navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ez 33, 7-9; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9 L 2: Rm 13, 8-10; Ev: Mt 18, 15-20, no Domingo XXIII do Tempo Comum (A)

Hoje, a liturgia da Palavra traz-nos à reflexão o tema da correção fraterna. Este tema trespassa os textos da Sagrada Escritura e nas fontes que inspiraram os escritores bíblicos. Por exemplo, nos escritos do Mar Morto, na comunidade de Qumran (séculos II a.C. a I d.C.), encontra-se o seguinte excerto da intitulada Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina (cf. D. António Couto):

Corrijam-se mutuamente com verdade, humildade e bondade. Ninguém fale ao seu irmão com ira, resmungando e com maldade, mas advirta-o no mesmo dia em que comete a falta, para não carregar ele mesmo com a culpa. Ninguém advirta o seu próximo diante de todos, se primeiro não o fez perante algumas testemunhas.

Neste e no próximo domingo, proclamamos o chamado Discurso Eclesial de Jesus no Evangelho de Mateus, no capítulo 18. Este discurso de Jesus ajuda-nos a ver a comunidade dos seus discípulos como Ele a vê: «não como uma associação de indivíduos, em que cada um pode fazer o que lhe apetecer sem se interessar minimamente pelos outros. Pelo contrário, Jesus ensinou e acentua de forma clara o comportamento obrigatório que devem assumir aqueles que o seguem. Entenda-se obrigatório, porque diz o que é necessário para entrar no reino dos Céus, que é a meta a não perder» (D. António Couto).

O capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus mostra-nos assim os traços gerais da vida fraterna, falando da conversão, da autocorreção, da procura de quem se perdeu, correção do irmão que erra, oração comum, perdão das ofensas… tudo para quem vive na comunidade dos discípulos de Jesus. Consideremos alguns aspetos importantes a respeito do trecho de hoje:

  1. “O teu irmão…” – o reconhecimento de uma ligação.
    O fio condutor que liga todos estes aspetos da comunidade de Jesus é o reconhecimento de uma ligação que está primeiro e que nos permite reconhecer o que nos faz ser comunidade. Se estamos aqui juntos é porque o Senhor nos chamou à fé e a partilhar este caminho, sob a motivação da fraternidade. No Evangelho, a correção só tem uma motivação: a fraternidade partilhada. E não meramente o ter rezão a respeito de um determinado conjunto de valores.
  2. “Vai ter com ele e repreendo-o a sós”: a responsabilidade de uma iniciativa.
    A fraternidade traduz-se, agora, por responsabilidade: a responsabilidade de tomar a iniciativa de dar um passo até ao outro, sem autorização do outro. E se do irmão ouvirmos expressões como “porque me dizes isto?” ou “porque me queres corrigir?”, a resposta deverá ser “porque és meu irmão/minha irmã e isso me basta”. Ser irmão é um título e um motivo suficientes para se dar este passo. Para além do passo a dar, existe o conteúdo (a verdade que se deve dizer) e o modo (a caridade com que dizê-lo). Não esquecendo que a correção é sempre de irmão para irmão, não havendo nenhum superior a não ser Deus que é a fonte da verdade e do amor.
  3. “Terás ganho o teu irmão”: o sentido de qualquer correção evangélica.
    É uma só a preocupação de quem corrige o seu irmão: ganhá-lo, reconquistá-lo, fazê-lo reencontrar a comunhão num caminho partilhado. Não se trata de fazer justiça ou de “fazer as contas” ou “fazê-lo pagar”. Isto não é cristão! Trata-se de ajudar o irmão a dar passos no caminho de comunhão, a reencontrar a fraternidade perdida.
  4. “Comunica-o à Igreja”: o horizonte eclesial do problema.
    Há uma espécie de escalada no texto transmitido por Mateus: o primeiro nível e o “tu a tu”, o segundo nível é “com duas ou três testemunhas” e o terceiro que faz recorrer à comunidade eclesial. A dimensão eclesial da correção fraterna ajuda-nos a perceber como uma correção não pode ser reduzida a uma questão privada. Mesmo quando se trata de uma iniciativa individual, a correção permanece sempre uma atitude eclesial, porque o que faço é em nome da Igreja, da comunidade à qual eu e o meu irmão pertencemos. Compreendemos melhor isto com esta afirmação de São Paulo: «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1Cor 12,26).
  5. «Seja para ti um pagão…”: mas… ao estilo de Jesus.
    Esta conclusão ─ acusar o outro de pagão ─ não é muito fácil, assim como não é fácil a iniciativa de corrigir alguém. A quem se distanciou como irmão perdido, costuma-se reservar frieza e desprezo destinado aos pagãos, aos pecadores, aos traidores. A este respeito, o melhor que temos de fazer é fazê-lo ao estilo de Jesus. Quem são para o Mestre o publicano e o pagão? Como os olha Jesus, como os trata? Jesus é considerado amigo dos publicanos e dos pecadores, frequenta as suas casas, encurta as distâncias, aproxima-Se, dá sempre o primeiro passo, à procura de todos. Do ponto de vista de Deus todos são filhos, mesmo os que se afastaram (cf. parábola do filho pródigo).

Portanto, Jesus ensina-nos a “não romper a relação com quem se foi embora, ir ao encontro, oferecer comunhão a quem não quer ou não procura mais comunhão; sobretudo, não julgar e não desprezar”.

O Papa Francisco terá dito uma vez que «aquele que pede desculpa é corajoso, o que perdoa é o mais forte e o que esquece é o mais feliz».