São particularmente significativos os números 7 e 8 da homilia de D. António Couto neste Festa. Neles encontro uma explicação plausível que há muito andava à procura quanto ao modo de o dizer, para uma tentativa de compreensão da relação entre a ignomínia da Cruz e a sua glória, entre a condenação mais terrível e a árvore da vida.
Primeiro reflete sobre se a Cruz era necessária ou não:
7. Era então necessário que Jesus sofresse na Cruz, daquela maneira, por nós? Sim, porque, para nos salvar, Deus não podia senão amar-nos. E, para nos amar, tinha sempre de vir viver connosco, no meio de nós, e sujeitar-se naturalmente às maldades e violências daqueles que Ele amava. Não. Deus não é sádico nem masoquista. Deus é amor. Se nós fôssemos todos bons, seguramente que Jesus não teria sofrido e morrido naquela Cruz. Porquê? Porque não era necessário? Não. Mas simplesmente porque, sendo nós todos tão bons, quem é que de nós ia fazer uma coisa daquelas?!
Depois, uma definição de Cruz:
8. Atenção, portanto: a Cruz não é o nosso pecado. É a imagem do nosso pecado! Sim, a imagem. Porque o pecado, a realidade do pecado, essa está em nós, e foi ela que produziu aquela imagem a sangrar. Sim, está ali a imagem da nossa violência e estupidez. Vendo bem a imagem, podemos ver então a realidade, o mal que há em nós, habitualmente escondido e dissimulado. A Cruz também não é o amor de Deus. É a imagem do Amor de Deus!
É importante notarmos que esta festa da exaltação da santa Cruz é celebrada no dia a seguir ao aniversário da dedicação da basílica da Ressurreição, em Jerusalém, a 13 setembro 335, depois da qual a relíquia da verdadeira cruz foi mostrada à veneração dos fiéis. Há aqui uma vitória histórica de uma cruz recuperada por Santa Helena e seu filho Constantino, depois do roubo pelo louco Cosroé II e dos templos santos “submersos” pelo paganismo do imperador Adriano. Tudo a servir de fundo a uma vitória real, teológica, pascal, e não menos histórica, do bem sobre o mal, e da vida nova sobre a morte.
O triunfo da cruz refere-se a um modo de sofrer que cura. A Cruz é uma escola de amor (S. Maximiliano Kolbe), onde a dor nunca tem a última palavra nem é o fim. As palavras de Jesus ditas no encontro com Nicodemos
o Filho do homem será elevado,
para que todo aquele que acredita
tenha n’Ele a vida eterna.
Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna
levam-nos muito mais além do livramento da morte física narrado em Números 21 com o olhar para a serpente. A fé em Jesus morto e ressuscitado concede a vida eterna. Com o uso do verbo elevar refere-se a uma necessidade: é para que todo aquele que acredita n’Ele tenha a vida eterna (cf. nota 4 em Jo 3).
Deus deixa-se encontrar onde o mundo decreta o fracasso e a humilhação. Elevar o olhar para Cristo não é fechar os olhos ao sofrimento num otimismo vazio, mas ter a coragem de encarar a própria fraqueza, porque é nesse chão desarvorado que a misericórdia se ergue como vida nova. (Laboratório da Fé)
No meio de tantas incertezas que metem medo e de promessas ilusórias, a Cruz de Jesus e as nossas próprias cruzes são a realidade mais prometedora de elevação que atrai, ou de ressurreição. A cruz é o preço de amar a sério até ao fim. Jesus não andou à procura da morte. Andou à procura da verdade e pagou por isso. Por isso, se a tua cruz hoje pesa mais do que devia, se sentes que já não consegues sozinho, ouve isto: tu não foste feito para carregar tudo sozinho. Nem Jesus carregou a dele sem ajuda. Houve um Simão de Cirene. Procura o teu. Ou sê tu o Simão de alguém (P. João Torres).
