navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Jr 30, 1-2. 12-15. 18-22; Sl 101 (102), 16-18. 19-21. 29 e 22-23; Ev: Mt 14, 22-36, liturgia do dia no contexto de um Funeral. Dia em que se comemora o Dia do Padre, na memória do presbítero São João Maria Vianney

A Palavra de Deus é a única capaz de dar significado e horizonte a todos os momentos da nossa vida, às alegrias assim como as tristezas do nosso viver. Ela é viva e eficaz não só para vivermos bem nesta terra, mas também para sabermos lidar de forma sábia e crente com o drama desta passagem da morte terrena à vida eterna.

As leituras de hoje mostram-nos o Deus manifestado em Jesus Cristo, que, apesar das nossas fragilidades e pecado, está sempre pronto a amar-nos e a restaurar-nos para uma vida nova que não tem fim. Para quem é crente, toda a vida terrena é um “caminhar sobre as águas”, onde treinamos os desafios da nossa adesão a Jesus, entre o duvidar e o crer n’Ele. Aqui na terra, damo-nos conta como, muitas vezes, os nossos passos são frágeis e inseguros. Mas no Céu, os que partem certamente se dão conta que colocam os pés num chão seguro, o da outra margem que não tem fim.

A leitura do profeta Jeremias ajuda-nos a perceber como vivemos entre feridas e a busca do bem e da saúde, mas nem sempre conseguimos como gostaríamos aqui na terra. Na sua recente encíclica “Magnifica Humanitas“, o Papa Leão XIV adverte-nos que os limites que aqui vivemos, à luz da fé, não devem ser interpretados como um defeito a corrigir, mas como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação. «… devemos recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites. Uma visão da realidade à luz da fé ajuda a reconhecer aquilo a que chamamos a “contingência” das coisas deste mundo. Se, por um lado, é nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, é sensato reconhecer a nossa constitutiva finitude, sabendo que “a experiência religiosa e, em particular, a fé cristã propõem viver, sem simplificações, essa ambivalência entre a grandeza e os limites do ser humano, interpretando-a à luz da relação original e fundamental com Deus”» (n. 118).

Enfim, é sempre Deus que nos abraça e nos dá a graça de nos colocar na outra margem da existência a que chamamos de eterna. Não costuma ser por nosso mérito próprio a não ser numa coisa: que façamos como Pedro, que, ao dar-se conta de que as suas forças e fé não eram suficientes para se aguentar acima das águas, pede a Jesus «salva-me, Senhor». E logo Jesus lhe estende a mão e segura-o. (É isto que cremos que está a acontecer com o nosso irmão N. que partiu deste “mar” que é a vida terrena, aportando no porto seguro que é a nova Jerusalém, onde só se vivem os valores do Reino sem limite algum.)

Enquanto navegamos neste mar, entre boas marés, mas também tempestades, cuidemos uns dos outros e nunca deixemos de pedir a Jesus que nos segure. É esta a grande “esperança” de vida: saber que temos sempre Jesus perto de nós, para nos segurar quando vacilamos.

Um jovem pastor, Antoine Givre, em 1818, indicou o caminho ao novo pároco para Ars. A imagem evoca o momento em que o Santo cura d’Ars lhe diz: «Mostraste-me o caminho de Ars, mostra-te-ei o caminho para o céu.»