navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Gal 6, 14-18; Salmo 15 (16); Mt 11, 25-30, na Festa de São Francisco de Assis, no 74º Aniversário da Escola Superior de Saúde de Santa Maria (Porto)

Nesta festa em que celebramos o vosso 74º aniversário, evocando a figura de São Francisco de Assis (de quem amanhã se celebra os 800 anos da sua morte), a Igreja propõe-nos escutar a boa nova agora mesmo proclamada do cap. 11 do Evangelho segundo Mateus. Podemos acolhê-lo como se tratasse de uma bula de medicamento, onde encontramos os seguintes elementos descritivos: princípio ativo, contraindicações, posologia, efeitos secundários, composição e conservação da embalagem.

  1. O princípio ativo presente neste Evangelho é a verdade revelada através de um abraço com o Pai em Jesus Cristo, disponível para todos os que se sentem pequeninos ou simples. Ser simples ou humildes é a única predisposição necessária para o recebermos. Na vossa atividade científica, nesta Escola Superior de Saúde, o que quotidianamente vos ocupa é também isto: procurar a verdade sobre a condição humana de doença e, ao mesmo tempo, os procedimentos que podem curar a vida humana. Então, como fez Jesus, já aqui duas realidades a abraçar: os que padecem e a fonte ou os procedimentos de cura. O abraço acontece através destes dois braços que podemos contemplar em cada uma das nossas vidas.
  2. As contraindicações ou cuidados especiais a ter durante o tratamento, é não se afastar deste abraço por meio de Jesus. A revelação da verdade que vem do Pai só pode ser percebida por meio da amizade com Jesus. A amizade com Jesus reage a todo o tipo de indiferença e autossuficiência, mas pode ser tomada em qualquer circunstância, uma vez que só pode ter benefícios colaterais. E quando, por vezes, temos dúvidas da sua presença, olhemos para a pessoa mais próxima, sobretudo a mais vulnerável.
  3. Quanto à posologia, a verdade do amor do Pai, que está no abraço a Jesus, é para ser tomada todos os dias, uma vez que dela depende o sentido das nossas vidas, muito para além das nossas existências terrenas, que procuramos, apoiados nesse amor divino, responder ao dom de uma vocação. A maneira de “tomar” este medicamento da verdade do amor é responder ao convite de Jesus a irmos ter com ele ou, se estivermos a cuidar de alguém, levá-lo a essa pessoa, ainda que de forma escondida na aparência de um procedimento. E Ele convida, ainda, a tomar sobre o nós o seu “jugo”, que é leve e só dá descanso.
  4. Não raras vezes, alguns procedimentos de saúde são delicados, também por causa da eventualidade de haver efeitos secundários. Mas neste procedimento que é o abraço em Jesus, não há efeitos secundários nocivos ou maléficos. Por isso, se quisermos impedir o impacto pesado de alguns procedimentos, teremos de aprender com Jesus, através da sua mansidão e humildade de coração. Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!»
  5. Por fim, na composição da embalagem deste abraço humano-divino não precisamos de ir à farmácia, nem de pagar alguma coisa por ele. É gratuito e está contido em cada uma das nossas existências. E quanto aos cuidados de conservação é necessário dar abraços, para não nos esquecermos de como se faz. Abraços verdadeiros, mesmo quando eles significam sairmos dos nossos espaços de segurança. Porque um abraço verdadeiro cura quem o dá e quem o recebe. A certa altura, como acontece com a saúde física, o medicamento e quem o toma tornam-se um só, porquanto o objetivo é restituir aquilo que faltava ao paciente.

