navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45), 10. 11. 12. 16; L 2: 1Cor 15, 20-27; Ev: Lc 1, 39-56, na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, a Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do céu.
Ela é a aurora e a imagem da Igreja triunfante,
ela é sinal de consolação e esperança para o vosso povo peregrino.

─ Do Prefácio da Solenidade

Hoje celebramos a Virgem Maria na glória do céu e, mesmo assim, a primeira leitura apresenta-nos uma mulher que não está simplesmente no céu: é uma mulher que sofre, que foge, que atravessa o deserto, que é perseguida. É gloriosa e perseguida; é coroada e em fuga. É-lhe prometida a vitória e contemporaneamente exposta à ameaça do dragão. Podemos dizer, com Gilberto Borghi, que esta imagem contém, talvez, uma das chaves mais profundas para compreendermos o mistério da Assunção. Maria está na glória, mas a Igreja, de que Ela é ícone, caminha na história e ainda não está na glória. Maria já está lá onde esperamos chegar. Ela já lá está na plenitude, ajudando-nos melhor a compreender o que significa estar ainda em caminho. Portanto, esta solenidade não é uma fuga da atualidade para nos consolarmos com a glória que nos espera, mas obriga-nos a olhar com mais profundidade o nosso tempo.

A nossa condição de cristãos, na Igreja, é viver entre o já e o ainda não: Cristo ressuscitou, a morte não tem a última palavra, o Espírito já nos foi dado e a vida eterna, de algum modo, já foi iniciada em nós pelo Batismo. Este é o já. Mas o ser humano é, ainda, frágil e em muitas partes do mundo o que domina é a morte provocada, a destruição e a dor. E vivemos numa lógica de mercado e um sistema cultural que nos grita todos os dias “permaneçamos humanos”. Na vida espiritual ainda vivemos presos a pecados e a dramas pesados, numa ânsia de fundo, no medo de sairmos de casa, de ser prejudicados por quem nos devia amar. Este é o “ainda não”. Não podemos eliminar nenhuma destas imagens ─ a do já da glória e o ainda não do sofrimento terreno ─, porque Maria é ao mesmo tempo sinal da glória e figura daquele “trabalho” da visitação. A fé não pode desligar-se destas duas faces, que são as que estão na Cruz de Jesus.

O que é interessante considerar é que Deus não está ausente do crente no deserto que atravessa. Ele está ali na forma de promessa, da proteção e de alimento. Uma das coisas mais difíceis de aceitar na vida cristã. Com o Magnificat, Maria canta a grandeza de Deus quando a história ainda não está completa. Maria, respondendo com este cântico, entrelaça ou tece a sua história na história do povo de Deus (veja-se o paralelismo entre este texto em Lucas e o cântico de Ana, mão de Samuel, em 1Sam 2,1-10). Portanto, Maria não inventou este cântico, mas atualizou-o em Si ou viu a sua história espelhada na sabedoria do Povo de Deus. Maria soube caminhar na esperança através da fidelidade criativa.

Conforme aprendemos com o Sr. D. António Couto, há uma reciprocidade entre as formas de nomear e celebrar este solenidade entre o Ocidente e o Oriente cristãos, assim como os episódios bíblicos que se evocam nesta celebração, conforme podemos ver no seguinte quadro:

Lc 1, 26-38Lc 1, 39-56Solenidade
Ocidente:AnunciaçãoVisitaçãoAssunção
Oriente:EvangelizaçãoSaudaçãoDormição

Nós, ocidentais, vemos os mistérios mais por fora; os nossos irmãos orientais contemplam-nos mais por dentro.

Estas várias formas de declarar os “mistérios” da vida de Cristo com o consórcio da Virgem Mãe não se contradizem, mas enriquecem-se ou aprofundam-se mutuamente, coincidindo no essencial: a glorificação de Maria, conforme explica o Apóstolo Paulo em 1 Cor 15, 20-27, seguindo-se a Cristo-primícia todos aqueles que Lhe pertencem. E Maria é a primeira a pertencer-Lhe!

Enquanto que os mistérios da anunciação/evangelização e da visitação/saudação são acontecimentos narrados no Novo Testamento, o mistério da assunção/dormição ou o fim da vida terrena de Maria é silenciado. A última referência direta a ela na Bíblia encontra-se em Atos dos Apóstolos 1, 14, onde é mencionada em oração com os apóstolos no Cenáculo, antes do Pentecostes.

A Tradição da Igreja fundamenta a Assunção de Nossa Senhora na Bíblia de forma indireta. O Papa Pio XII declarou este dogma em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus a partir de um cruzamento de textos da Sagrada Escritura:

  1. Maria como imagem da Arca da Nova Aliança, feita incorruptível. O Apocalipse (Apocalipse 11, 19 — 12, 1) mostra a “Arca da Aliança” no templo celeste e, logo em seguida, revela «uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés». Para os Padres da Igreja, essa figura associa a Arca ao destino glorificado da Mãe de Jesus.
  2. Salmo 132 (131), 8: «Levantai-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santidade.» Este versículo é lido como uma prefiguração de Cristo subindo ao Céu e levando consigo a Sua Arca (Maria).
  3. A vitória plena sobre o pecado e a morte: Gênesis 3, 15: A profecia do Protoevangelho fala da Mulher e da sua descendência em luta contra a serpente. Se a corrupção do sepulcro (o voltar ao pó) é consequência do pecado (Gn 3, 19), aquela que foi preservada do pecado (Imaculada Conceição) também foi preservada da degradação da morte.
  4. 1 Coríntios 15, 22-23: Paulo ensina que Cristo é as «primícias» da ressurreição, seguido por aqueles que Lhe pertencem. A teologia vê em Maria o primeiro ser humano a receber essa glória de forma antecipada por causa da sua associação íntima à obra do Filho.
  5. Precedentes bíblicos de “Assunção” ou “Arrebatamento”. A ideia de um corpo ser elevado ou preservado por Deus não é estranha à Bíblia: Enoque (Gênesis 5, 24) e Elias (2 Reis 2, 11) foram levados diretamente por Deus.

É significativo que se chame ao Magnificat de cântico evangélico. Vivamos, pois, esta solenidade e a partir dela como quem dança ou se deixa embalar entre o acolhimento do Evangelho e o caminho da caridade que nos leva aos irmãos.

Sejamos, como Maria, “arcas” da nova aliança, acolhendo o Evangelho e levando-o aos outros, na alegria de sabermo-nos conduzidos por Deus. Aprendamos, sem medo, a ler a luz, mesmo quando ainda há escuridão. Aliás, é a luz que se vê melhor. Enquanto que num eclipse total, que acontece de 100 em 100 anos, a lua nos esconde o sol, Maria é como a lua que nos reflete a luz de Cristo todos os dias. Mesmo quando as nuvens e as tempestades o teimam tapar.