L 1: Gl 2, 1-2. 7-14; Sl 116 (117), 1. 2 Ev: Lc 11, 1-4 ou Lc 1, 26-38, na memória da Virgem santa Maria do Rosário. O itálico é da admonição da memória em liturgia.pt.
Num encontro muito especial do clero da Diocese de Viseu com o Núncio Apostólico em Portugal, neste último 5 de outubro, após a sua comunicação foi dado aos participantes fazerem perguntas. À pergunta sobre o que mais gostava em Portugal e o que poderia melhorar, ele respondeu sem “papas na língua”, mais ou menos com estas palavras: Portugal tem uma religiosidade popular fenomenal, talvez o deva ao grande centro espiritual que é o Santuário de Fátima; porém, é uma religiosidade popular pouco evangelizada. Não é que se deva tirar ou diminuir os momentos ou formas de religiosidade popular, mas purificá-las e/ou iluminá-las com o Evangelho.
Num breve estudo do Secretariado Nacional da Liturgia, há uns largos anos, sobre a relação entre a Piedade Popular e a Liturgia, aprofundava-se que enquanto esta informa a Piedade popular com a Verdade que é Cristo, a Piedade Popular confere o afeto que que a celebração da Liturgia precisa para uma melhor predisposição para receber essa Verdade.
As leituras propostas para a liturgia de hoje demonstram-nos como podem existir duas posturas diferentes diante da novidade com que, muitas vezes, se apresenta a Verdade que é Cristo, nascido para salvar a humanidade: a resistência dos apóstolos às provocações de Paulo, quanto à forma de evangelização dos gentios (a circuncisão imposta aos judeus pode ser hoje visto com um aspeto acessório da religião; já as “tricas” entre uns e os seus seguidores era o acessório da serpente para dividir em vez de unir); a docilidade de Maria diante da anunciação do Arcanjo. Por vezes, entre os humanos, mesmo quando se trata de decidir coisas acerca da vida da fé ou da religião, acontece uma certa regressão ao não-diálogo entre a mulher Eva e a serpente, relatado no Génesis. Debate-se exageradamente sobre o que é acessório e não se certifica unanimemente o que é central ou essencial. Não é o acessório que nos pode levar a dar frutos, mas o essencial!
Não era à toa que Francisco de Assis dizia aos seus irmãos: «Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível». Certamente, ele constatava que os seus irmãos andavam ansiosos com a posse do acessório, levando-os a dar o primeiro passo em relação ao que é necessário. E diante do que é necessário não é preciso discutir, mas trabalhar. Fazer o necessário é uma grande terapia para a ansiedade! Dar passos na realização do necessário com fé, mesmo que não se compreenda. Como Maria!
E fazer pequenos passos com perseverança. O necessário é o que está diante de nós e não pode ser adiado. Ação com paciência e constância. De modo que grandes mudanças podem nascer de atitudes discretas. O primeiro passo não precisa de ser reconhecido por ninguém, precisa apenas de ser feito.
A fé transforma pequenos passos em caminho, não garantindo que seja fácil, mas com confiança suficiente para continuar. É como caminhar à noite com uma lanterna: ela não ilumina quilómetros, porém mostra o trecho necessário para dar o próximo passo. Na vida quotidiana, isso pode significar resolver uma tarefa pendente, retomar uma conversa, cuidar da saúde ou simplesmente levantar depois de uma fase difícil. Os pequenos passos parecem modestos isoladamente, mas criam direção quando são repetidos.
No caminho da fé, é a perseverança (uma espécie de “motor” da esperança) que trabalha entre o começar e o alcançar um resultado. A mudança não significa sempre tomar uma decisão isolada, mas constitui uma soma de escolhas aparentemente comuns feitas durante semanas, meses ou anos.
Sugestões para pôr em prática a perseverança no dia-a-dia:
- Se tudo parece demais: escolhe primeiro o que é realmente necessário e concentra energia nisso. Comece com um passo pequeno. O primeiro passo não precisa resolver tudo. Ele apenas precisa colocar a vida novamente em movimento.
- Se o objetivo parece distante: identifique aquilo que já é possível fazeres com os recursos disponíveis hoje.
- Se o resultado demora: valorize o progresso, mesmo quando ele ainda parece pequeno. Respeite o processo. Mudanças profundas costumam crescer aos poucos, alimentadas por disciplina, esperança e perseverança.
- Se surgir o desânimo: lembra-te que a constância não exige perfeição, apenas disposição para recomeçar. Confie no caminho. A fé pode ajudar a continuar mesmo quando ainda não é possível enxergar claramente o resultado final.
De modo semelhante ao encontro de Maria com Gabriel, também este Arcanjo nos aparece todos os dias, para nos anunciar a Boa Nova. É curioso que na língua italiana as palavras Anjo e Evangelho são muito próximas foneticamente: “Angelo” e “Vangelo”. O Gabriel é o mensageiro da Boa Nova do nascimento de Jesus proposto a Maria. Não é por acaso que o seu nome signifique “Deus é forte” ou “força de Deus”.
Por vezes, na nossa caminhada de fé e de resposta ao chamamento do Senhor, precisamos de nos lembrar que Deus é forte em nós, mesmo no meio de dúvidas e fraquezas. O que precisamos de fazer é dialogar com Ele, ponde-lhe todas as dúvidas na oração, não deixando de pôr à sua disposição o nosso ser ou a nossa existência.
Esta memória da Virgem Santa Maria do Rosário foi instituída pelo Papa São Pio V no aniversário da vitória obtida pelos cristãos na batalha naval de Lepanto (em 1571) e atribuída ao auxílio da Santa Mãe de Deus, invocada com a oração do Rosário. A celebração deste dia é um convite a todos os fiéis para que meditem os mistérios de Cristo, em companhia da Virgem Maria, que foi associada de modo muito especial à encarnação, à vida pública, à paixão e à ressurreição do Filho de Deus.
Ora, se a oração do Rosário une numa só dinâmica os mistérios das várias etapas da vida de Cristo, então a oração (na relação quotidiana, recíproca e profunda, entre a Liturgia e a Piedade Popular) pode ser, também, uma forma de conquistarmos a unidade das etapas da nossa história pessoal e das dimensões do nosso ser e da nossa formação pessoal, entre o já dado e o ainda não descoberto.
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Um parêntesis oportuno:
A partir de hoje, até ao dia 14 de outubro, o Santo Padre Leão XIV vai reunir bispos de todo o mundo num encontro sobre a pastoral familiar, no 10.º aniversário da exortação ‘Amoris Laetitia’, de Papa Francisco. O texto de apoio propõe cinco eixos de reflexão e convida a «caminhar com as famílias em situações complexas» e questiona: “Que passos foram dados para apoiar aqueles que vivem situações de fragilidade ou dificuldade? Que resistências emergem? Como construir comunidades cristãs nas quais aqueles que fizeram a experiência do sofrimento, do abandono, da separação e do divórcio possam sentir-se verdadeiramente escutados, participantes e corresponsáveis?”.
Contemplo esta efeméride como uma réplica daquele encontro de Paulo e Pedro, narrado aos Gálatas. Por isso, proponho a seguinte oração:
Pelo Santo Padre e pelos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, que se encontram para celebrar o 10º aniversário da exortação apostólica Amoris Laeitita, para que, guiados pelo Espírito Santo, possam encontrar caminhos para um renovado acompanhamento espiritual das famílias, fortalecendo a alegria do amor nos lares e oferecendo um acolhimento misericordioso a todas as realidades familiares. Oremos, irmãos.
