L 1: Ef 1, 1-10; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4. 5-6 Ev: Lc 11, 47-54, na memória de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja
Ontem usámos as imagens da “vibração por simpatia” e de “antirressonância” para caracterizar, respetivamente, a relação entre os fariseus e doutores a Lei, e estes e Jesus. No enquadramento do Evangelho de hoje, Jesus parece-me ser um “diapasão” perfeito que o Pai usa para afinar a humanidade. Jesus é o “diapasão” perfeito da sabedoria de Deus. Ele veio à terra emitindo a tónica original do Reino: a revelação plena do amor, da justiça e do plano de Deus sobre os homens.
Como sabemos da música, um diapasão, pro ser feito de material consistente, não cede, não muda de tom e não se deixa moldar pelos ruídos ao seu redor: ele emite uma frequência pura e absoluta (a tónica), servindo de referência única para que todos os outros instrumentos de um coro ou orquestra se possam afinar e tocar em perfeita harmonia.
Ora, nós cremos e sabemos que a revelação plena dos desígnios de Deus só Jesus a trouxe aos homens. Só Jesus nos ensina a entender a vida como Deus a entende e a vivê-la em resposta ao seu plano de amor por nós. É para isso que a “chave da ciência” deveria servir: para interpretar as Escrituras à luz do tom do amor de Deus. Os doutores da lei, em vez de usarem as Escrituras para “afinar” os corações das pessoas, transformaram a Lei num labirinto de preceitos exteriores. Os doutores da Lei fazem-me lembrar um colega de formação musical que estava a atirar o curso de direção coral que, ao bater com o diapasão para ele dar o som previsto, depois premia com a mão com as barras de metal e a vibração terminava, impedindo o coro de entrar no mesmo tom. Assim, os doutores da Lei forçavam o povo a tocar uma música desafinada pelo medo, fardos e rigidez moral.
No final, dá a impressão que os perseguidores de Jesus O querem matar, ou seja, quebrar aquele “diapasão” que nos coloca em harmonia com o amor de Deus Pai. É curioso que, ao longo da história, alguns não aguentassem a pureza ou a clareza da afinação de uma só nota, de onde deriva a afinação de uma variedade de dons ao serviço de um mesmo projeto comum da Salvação. Matar os profetas foi a tentativa desesperada de silenciar o tom que desmascarava a desafinação geral. Também acontece assim hoje: os ruídos deste mundo tentam obstruir a escuta para uma afinação que nos coloque em sintonia com a justiça de Deus. Como sabemos, o diapasão emite um som que precisa de estar perto na massa corpórea do ouvido, ou no crânio, ou numa placa de madeira ou outra superfície. É um som que não se impõe, mas precisa de ser escutado com atenção e, até, silêncio. É assim que se deve preparar toda a boa execução musical: dando-se primeiro espaço ao silêncio.
A nós resta-nos afinar a nossa vida a partir do “diapasão” que é Jesus, tendo por referência o exemplo dos profetas e apóstolos. Desde Abel até Zacarias, os profetas funcionaram como ressonadores desse mesmo “diapasão divino” ao longo dos séculos. Os profetas foram fiéis ao tom, não inventaram uma nota nova; eles apenas replicaram fielmente a tónica de Deus em cada época, chamando o povo à profundidade espiritual.
Santa Teresa de Jesus foi uma incomparável mestra da vida interior. Na sua obra-prima, O Castelo Interior (ou As Moradas), Teresa descreve a alma humana como um castelo feito de um único diamante ou cristal, onde a presença de Deus habita no centro mais íntimo. À luz da espiritualidade teresiana, os conceitos de ressonância (simpatia), antirressonância e o diapasão ganham uma dimensão mística e psicológica profunda:
Deus é uma presença vibrante instalada no centro do castelo da alma; Deus é a tónica divina que nunca deixa de emitir a sua nota de amor. Teresa dizia que “Deus comunica-Se à alma e dá-Lhe a Sua graça de tal modo que parecem uma só coisa”. Teresa diria que os adversários de Jesus se ficaram pelas “primeiras moradas” — a periferia do castelo, cheia de “répteis e bichos” (o orgulho, as honras humanas, o medo do julgamento alheio). Eles fecharam as portas do centro e, por isso, não perseguiram esse centro e impediram os outros de entrar. É a oração que nos pode ajudar continuamente a afinar o caminho para o centro. Teresa alertava frequentemente as suas freiras sobre o perigo de viver para o olhar dos outros ou para o “ponto de honra” (a reputação social), chamando a isso uma prisão que impede a verdadeira oração. Quando a alma se enche de si mesma, da sua autossuficiência e das suas certezas morais rigorosas, torna-se como um cristal coberto de lama. A Luz de Deus bate nessa superfície rígida, mas ainda não consegue entrar. A Ilusão da Ciência: Sobre os doutores da lei que “tiraram a chave da ciência”, Teresa — que não tinha estudos teológicos formais na universidade, mas possuía uma ciência mística direta — lembrava que saber muito não é o mesmo que amar muito: “O aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito; por isso, fazei aquilo que mais vos desperte para o amor.” (Fundações 5, 2)
Portanto, o caminho que Teresa nos aconselha é este:
- Entrar dentro de si mesmo, passando da periferia para o interior. Deixar os “ruídos e saudações da praça pública” e tomar consciência de que o Rei da Glória habita no centro do seu ser. A porta de entrada é a oração.
- Desprender-se da reputação e das aparências, reconhecer que o “dízimo da hortelã e da arruda” de nada serve se não houver humildade. Para Teresa, “a humildade é andar na verdade”, sem disfarces.
- Alinhar a vontade com a de Deus: entrar em sintonia e união. Procurar a consonância absoluta com Jesus. Não impor “fardos aos outros”, mas carregar a Cruz com amor e servir o próximo com justiça e misericórdia.
- Tornar-se uma caixa de ressonância do Amor: a sinfonia em ação. A alma perfeitamente afinada pelo Diapasão Divino não guarda a música para si: transborda em obras concretas de amor, paciência e fraternidade.
Não cuideis, meus filhos, que a coisa está em trazer preceitos e leis no exterior como fardos pesados, enquanto o coração permanece frio como sepulcro. Olhai para o Mestre: Ele é o tom certo da alma. Se vos mantiverdes junto d’Ele na oração humilde, todo o vosso ser começará a ressoar com a Sua justiça e o Seu amor, e a vossa vida fará a música que o Pai deseja ouvir.
─ Santa Teresa de Jesus
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A respeito desta liturgia da Palavra, é oportuna a leitura deste artigo de opinião: Direito Canónico e Pastoral, do Padre Tiago Machado, Diocese de Lamego.
