navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Is 56, 1. 6-7; Sl 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8 L 2: Rm 11, 13-15. 29-32 Ev: Mt 15, 21-28, no Domingo XX do Tempo Comum (A) e no culminar da 54ª Semana Nacional das Migrações

O que aprendo de D. António Couto, na sua homilia para a liturgia da Palavra deste domingo, é que ao longo não só dos textos proclamados, mas também da história bíblica, desde os Profetas ao Apóstolo, há uma implícita, embora nem sempre reconhecida, proposta universal de salvação. Não se esconde que o povo de Israel é predileto, até porque foi ali que Jesus nasceu, mas também não se esconde que os que O haviam de ter reconhecido e não reconheceram nem acolheram veem a mensagem de salvação ser transmitida aos gentios.

Na mensagem de D. Pedro Fernandes para esta 54º Semana Nacional de Migrações, ouvimos falar de pelo menos três tipos de fragilidade:

  1. um que faz parte constitutiva do ser humano, que também foi abraçada por Cristo, e que é lugar de descoberta de um horizonte maior e de plenitude que é dom de Deus, de algo maior e profundo que só Deus pode dar. É a fragilidade como lugar da esperança.
  2. Há, porém, formas de fragilidade que são impostas de forma injusta ou violenta, que não propõem a fragilidade como um caminho, mas impõem processos de fragilização e empobrecimento que, em última análise, podem roubar a esperança e ofender a dignidade das pessoas. Muitas pessoas migrantes ou refugiadas vivem experiências de violência deste género.
  3. Há ainda outro tipo de fragilidade que é imposta pela necessidade de deixar a própria terra, ter de aprender outra língua, relacionar-se com as diferenças. Fala-se de um tipo de fragilidade que é imposta pelo facto das migrações. O que nem sempre estarmos à vontade com a cultura do outro. Daí que surjam formas de racismo e oportunismo que são consequência da fragilidade que é não saber acolher e integrar.

A cidadania deve ser sempre valorizada, para todos os cidadãos
(nacionais ou estrangeiros) e sempre alicerçada em algo maior: a dignidade humana, igual e universal. Para isso, os quatro verbos fundamentais que a doutrina social da Igreja preconiza são: acolher, proteger, promover e integrar.

No domingo passado ouvíamos Jesus dizer a Pedro ─ que era judeu ─ “homem de pouca fé, porque duvidaste”; neste domingo, a uma mulher cananeia pagã ─ do atual Líbano ─ Ele declara “mulher, é grande a tua fé”. Não foi fácil, nem para aquela mulher, nem para Jesus chegar a este ponto. Não que fosse impossível para Jesus, mas porque era preciso usar de uma pedagogia de integração da mulher pagã na fraternidade dos que creem, e integrar os discípulos de Jesus na sensibilidade ou abertura de quem deve acolher.

Aquela mulher acaba ser apresentada por Jesus como modelo no caminho da fé que para ser verdadeiramente cristã deve ter as seguintes caraterísticas:

  • A fé não se mede pelos dogmas, mas pela audácia de bater à porta, mesmo que pareça fechada. A grandeza consiste em libertar o controlo: não exigir nada com base nos próprios méritos, mas evocar apenas a bondade divina. Acreditar que uma única migalha é suficiente para o milagre. (O Grão de Mostarda apresentado por Jesus em Mt 13,31-32) (Laboratório da Fé)
  • Não ter medo de sair dos espaços de segurança. O próprio Jesus, neste episódio que nos é relatado hoje, saiu de Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, atual Líbano, terra pagã. Para ali Se deixar provocar por aquela mulher.
  • Aceitar que ter fé não é como ter uma semente presa dentro de um saco. Ser crente é outra coisa: expor-se a um processo, a um caminho, em que saímos de nós próprios para ir ao encontro de Deus e dos outros. A semente da fé para se manifestar tem de ser triturada e ser amassada, para vir a ser pão.
  • Deixar que seja Jesus a reconhecer a nossa fé. Não somos juízes em causa própria nem na dos outros. É Jesus! E isto acontece com muitos pedidos. Na história daquela mulher são 4 pedidos:
    1. O primeiro em que reconhece Jesus como “Filho de David”, ou seja, reconhece o messianismo de Jesus, e pede-Lhe que tenha compaixão dela por causa da sua filha. Jesus, que nestes casos, costumava responder à primeira com o ato de cura, neste caso nem sequer dirige uma palavra.
    2. O segundo pedido é dos discípulos, não pelo motivo urgente que a move, mas porque ela vem a gritar atrás deles. É preciso repararmos que há aqui uma divergência: aquela mulher não vai atrás deles, mas de Jesus. E a resposta de Jesus não é diretamente dita à mulher mas aos discípulos que o provocam, mas quem sai provocado são eles com a resposta de Jesus, esperando que eles façam uma leitura das profecias correta. O «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» é como se fosse uma rasteira, para ver se eles lhe propusessem o que estava escrito em Isaías (“a minha casa será chamada ‘casa de oração para todos os povos’”).
    3. No terceiro pedido, a mulher usa algo semelhante ao que frequentemente dizemos no ato penitencial da Eucaristia: Kyrie, eleison, que quer dizer: Jesus, faz-me graça, socorre-me, ajuda-me. É de notar que a mulher faz este pedido prostrada diante de Jesus, como de quem se põe na total dependência de Jesus. A resposta de Jesus é curiosa, mas faz-nos avançar no processo da fé: “cães” eram assim chamados os pagãos pelos judeus, mas “cachorrinhos” eram os cãezinhos cuidados pelos seus donos judeus, não tendo, por isso, um significado pejorativo. Em Marcos 7,27: “Deixa que primeiro (prôton) sejam saciados os filhos…” deixando espaço para um segundo, um depois… «uma porta aberta para os pagãos, pois convida a entrever o porvir da missão que há de um dia chegar também a casa desta mulher e mãe libanesa e a todas as casas dos que esperam a hora da realização da sua esperança! Mas esta mulher leva consigo uma necessidade tão urgente, que não pode esperar!» (D. António Couto).
    4. A terceira intervenção da mulher carrega o quarto pedido. Ela não contradiz Jesus, mas com humildade e ternura, não se importa que com uma simples migalha Ele opere um milagre para a sua filha. Este instante faz-me reconhecer naquilo que dizemos em cada comunhão eucarística ─ Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo ─ aquela simples migalha dita com humildade e ternura.
    5. Depois disto Jesus irrompe com aquele “Ó Mulher, grande é a tua fé!”, e acrescentou: “faça-se como queres!”. É a única vez que Jesus usa esta expressão e fá-lo com esta mulher libanesa cujo amor nunca se vergou diante das dificuldades da vida. O próprio Jesus (garante-nos D. António Couto) é “obrigado” a passar da fronteira dos hebreus para os pagãos.

Também seria interessante que os que não são destas terras, os migrantes e refugiados, sendo de longe, ao estar aqui entre nós, viessem atrás de nós a “gritar” por várias razões. E déssemos conta de que vão atrás de Jesus, como discípulos, e que a frase «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos» se pudesse verificar como culto ao único e verdadeiro Deus.

A lição do Apóstolo dos gentios, na carta aos Romanos, também tem este tom de universalidade, garantindo que “Deus usa de misericórdia para com todos”. E “efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos”. Portanto, “todos, todos, todos” acolhidos e a caminho, num processo que só termina na plenitude do Reino dos Céus.