navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Is 22, 19-23; Sl 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 6 e 8bc L 2: Rm 11, 33-36; Ev: Mt 16, 13-20, no Domingo XXI do Tempo Comum (A)

Chegados quase ao final do verão, todos os anos nos calha refletir sobre este Evangelho, nas suas versões sinópticas de Mateus, Marcos e Lucas. Neste ano, refletimos com Mateus. Jesus está com os seus discípulos em Cesareia de Filipe, ao norte da Palestina, no ponto mais longínquo de Jerusalém. Numa zona de forte paganismo.

Os discípulos andam com o Mestre há mais ou menos dois anos e meio, a aprenderem com suas palavras e gestos a lógica do Reino. E eis que, chegados a este ponto ─ que mais parece uma “rampa” para Jerusalém ─ lhes faz uma grande pergunta: Que dizem as pessoas que Eu sou? E vós, quem dizeis que Eu sou? A mesma pergunta para dois tipos de grupo: as pessoas em geral e o núcleo dos discípulos com os quais Ele tinha partilhado o caminho mais de perto. Nos Batizados da comunidade e nos que O frequentam mais de perto na Eucaristia, também nós somos hoje interrogados por Ele. Quem é Jesus para mim? Ficar só com a resposta dos outros ou o que os outros dizem que é Jesus prende-me a uma zona pagã.

Entendamos, primeiro a pergunta:

Jesus não procura definições, mas relações; procura uma relação viva: que coisa te aconteceu quando Me encontraste? Que mudou em ti? Quanto conto para ti? Que lugar ocupo na tua vida? São perguntas de um enamorado (P. Ermes Ronchi). Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, da sua pessoa, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte, não sobre o saber, mas sobre o dizer (D. António Couto). Quer saber, também qual a razão porque é que os discípulos O seguiam.

Entendamos, então a(s) resposta(s):

A primeira resposta, referida às gentes ─ «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas» ─, embora contendo alguma verdade, porque Jesus também é profeta, não chega a ser verdade total, porque não é só um profeta como todos os outros que houve até Ele e não é simplesmente um profeta.

A resposta que Jesus procura é dita pela boca de Pedro: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», que compreendemos logo a seguir pela declaração de Jesus que Pedro não as diz por saber profundamente quem Ele é, mas porque o Pai lhas revela. É Jesus quem dá conta disso e lho diz. Jesus não tem necessidade da resposta para saber se é mais bravo que os outros rabinos, Ele quer saber se Pedro e eu lhe tenhamos aberto o coração (P. Ermes Ronchi).

Portanto, caríssimos irmãos, não basta sabermos coisas acerca de Jesus e do seu Reino, mas é preciso dizer-Lhe. Ele quer que façamos com Ele o que tentamos todos os dias na relação com quem amamos: dizendo as coisas como devem ser ditas. É esta a melhor forma de aprofundarmos as relações. As coisas não devem ser só pensadas, mas ditas. Porque a palavra honra, como diz sabiamente o povo. Quem diz, compromete-se, dá testemunho (D. António Couto).

E eis que a resposta inspirada a Pedro o coloca a jeito de uma missão importante: «… Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Interessante! Agora, é Jesus a dizer a Pedro quem é para Ele. Jesus está a chamá-lo vocacionalmente entre o nome e a missão ─ Tu és Pedro e sobre esta pedra (Pétros – pétra). Quem edifica a Igreja não é Pedro, é Jesus que a constrói sobre a sua relação com Ele e a sua verdadeira identidade de Filho de Deus. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados (D. António Couto). E aonde os filhos hão de ser perdoados.

É curioso, por fim, que o Evangelho começa por um questionamento sobre o dizer sobre a identidade de Jesus, e termina com um convite a não-dizer a ninguém que Ele é o Cristo ou o Messias. Portanto, o Evangelho de hoje abre com o dizer e fecha com um não-dizer. Onde ficamos?! Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será? Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-27, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (D. António Couto). Apesar de Pedro, neste episódio do caminho, ter acertado inspiradamente na identidade de Jesus, mais adiante vai tentar desviá-l’O da sua missão de entregar a vida na cruz pela humanidade.

Aqui podemos concluir com o P. Ermes Ronchi que as chaves e as ações de ligar e desligar [que Jesus entrega a Pedro] são símbolos mais universais e radicais que não o poder jurídico da absolvição no sacramento da reconciliação. (…) Dar-te-ei as chaves: dou-te o poder de entrar como uma energia transformadora, como o primeiro passo numa viagem até pelas experiências humanas mais sórdidas e perdidas. Pode tornar-se uma presença transfiguradora, fazendo aquelas coisas que só Deus pode fazer: orar por aqueles que o magoaram, sentir a dor da dor do mundo, ter uma profunda empatia por tudo o que vive — são coisas divinas. Assim, tu e eu também nos podemos tornar uma pequena rocha sobre a qual construir um futuro melhor. Não uma pedra de moinho, apenas um seixo, mas nenhuma pedra pequena é inútil. Serei algo, Senhor, se o Senhor fizer do meu nada algo que possa ser útil a alguém.

Então, caríssimos irmãos, não fujamos à pergunta, porque a mesma nos mete no laboratório permanente não só sobre o que pensamos sobre Jesus, mas também sobre o que rezamos n’Ele ao Pai e, ainda mais, do que podemos deixar que Ele faça através de nós em favor dos outros. Assim, de um “batismo cultural” meramente transmitido de gerações em gerações, fazemos das nossas vidas uma relação direta dentro do amor inefável que a Santíssima Trindade tem para com a humanidade, que através dos nossos corações Ela manifesta em gestos divinos feitos por mãos humanas.