c-10 Ev: Mt 22, 34-40, no Domingo XXX do Tempo Comum (A). Reflexão inspirada, em parte, em Meditar a Palavra, Pe. Pedro Rodrigues (Liturgia Diária-Paulus).
No início da celebração, rezámos na oração Coleta (aquela que nos convoca a nós, ao que somos e ao que trazemos, verdadeiramente):
Deus todo-poderoso e eterno,
aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade;
e, para merecermos alcançar o que prometeis,
fazei-nos amar o que mandais.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus
e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo,
por todos os séculos dos séculos.
Parafraseando esta oração cheguei ao título desta reflexão, de encontro aplicação da Palavra de hoje na nossa vida cristã.
Portanto, “alcançamos amando”! Ontem escutámos o Apóstolo a dizer (Ef 4, 7-16):
…já não somos crianças inconstantes, levados ao sabor de todas as correntes de doutrina, à mercê da maldade dos homens, da astúcia com que induzem ao erro. Pelo contrário, praticando a verdade na caridade, cresceremos em tudo para Cristo, que é a Cabeça. É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e unido por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico, segundo a atividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade.
Portanto, novamente, só alcançaremos a verdade na caridade que é o amor posto em prática.
Se pusermos os olhos em Deus, vemos que Ele acompanhou o Povo no seu caminho dando prioridade a quem? Recordemos o Livro do Êxodo: o estrangeiro, o órfão e a viúva, o pobre, o próximo. As pessoas que vivem situações de pobreza, sejam a que nível for, é como se tivessem um “alarme” ─ que o autor do livro chama de “clamor” ─, mas que não precisa de “detetor” para Deus, porque Ele o escutará diretamente, com eficácia e sem interferências. E Ele escuta até ao profundo!
Diferentes são os seres humanos, sobretudo se não estiverem atentos e capazes de imitar esta sensibilidade de Deus. Os seres humanos precisamos de muitas mediações e no meio delas, colam-se, por vezes, muitas interferências ou ruídos.
Vejamos: o que é que levou Jesus a responder aos fariseus sobre o “maior mandamento da Lei” da seguinte forma?
‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas.
Na verdade, Ele uniu o que os fariseu, saduceus e doutores da Lei, no seu tempo, tinham separado: o amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos. (E deveríamos dizer aqui o que se diz a respeito do Matrimónio: “não separe o homem o que Deus uniu”.)
Ora, os fariseus seguiam rigidamente um total de 613 leis (chamadas de mitzvot): 365 mandamentos negativos: são as proibições (“não farás”), associadas tradicionalmente aos 365 dias do ano solar; e 248 mandamentos positivos: são as obrigações (“farás”), associadas na tradição antiga ao número de ossos e órgãos do corpo humano. Eles memorizavam e aplicavam os 613 preceitos extraídos da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia), juntamente com um vasto conjunto de tradições orais que regulavam minuciosamente o dia a dia.
Não admira que os fariseus, com tanta preocupação e ao tentarem cumprir estas leis, que na verdade não conseguiam, esqueciam-se dos outros seres humanos que tinham à frente, mesmo que algumas leis se referissem aos outros, mas em outro nível que em relação a Deus ou de forma separada de Deus. Ora, Jesus coloca o amor aos nossos semelhantes no mesmo nível d’Aquele que nos fez seus semelhantes. Portanto, semelhantes no ser, semelhantes no atuar na relação uns com os outros e com o Outro.
Há mais relação de profundidade de Deus Criador e do Jesus Redentor com os seres humanos do que com as leis. As leis são sempre mediações (boas ou más), mas nunca substituirão quer cada ser humano na sua situação quer o ou ouvido de Deus a seu respeito.
Para uma vida cristã plena, o “amor ao próximo como a nós mesmos” não é opcional, mas colocado a par do “primeiro e maior mandamento” que é “amar a Deus sobre todas as coisas…”. Todo o Antigo Testamento, nos livros da Lei e dos Profetas, nunca Deus deu autorização para que a justiça fosse separada do amor a Deus. Como é que, chegados ao tempo de Jesus, o amor de Deus importe e a justiça para com os irmãos não importe?
Alguns Santos conhecidos têm expressões que nos podem ajudar a pôr em prática esta simetria, no nosso tempo:
Santo Agostinho: “Ama e faz o que queres”, não que o amor dispense a verdade, mas quando é realmente o amor de deus a trabalhar em nós, o ser humano não humilha o seu próximo, não manipula, não se fecha em si mesmo.
São João Crisóstomo: “Se não reconhecemos Cristo no pobre à porta, dificilmente O reconheceremos no altar”. Não porque o pobre substitua a Eucaristia, mas porque o mesmo Senhor que se dá nela quer ser amado no irmão concreto.
Santa Teresa de Ávila: “O progresso na oração mede-se pelo crescimento no amor concreto. Rezar muito e amar pouco é ilusão.”
São Gregório Magno: “A prova do amor de Deus está nas obras de misericórdia. Não para cairmos num moralismo ativista, mas para percebermos que o amor, se é real, procura expressão. Quem ama a Deus deseja agradar-Lhe; e agradar a Deus passa sempre por respeitar, servir e consolar os seus filhos.
Apóstolo Paulo: “Ainda que fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que ressoa ou um címbalo que retine” (1Cor 13,1). De facto, podemos ter muitas qualidades e ser cumpridores em muitas coisas, mas se o amor cristão não for como Jesus ensina e pratica esses dons e asceses não valerão de nada.
Santo António: “A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras.”
O amor cristão não é abstrato, mas tem rosto, tempo, custo e responsabilidade. Quando o próximo é amado em Deus, a religião deixa de se um formalismo e torna-se comunhão. Para isso, é preciso ter um coração indiviso. Num coração onde só cabe Deus e não cabem os irmãos, esse deus não é o verdadeiro. Num coração onde também só estivesse uma amizade aos outros sem Deus, esse coração não amaria em profundidade e capaz de dar a vida até ao fim.
Enfim, é preciso deixar que toda a vida dependa destes dois mandamentos e que neles tudo encontro o seu peso, a sua beleza, a sua paz.
Sugestão para esta semana: de manhã, todos os dias, ao levantarmo-nos da cama ou de cada vez que nos levantamos para caminhar, de um sofá, olhemos para os dois pés e as pantufas, chinelos ou sapatos que temos calçados. Vejamos num o amor que devemos a Deus no outro o amor que devemos ao próximo como a nós mesmos, na mesma pessoa e no mesmo caminhar. Imaginemos o que seria caminhar com um sapatão num dos pés e um sapatinho no outro. Não caminharíamos com equilíbrio, nem chegaríamos a nenhum lado. Também é assim no caminho para o Céu!
