L 1: Gl 5, 1-6; Sl 118 (119), 41 e 43. 44-45. 47-48 Ev: Lc 11, 37-41
Jesus não tem nada contra a que se faça higiene às mãos, o que Ele não quer é que se faça desse tipo de coisas um preceito religioso. A religião, para Jesus, implica mais a higiene do coração que coloca as mãos a fazer obras do amor que é e vem de Deus.
É preciso, pois, ter um coração puro para conseguirmos participar na obra da caridade. Aliás, melhor dito, a caridade é feita de ações realizadas por Deus através das nossas mãos a partir de um coração puro. Quer dizer, um coração que coopera com a Palavra de Deus e não a obstrui, um coração que faz frutificar as sementes da Palavra.
À boa maneira profética, Jesus estabelece a contraposição entre a religião formalista e legalista do exterior, tão característica dos fariseus, e aquela religião que Deus quer, a do interior (nota desta perícope na Bíblia da CEP). «Dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo». A esmola, que é um tema tão caro ao evangelista Lucas, e é perfeitamente legítimo e teologicamente enriquecedor interpretar e viver a “esmola de dentro” nestes dois sentidos complementares:
- O pecado entregue no altar da misericórdia que é o sacramento da reconciliação. Muitos mestres espirituais e santos (como São Jerónimo, São Francisco de Assis ou Santo Agostinho) lembram-nos de que a única coisa que realmente possuímos, fruto da nossa fragilidade e liberdade decaída, é o nosso pecado; tudo o resto nos foi dado por Deus. Por isso, também agrada muito Deus que Lhe entreguemos os nossos pecados como “esmola” de uma vida mais santa, que nos predisporá a servi-l’O melhor. Não admira que Jesus diga «tudo o resto fica limpo» (as ações externas deixam de ser hipocrisia).
- A vida toda entregue no altar da Eucaristia, para que Cristo nos possa, com Ele, fazer dom para os outros. A Eucaristia é o sacramento da caridade divina. Nele, Deus Pai dá-Se em Jesus Cristo no Espírito Santo. Trazer o que está “dentro” para o altar da Eucaristia significa oferecer os afetos, as dores, a gratidão, os desejos e as intenções interiores. É colocar o coração no altar junto com o pão e o vinho para que seja transfigurado no Corpo e Sangue de Cristo. A Eucaristia não termina no templo; desdobra-se no quotidiano. A “esmola de dentro” torna-se a doação sincera de si próprio aos outros: o perdão interior, a paciência, a compaixão e a caridade que não nasce de um mero dever externo, mas do amor que habita na alma.
Parafraseando Paulo, a verdadeira liberdade consiste em libertarmo-nos das coisas exteriores para vivermos firmes na fé que brota do interior. O jugo da escravidão é o apego demasiado às coisas acessórias e mundanas. A circuncisão que Cristo quer é a do coração. Só a fé que brota do Espírito de Deus no nosso interior é que nos pode levar a praticar a caridade.
