navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ef 4, 1-7. 11-13; Sl 18 A, 2-3. 4-5; Ev: Mt 9, 9-13, na Festa de S. Mateus, apóstolo e evangelista

A vasculhar um pouco sobre a atividade pesca, descobri que a isca é a ponte essencial entre o pescador e o peixe. Independentemente da técnica utilizada, a escolha, a qualidade e o papel da isca determinam em grande parte o sucesso da pescaria. Descobri, também, que um dos fatores de decisão ao escolher a isca par a pesca chama-se “Match the Hatch” (adequação à presa): o tamanho e o formato da isca devem corresponder aos organismos dos quais os peixes estão se alimentando naquele local e época.

Ora, o que é que isto terá que ver com o Evangelho na Festa de hoje? Nos inícios da sua vida pública, junto ao mar da Galileia, Jesus convidou os seus discípulos a ir atrás d’Ele, para fazer deles pescadores de homens. E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram-n’O (cf. Mt 4,19-20). À primeira vista, este chamamento parece ser “genérico”: o chamamento de homens para a “pesca” de homens. Neste capítulo 9 de Mateus, dentro do título “Os primeiros sinais do Reino”, aparece-nos a narração do chamamento de Levi, entrelaçada com narrações de atos extraordinários de cura e de libertação do mal. Já não se trata de um chamamento “genérico”, mas de um chamamento extraordinário, que mistura convite a seguir Jesus e conversão de um pecador, e de aproximação a muitos outros pecadores.

Na história de Mateus, como na de Saulo, como na de tantos homens e mulheres da história, o chamamento por parte de Jesus manifesta-se como que por um escândalo. Mateus era um publicado impostor e Jesus diz-lhe “segue-Me”, e senta-se à mesa em sua casa com os publicanos e pecadores. Jesus rompe com a lógica de pureza ritual da época, uma afirmação explícita de comunhão com quem a sociedade considerava “perdido”.

Estes chamamento extraordinários vêm corroborar a teologia do chamamento divino que pode ser descrito pelos seguintes pontos:

  1. Estas histórias vocacionais extraordinárias mostram-nos que é Deus que, primeiro, anda à nossa procura, não somos nós que primeiro O procuramos e se o fazemos, quase sempre não é por um motivo totalmente puro. Nós vivemos imersos nas nossas rotinas ou convicções, por vezes, antagónicas ao Evangelho (senão na teoria, pelo menos na prática). O olhar de Jesus antecede qualquer mérito humano.
  2. Com a sua ação de chamar, Jesus veio deixar claro o que tinha sido dito pelo profeta Oseias (6, 6: «Quero Misericórdia e não sacrifício»). Ele deixa claro que veio para os pecadores. A misericórdia não é apenas um sentimento, mas o critério supremo de ação de Deus.
  3. A transformação do passado em instrumento missionário: o passado dos chamados que parecia uma desqualificação, torna-se ferramenta para a missão: a vocação de Mateus demonstra que a misericórdia de Deus não é apenas o perdão das faltas passadas, mas a capacitação imediata para uma missão que transforma o indivíduo em testemunha radical do Evangelho.
  4. A prontidão e a radicalidade da resposta ao chamamento divino não servem apenas ao indivíduo vocacionado; funcionam como um catalisador comunitário e evangelizador. Quando alguém abandona abruptamente uma vida consolidada para seguir Jesus, esse ato produz um impacto social e espiritual imediato nas pessoas ao redor. Estas respostas vocacionais imediatas e extraordinárias produzem um efeito de evangelização por contágio, como pontes entre dois mundos, com renúncias fortes que validam o testemunho. Isto manifesta que ninguém está fora do alcance de Deus, abrindo-se uma porta de esperança a pessoas que humanamente pareciam irrecuperáveis.

D. Vitorino Soares, na homilia da sua tomada de posse na Diocese do Algarve, ajuda-nos a sintetizar a boa nova de hoje. Partilho aqui este excerto significativo:

Antes de existir qualquer pastor humano, Deus é o verdadeiro pastor. Manifesta o seu rosto em Jesus Cristo. Antes da missão do bispo está sempre a iniciativa de Deus. É Ele que procura a ovelha perdida. É Ele quem cura a ferida. (…) Uma Igreja onde ninguém se sente excluído é um esforço para todos os batizados. Uma Igreja que acolhe, escuta, acompanha, evangeliza é um esforço para todo o povo de Deus. (…) Jesus não pergunta a Pedro: És competente? És inteligente? És um bom administrador? … Sabes falar inglês? Pergunta apenas: «Tu amas-Me?». Toda a missão nasce desta pergunta. sem amor a Cristo não existe verdadeiro ministério. Sem amizade com Cristo, o pastor transforma-se em simples gestor. Sem oração, a missão torna-se um peso. Sem Evangelho as estruturas esvaziam-se. Mas antes de confiar as ovelhas, Jesus conquista o coração do pastor. E Jesus faz a pergunta três vezes; é como se cada uma das respostas apagasse cada uma das negações de Pedro. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É assim que Deus trabalha: não escolhe homens perfeitos ou mulheres perfeitas, mas pessoas disponíveis para serem transformadas pela sua misericórdia.

Antes que a resposta vocacional de quem é chamado, seja em que circunstância for, tenha um impacto na vida dos outros, é o amor de Deus através de Jesus a ter impacto na vida de quem é chamado. Paulo, na primeira leitura, ajuda-nos a perceber qual é o conteúdo desse impacto, com os critérios que ajudam a progredir a vocação de quem é chamado:

  1. Primeiro é um chamamento à perfeição cristã, através da humildade, mansidão e paciência, caridade, unidade e paz.
  2. Depois apresenta a razão desse perfeição, o facto de haver uma só fé e um só Senhor.
  3. Em terceiro lugar, o dom de Deus é ministério e serviço aos outros para o aperfeiçoamento de todos.

Portanto, o processo vocacional cristão nunca será um processo de exclusão, mas de integração, através de um caminho de conversão. Segundo parece a ação de Jesus mostra-nos que a pastoral vocacional funciona melhor por contágio, mais do que por proselitismo (ou doutrinação). O contágio atrai pela experiência viva, testemunho e acolhimento. O proselitismo tenta impor conceitos e dogmas de fora para dentro, priorizando a adesão teórica sobre a transformação pessoal e comunitária. A liturgia da Palavra de hoje pode ajudar-nos a descobrir métodos mais eficazes para a evangelização da vocação sacerdotal. Precisamos de posturas (palavras e gestos) que levem outros, seja a que distância se encontrem, a levantarem-se e a seguir Jesus.