Cant 2,8-10…; Sl 127; Rom 15,1b-3a.5-7.13; Mt 19,3-6
N. e N., escolhestes as leituras para esta Liturgia da Palavra do vosso Matrimónio, conforme certamente escolhestes os pratos que vão ser servidos na vossa boda. Na verdade, o Matrimónio na Igreja é a boda de todas as bodas, o banquete esponsal que se prolonga no convívio à mesa.
Sabeis que a leitura do Cântico dos Cânticos esteve, por um triz, para não ficar dentro do cânone da Bíblia? Seria um desperdício! Imagino que ao escolhê-lo, também, vós para a primeira leitura deste dia, vós revivestes o que ali é dito num tom amoroso e poético: Eis a voz do meu amado! Ele aí vem, transpondo os montes… O meu amado ergue a voz e diz-me: Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem… E no meio destas declarações contemplamos elementos que descrevem a solidão e elementos que descrevem o que a supera: por um lado, muro, janela, grades, fendas dos rochedos, encostas escarpadas; por outro, a voz, o rosto, a escuta, o ser um para o outro.
No matrimónio, o que ajuda a superar a solidão, transpondo muros, janelas e grades é a coabitação dos esposos, ter largos horizontes, a liberdade. A voz do amado ergue-se e diz: “levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem”. No Matrimónio, uma voz que se levanta nunca deve ser para derrubar, para rebaixar, reivindicar ou, meramente, para repreender. Nunca se deve baixar o volume da voz que se ergue para elevar e aproximar os cônjuges.
E, agora, a mensagem mais extraordinária: o caminho do Matrimónio é a possibilidade de viver o amor como algo que é mais forte do que a morte. Já repararam que as tatuagens que se veem por aí são só escritas por debaixo da pele. No Matrimónio, a tinta do amor é gravada como um selo no coração dos cônjuges, antes ainda do que o selo no braço. As tatuagens na pele, que também podem ter um objetivo profundo, hoje em dia até se podem apagar, mas a tatuagem no coração, essa não há raio laser que a apague. É que o amor bem guardado pelos valores do Matrimónio – que vão fazer parte do interrogatório que antecede o consentimento entre os esposos: liberdade, indissolubilidade, fecundidade – nada nem ninguém poderá abalar.
Poderíamos perguntar agora: quem conseguirá viver esta liberdade, indissolubilidade e fecundidade do amor? É o Salmo responsorial a dar-nos a resposta: “Felizes os que esperam no Senhor; felizes os que andam nos seus caminhos”. Por isso, nos momentos de crise ou de dificuldade, é preciso voltar a rever que muros, que janelas pequenas, que grades impedem que o amor seja livre, firme e fecundo; voltando quotidianamente a ouvir a voz do amado ou da amada, olhando o seu rosto, e não encobrindo o selo que está gravado com profundidade no coração.
O Evangelho fala-nos da vocação matrimonial, que eu, hoje em dia, gosto de ver e apresentar como uma consagração especial. Naquele tempo, os fariseus quiseram pôr à prova Jesus sobre esta questão: «É permitido ao homem repudiar a sua esposa por qualquer motivo?». Faço aqui um parêntesis: no tempo de Jesus, um homem poderia mandar a sua esposa embora se ela tivesse deixado queimar o arroz. E a esposa não poderia ajudar o seu marido a crescer ou a corrigir seja que aspeto fosse para o bem dos dois. Acham bem? Por isso, a resposta de Jesus volta a atenção para a origem do amor: foi o Criador que os fez homem e mulher com esta ordem – deixar… para se unir, para ser uma só carne, não dois, mas uma só carne. Não separa o homem o que Deus uniu. é esta a vocação dos cônjuges a partir do Matrimónio: viver uma unidade profunda que faz do homem e da mulher parceiros e co-criadores de Deus. Para isso, o homem e a mulher precisam de deixar de estar divididos, procurando uma unidade de vida que os fazem parecidos com Deus.
E é isto que faz o homem e a mulher adultos e inteiros ao mesmo tempo. Sabeis quem é o adulto? (Poderíamos aqui apresentar os 5 limiares para a vida adulta…) É aquele que tem mais alegria no dar do que no receber. Para que o Matrimónio seja esta ambiente integrador que ajuda a crescer para a adultez, a família precisa de ser Igreja doméstica. É por isso que são Paulo diz na segunda leitura que “O Deus da esperança vos encha plenamente de alegria e de paz na prática da vossa fé, para que se fortaleça cada vez mais a vossa esperança, pela virtude do Espírito Santo. Assim, ajudarão os filhos a ter os mesmos sentimentos uns para com os outros. Aprendi que educa mais os filhos o amor recíproco entre o pai e a mãe, do que o amor no pai aos filhos e da mãe aos filhos. Este também pode e deverá existir, mas quando falha o amor entre os esposos, visto pelos filhos de baixo para cima, como se de um guarda-chuva se tratasse, semeiam-se as inseguranças pela vida fora.