Caríssimos estudantes, professores e funcionários desta Escola Superior de Saúde, São Francisco de Assis é um dos casos de sucesso na cura integral que está na busca de sentido para a vida em Jesus, através da verdade que está no abraço do amor do Pai. Também ele deixou tudo o que lhe pesava para trás e se apercebeu de que a melhor forma de contemplar o bem e o belo é a simplicidade e a mansidão. Mesmo diante das circunstâncias mais difíceis. É sobretudo nestas que precisamos de aprender, também com o exemplo deste Santo, que nenhuma arrogância conduz a Deus e que o ensino de Jesus é sempre pessoal. Ele não ensina coisas, mas dá-Se a Si mesmo, na cruz, como nos disse São Paulo na primeira leitura. Aprendeu isso com o abraço do Pai no Espírito Santo. Por isso, para nós, não basta dar o acessório. É como se déssemos a um paciente só a caixa ou a bula do medicamento. É preciso administrar o princípio ativo com todos os cuidados e tendo em conta todas as recomendações contidas numa bula, que está sempre em permanente atualização. E o contacto ou proximidade humana antes do relatório.

Santo Ireneu costumava dizer que a glória de Deus é o homem vivo. Por isso, caríssimos, não fiqueis contentes só porque tirais boas notas, mas pelo valor aqui acrescentado diariamente da vossa vidas em favor das vidas que ides salvar ou dar conforto. Pois, atirai mais para a frente com as vossas aspirações e à vossa volta. Li no vosso site que “o teu futuro começa aqui”, provando-se que a vossa escola tem pontes fortes com as instituições clínicas. Li, também, nos testemunhos ali disponíveis, que contactais aqui com profissionais de elevado nível, que se promove aqui o pensamento crítico para além de todo o saber, sois uma comunidade bastante unida e divertida. Para tudo isto, é preciso ser-se revolucionário, no meio das culturas em que vivemos.

Para imitar Jesus na mansidão e na humildade, como fez Francisco, é preciso ser-se revolucionário e, por vezes, aos olhos do mundo, ser-se um pouco louco e contraditório. Porque muitos pensam que ser-se manso e humilde são sinais de fraqueza, mas não: são sinais da força revolucionária do amor. Já pensastes que a palavra inglesa REVOLUTION inclui a palavra “LOVE” ao contrário?

Como sabemos, Francisco de Assis tratava o nosso corpo como irmão. No desenvolvimento dos vossos estudos, nesta Escola Superior de Saúde, tratai de tudo e de todos com familiaridade, para aprenderdes a tratar deste dom que Deus nos deu, em cada pessoa, com cada procedimento, com um cuidado que faça perceber aquele abraço com o Pai em Jesus.

Durante este verão, esteve em Lisboa o historiador italiano Alessandro Barbero, que, a partir de uma análise das várias biografias escritas pelos seus contemporâneos, defende que São Francisco de Assis era “um emaranhado de contradições contínuas” de onde surge “uma personagem enorme”. Em todos os olhares que este autor vê naqueles que escreveram sobre Francisco, ele vê “um homem extraordinário”. Mais ainda, vê em Francisco uma pessoa excecional, para além de qualquer regra. Antes de se converter, Francisco já sabia que ia ser ser um homem famoso e que seria falado em todo o mundo, mas enganou-se na forma: em vez de ser um cavaleiro, descobre que irá ser um reformador ou restaurador de vidas, da Igreja, não criticando pelas faltas, mas permanecendo dentro, cuidando deste dentro, revolucionando desde dentro. Isto pode trazer-nos alguma sabedoria quanto ao carisma que aqui aprendeis: a verdadeira cura acontece de dentro para forma. Não é mera cosmética. Mesmo a beleza que os nossos olhos gostam de contemplar é algo que é potenciada por valores ou convicções que estão enraizados no nosso interior. É como o “danoninho” (passe a publicidade): mete-se para dentro e isso vê-se por fora. É como qualquer medicamento ou procedimento em que interagem elementos que vêm de fora, mas começam a implementar a cura desde dentro. O mistério da vida pede-nos ajuda e aprendizagem, mas revela-nos a força daquele abraço que está sempre estendido: o abraço do Pai em Jesus no Amor que é o Espírito Santo.