navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Is 5, 1-7; Sl 79 (80), 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20 L 2: Flp 4, 6-9 Ev: Mt 21, 33-43, no Domingo XXVII do Tempo Comum (A), dentro da Semana Nacional da Educação Cristã. Os itálicos são das admonições em liturgia.pt

D. António Couto ajuda-nos muito bem a perceber os antecedentes e o contexto do Evangelho de hoje. Jesus encontra-Se nas imediações do Templo atribuídas aos pagãos, onde Ele expulsa os vendilhões do templo e também curou vários doentes. É ali que as autoridades judaicas questionam Jesus, pedindo-Lhe as Suas credenciais: «Com que autoridade fazes estas coisas, e quem te deu essa autoridade?». Jesus nunca lhes responde diretamente e também lhes coloca perguntas. Sobre a origem do Batismo de João, desafia-os a responder «O batismo de João de onde era? Do céu ou dos homens?», ao que eles respondem «Não sabemos». Então, Jesus não lhes revela com que autoridade faz estas coisas. De seguida vêm as parábolas: as dos dois filhos (meditada no domingo passado), a dos vinhateiros homicidas (proclamada hoje) e a do banquete nupcial (próximo domingo).

Demoremo-nos na parábola proclamada hoje. Só quem não quiser ver é que não descobre que esta parábola é praticamente uma biografia do povo de Israel. Tanto na primeira leitura como no Evangelho, é a casa de Israel, o povo de Deus. O Senhor cuida deste povo como o bom agricultor cuida das suas vinhas. Mas este povo nem sempre correspondeu ao carinho que o Senhor teve para com ele. Usando a mesma comparação que já encontrámos na primeira leitura, Jesus como que faz o julgamento do seu povo, que, no fim de ter sido, já tantas vezes, infiel a Deus ao longo do Antigo Testamento, agora O rejeita a Ele, o próprio Filho que Deus lhe enviou. O resultado será que outros virão a aproveitar do dom que eles rejeitaram. Foi assim que os pagãos, estranhos até então ao povo de Deus, vieram a entrar no seu povo, a Igreja de Cristo, a que hoje pertencemos.

Segunda a forma de dizer do biblista Ermes Ronchi, “as minhas dúvidas, os meus pecados e a minha traição não podem deter o Seu plano, que avança apesar de mim: a vinha dará fruto, pois Deus não desperdiça a Sua eternidade em vingança”. Como observamos na parábola de Jesus, diante das sucessivas agressões aos servos do dono da vinha, onde podemos ver os profetas maiores e menores enviados por Deus ao seu povo, até à morte do seu próprio Filho, a atitude de Deus não é de vingança. Deus nunca usou nem usará de violência. Mas como o Reino eterno é d’Ele, Ele faz dele o que Ele quiser, ou seja, “arrenda-o” a outros que o possam fazer frutificar a partir deste mundo.

Portanto, nunca pensemos que algum dia tomaremos de uma vez por todas posse deste Reino, porque corremos o risco de nos desviarmos dos desígnios de Deus e Ele não deixa o seu projeto em mãos que não o cuidem. E o “espaço” em que isso pode acontecer são as imediações do Reino, representado no Templo, a própria Igreja e os seus diversos “adros” da pastoral. É preciso, nas nossas comunidades, estarmos atentos em como cuidamos do projeto de Deus: nas relações, nas coisas, na família, na profissão, na cidadania, etc. Conta-se que um dia, São Francisco de Assis (de quem estamos a celebrar os 800 da sua morte) estava a viver numa cabana (porque ele não queria que ele e os seus freis tivessem casas) e alguém lhe perguntou “vais para a tua cabana?”. Ele, só porque lhe atribuíram como “sua” imediatamente a deixou. Muitas vezes acontece assim, também, connosco desde os brinquedos da infância: quando chamamos uma coisa muito só nossa deixamos de cuidar dela convenientemente e partimos para outra atração. Também pode acontecer com as coisas que Deus coloca nas nossas mãos para administrarmos, não possuirmos!

Uma vinha importante a cuidar, no hoje da nossa história, é constituída pelos mais novos. Estamos a viver, de 2 a 11 de outubro a Semana Nacional da Educação Cristã, animados pelo tema «Artífices de uma nova humanidade». Na nota pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé para esta semana, descobrimos que “somos todos convocados” a estar “conscientes de que educar é um bem comum e um ato de esperança”. “Todos somos convocados para um pacto educativo que coloca a pessoa no centro da ação e da finalidade educativa, inclusiva e participada. Somos desafiados a envolver e a conduzir as crianças e adolescentes para o saber e, principalmente, para a sabedoria e a profecia, a partir da fonte de vida nova que é Cristo Ressuscitado”. Embora possam acontecer caminhos de errância, o ser humano permanece sempre acompanhado pela providência de Deus, que faz sempre novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). Para colaborar com Deus, podemos deixar que Ele nutra todas as nossas dimensões. Para isso, podemos começar por cultivar relação e a interioridade com a sabedoria do coração. No fundo nesta nota lemos o que já São Paulo exortava aos Filipenses… (cf. Flp 4, 6-9).