navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Dn 7, 9-10. 13-14 ou 2Pd 1, 16-19; Sl 96 (97), 1-2. 5-6. 9 e 12 Ev: Mt 17, 1-9, na Festa da Transfiguração do Senhor

Jesus precisava de tirar do coração dos discípulos o escândalo da cruz. Não que Ele tenha exagerado quando lhes falou que ira morrer às mãos dos homens, mas porque eles se esqueceram que o Mestre também falou da ressurreição ao terceiro dia (cf. Mt 16,21). Quando Deus nos apresenta desafios, Ele não nos poupa em meios, nem nos esconde os fins ou o horizonte.

Nos grandes discursos, assim como na publicidade atual promissora de sucesso, há um encadeamento entre os primeiros segundos que captam a atenção, o meio que constrói o desejo e os últimos segundos que entregam a chamada para a ação, a promessa da marca e a carga emocional final. A reação severa de Pedro ao primeiro anúncio da paixão e ressurreição de Jesus, no versículo 22 de Mt 16 ─ «Longe de ti tal coisa, Senhor! Isso nunca te acontecerá!» ─ faz com que a resolução de Jesus sobre o facto da ressurreição perca impacto. Não admira que os discípulos coloquem a atenção só na paixão e não tanto na ressurreição. Hoje, esta tendência também nos pode enfraquecer o ânimo, colocando mais a atenção nos sacrifícios do que nos objetivos por que os fazemos e nos dons de Deus que no-los permitem viver.

O “gancho” final do episódio da Transfiguração transporta-nos para muito antes do anúncio da paixão e ressurreição e que sintetiza e dá significado à entrega de Jesus ─ é a mesma declaração e convite de Deus feito no batismo de Jesus no rio Jordão: «Este é o meu Filho amado, no qual me comprazo: escutai-o!» (cf. em Mt 3,17). O Amor do Pai ali declarado e materializado com a Unção transforma-se em Luz por todo o caminho de Jesus, nunca mais deixando de operar n’Ele. É esta a referência ─ e nenhuma outra o conseguirá ser ao longo do caminho dos seus discípulos ─: é o Espírito Santo que acompanha Jesus e a sua ação; doravante é o mesmo Espírito Santo que acompanhará os Apóstolos e todos os discípulos-missionários na Igreja.

Jesus é a luz incandescente manifestada pelo Amor de Deus em cada ensino e gesto de cura, que a Lei e os Profetas anteciparam e prefiguraram. Ao mesmo tempo, a sua ação transformadora é o culminar da ação que Deus operou ao longo dos tempos. Hoje, é sobretudo na Eucaristia que voltamos a experimentar o que aqueles três discípulos experimentaram, entre a atrapalhação e o santo temor.

A transfiguração é a revelação da divindade de Jesus e antecipação da ressurreição de Jesus, fortalecendo a fé dos discípulos no caminho da cruz. É como uma boa “máquina fotográfica”, que ajuda a captar o pano de fundo que faz sentido à cena mais próxima que se está a viver.