navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Jr 20, 7-9; Sl 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9 L 2: Rm 12, 1-2; Ev: Mt 16, 21-27, no Domingo XXII Dominto do Tempo Comum (A)

O texto do Evangelho de hoje forma uma unidade muito íntima com o trecho do domingo passado. Hoje temos a resposta ao porquê Jesus ordena aos seus discípulos que não digam a ninguém que Ele é o Messias, o Filho de Deus. Pedro, que inspirado pelo Eterno Pai, acerta corretamente na definição da identidade de Jesus (Messias, o Filho de Deus vivo), mais adiante, no caminho da Paixão, dissuade Jesus de cumprir a sua missão, que implica passar pela Cruz.

Nesta passagem do dizer ao fazer, faltou a Pedro o que muitas vezes nos falta a nós: o discernimento espiritual. Não basta sabermos coisas acerca de Jesus, é preciso praticá-las como Jesus fez. Os italianos têm um dito que é “Tra il dire e il fare c’è di mezzo il mare”, quer dizer: entre o dizer e o fazer existe o grande mar no meio. O jesuíta P. Vasco Pinto de Magalhães publicou um livrinho muito pequenino e fácil de ler com o título “Fazer o Bem, Bem Feito“, onde precisamente explica que

Para fazer o Bem há que escolher o bem maior entre vários bens possíveis. Mas não basta! É preciso, também, escolher o melhor modo, o mais humano, de o pôr em prática: fazê-lo «bem feito», isto é, do modo mais construtivo. E mais ainda: para escolher o maior bem ou o caminho mais humano, seja qual for a circunstância, é necessário cultivar a liberdade interior. Este é o Segredo! Mas há também o caminho, o discernimento na sua dupla aceção: primeiro identificar,
distinguir e lidar com a variedade dos estados de espírito e, depois, o processo de ponderar alternativas para chegar a uma boa decisão.

O discernimento é uma capacidade, que podemos cultivar, de lidar com a realidade na sua complexidade para encontrar caminhos. Não é, portanto, nada teórico nem é só para determinados momentos ou determinadas circunstâncias. O discernimento é uma ferramenta intelectual, de vontade e de coração, para o confronto com as situações e as escolhas conforme Deus quer. Discernimento é, assim, distinguir e analisar de forma correta as situações com que nos deparamos, para encontrar a decisão adequada a fazer, para escolher bem um caminho. É uma capacidade ou talento, mas também uma graça e uma sabedoria dadas pela fé, para nos sabermos orientar em cada momento num percurso de vida.

A nossa vida, como a do Apóstolo Pedro, é feita de altos e baixos. Umas vezes estamos em “alta” mesmo quanto à nossa fé e, outras vezes, somos confrontados com “sombras” manifestadas por aquelas ações que não nos correram tão bem, por diversos fatores internos e externos ao nosso querer. Não há uma linha reta para ninguém. E, como sabiamente diz o povo, “só Deus é que escreve direito por linhas tortas”!

Santo Inácio de Loyola, em quem o P. Vasco Pinto de Magalhães se inspira, fala de “bom espírito” e de “mau espírito” para nos levar a compreender que no mar da vida há que apanhar a onde do bom espírito, e não a do mau espírito. Aquela onda leva-nos a bom porto, a onde o mau espírito não nos leva a lado nenhum. Santo Inácio sabia que na nossa vida há muitas ondas, internas e internas e tudo se agita. O discernimento ajuda-nos a concentrarmos toda a nossa atenção sobre os nossos afetos, ordenando-os para escutarmos e acolhermos qual é o desígnio de Deus a nossa respeito.

O desígnio a respeito de Jesus, do qual Ele mesmo estava convencido, era como está escrito: “tinha de ir (era necessário ir) a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. E o desígnio para os seus discípulos “ter em vista as coisas de Deus”, através do método que Jesus ensina aos seus discípulos para não andarem “à deriva” no mar da vida: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras”.

A tradução verdadeira do gredo para o “Vai-te daqui, Satanás” é, segundo os biblistas, “vai para trás de mim”. Pedro tinha um olhar mais amplo quanto ao dizer, mas muito fechado quanto ao fazer a vontade de Deus. Por isso, Jesus coloca-o no lugar certo para aprender a pôr em prática a Palavra de Deus: atrás do Mestre. E dizer não a si mesmo. Para se dizer sim ao desígnio de Deus.

Caríssimos irmãos, por vezes parece-nos muito duro aceitar este modo de ver as coisas ­─ perder a vida para a ganhar ─, porque, precisamente, o espírito mau não nos ajuda a ver as consequências desastrosas do ganhar a vida neste mundo para a perder no outro. A solução está à vista: aprender e treinar o discernimento espiritual diariamente, para não interpor pensamentos, afetos e ações que demorem a pôr a Palavra de Deus em prática. Isto implica levar a nossa atenção pessoal ao ginásio do silêncio, no meio de tanta hipercomunicação que nos enfraquece o desejo das coisas de Deus, na lógica do amor a Ele e ao próximo como a nós mesmos.

Temos na primeira leitura um exemplo extraordinário: Jeremias, apesar do escárnio de que era alvo, deu conta como o Senhor o seduzia e dominava positivamente. Desta forma, era livre para dedicar toda a sua vida como profeta do bem. E Paulo, muito antes de Inácio de Loyola, exorta a que nos ofereçamos a Deus como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não nos conformando com este mundo, mas transformando-nos pela renovação espiritual da nossa mente, para sabermos discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.