navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ez 28, 1-10; Sl Dt 32, 26-27ab. 27cd-28. 30. 35cd-36ab Ev: Mt 19, 23-30, por ocasião de uma celebração de Bodas Matrimoniais.

Caríssimos N. e N., caríssimos familiares, irmãos e amigos. Nesta celebração comunitária da Eucaristia, em que incluímos a renovação das vossas promessas matrimoniais, estamos aqui para nos darmos conta de que a família matrimonial nos ajuda a viver o sentido da Palavra de Deus que aqui proclamámos.

Parafraseando uma afirmação a propósito do livro “Viver do Evangelho”, do P. Mário Rui de Oliveira, e ao encontro do Evangelho de hoje: a forma como vivemos materialmente anda de mãos dadas com o modo como servimos vocacionalmente.

No centro do Evangelho, nas palavras de Jesus, está o “mundo renovado”, com cuja luz Ele orienta sempre os nossos passos para a verdadeira e duradoura felicidade. Mesmo diante de “eclipses” que fisicamente tapam o sol por completo, imagem que podemos usar para as “sombras” que teimam em tapar a fonte da fraternidade e da paz, na verdade nenhum eclipse consegue tapar o sol totalmente por, em média, mais de 2 a 4 minutos. Mas na verdade, o sol continua sempre lá e a lua anda sempre às voltas. O sol é consistente e a lua variável. O centro é o sol, os planetas andam à volta dele. É assim com a luz da verdade e todas as ações que a sustentam! Deus é o centro de onde vimos e para onde vamos e nós caminhamos em espiral à volta d’Ele, aliás, como parece acontecer com a nossa galáxia.

Para a lógica do Evangelho, o problema não está nas riquezas em si, mas na forma como o coração humano lida com elas. Enquanto que os nossos pés e mãos andam ocupados com o digno sustento nesta terra, o nosso coração é chamado a andar ocupado com as realidades do mundo renovado.

Conforme aprendemos na profecia de Ezequiel, chamado pelo Senhor Deus a profetizar diante do soberano de Tiro, se aquela relação entre o coração e o céu se inverter para a terra, começará o ser humano a substituir a Deus, a distanciar-se de si próprio e de quem ama e a deitar a perder todos os seus bens e dons, fugindo do fim para que foram criados.

Para não cairmos neste risco de nos considerarmos “deuses” ou para não termos pretensões divinas, a solução é o caminho da vocação, que é sempre um caminho de conversão: deixar de adorar tudo para adorar só a Deus é a melhor forma de olhar e amar todos e a vida que Ele nos deu de forma divina.

Neste sentido, desde o lugar de criaturas que adoram o verdadeiro Deus, não há lugar para medos. O que diz a profecia parece um paradoxo, mas é verdade: se diante das dificuldades ou do inimigos nos considerarmos deuses, vamos perder; se, pelo contrário, nos considerarmos criaturas que adoram o verdadeiro Deus e esperamos o destino que Ele nos reserva, ganharemos sempre. Como diz o povo sábio: não diga a Deus que tem um grande problema; diga ao problema que tenho um grande Deus. Em vez de dar tamanho à dificuldade diante da nossa crença, lembramos que a força de Deus é sempre maior do que qualquer obstáculo, assim como é maior do que qualquer riqueza à face da terra. Assim como a Sua misericórdia é maior do que qualquer pecado nosso. Foi fazendo-Se pobre que Jesus nos enriqueceu com a sua graça!

Como diz a profecia, há mais perigo em darmos conta que não somos deuses na luta contra os inimigos, do que em sabermos que tendo Deus como Senhor, nenhum inimigo prevalecerá.

Taybeh, a última vila inteiramente cristã na Cisjordânia, foi incendiada pelos chamados colonos, e infelizmente o exército os deixou fazer isso, como acontece com frequência. O Patriarca Latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, comparou explicitamente Israel ao mal e, abordando a comunidade cristã, acrescentou: “Mesmo quando o mal parece invencível, sua força não é ilimitada“. Quem faz esta afirmação tem fé e confia no grande e verdadeiro Deus! E chama à fé e à confiança neste grande e verdadeiro Deus.

Que a Família gerada pelo dom do Matrimónio há 25 anos continue a ser um espaço de fé e de confiança neste Deus que é Amor, e isto se traduza em laços de amor, de fraternidade e de paz entre os esposos que aqui renovam a sua união e entre todos. E que Maria, que a tradição cristã contempla como aquela “lua” que nos reflete a luz do sol que é Cristo, vos proteja com a sua solicitude materna.