navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Is 55, 1-3; Sl 144 (145), 8-9. 15-16. 17-18 L 2: Rm 8, 35. 37-39 Ev: Mt 14, 13-21, no Domingo XVIII do Tempo Comum (A). Os itálicos são das admonições presentes em liturgia.pt

Nos últimos domingos escutámos o capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, onde se encontra o discurso das parábolas com que Jesus falava sobre o Reino de Deus. Neste domingo escutamos a primeira multiplicação dos pães que está no capítulo 14, após o martírio de João Batista. O Senhor, estava ainda a viver o luto da morte do seu primo João, retirando-Se para um lugar deserto e afastado, mas não pôde descansar ou processar o luto, uma vez que a multidão perseguia-O, com fome de bem. E Ele exerceu nos seus doentes a sua compaixão. E os discípulos, dando-se conta da aridez do lugar deserto e da hora avançada, sugeriram ao Mestre que despedisse a multidão.

A descrição da resposta prática de Jesus e a forma como Ele organiza as coisas, faz-nos lembrar o que para nós é hoje o sacramento da Eucaristia. É na celebração desta que o Senhor, pelo ministério dos sucessores dos Apóstolos, alimenta o seu povo e o fortalece na travessia do deserto desta vida, o sacia desde já com o alimento celeste, como fez outrora com o maná ao povo de Israel, quando este, no deserto também, caminhava para a Terra Prometida. «Esta primeira multiplicação dos pães evoca o alimento do maná dado por Deus a Israel no deserto (cf. Ex 16,4s.15-36; Sl 78,24-30; Sb 16,20-21) e a recolha nos cestos evoca um outro episódio do AT passado com Eliseu e o seu servo (2Rs 4,42-44). São ainda claras, neste relato e nos outros cinco dos evangelhos, as afinidades com os da última Ceia de Jesus e a celebração da Eucaristia desde os primórdios da Igreja» (nota da perícope na tradução bíblica da CEP).

Quase sempre vemos a Eucaristia como um cumprimento legal, mas é muito mais: podemos dizer dela o que o Concílio Vaticano II diz da Liturgia em geral: «é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (SC 10). A Eucaristia, como toda a Liturgia, é meta e fonte, quer dizer: é síntese da Evangelização e, ao mesmo tempo, força que permite programar a prática da Caridade.

A Eucaristia é o milagre mais expressivo do Amor deixado por Jesus para Se dar todo a todos, para o qual continua a querer precisar do pouco de poucos! Não multiplica do nada, mas recria a partir do já criado e doado. O “ofertório” da Eucaristia é um “multiplicador” de graças e tarefas. Convite a dar de graça o que ali recebemos de graça! Dentro e à volta das comunidades onde ela é celebrada com frequência, não haveria necessidade de se deveria ouvir falar de fome do corpo ou do espírito. Porque está aqui Jesus! Está aqui cada um de nós, cada um e uma na sua situação particular, num qualquer tipo de pobreza ou luto, mas sempre olhados por Jesus como quem o essencial para que Ele possa, uma vez doado com fé e humildade, multiplicar em graças para todos!

Nunca compreendi como, por vezes, a Eucaristia em particular e a Liturgia em geral foram ou podem ser na Igreja lugar de marginalização ou de cálculo. D. António Couto, na sua “Mesa de palavras” fala-nos que “o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão, condivisão ou partilha”. E faz-nos notar o contraste que existe entre “o comportamento compassivo, acolhedor, hospitaleiro, inclusivo e de partilha de Jesus” e “o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico” dos seus discípulos. E até nos oferece o seguinte quadro ou tabela comparativa:

E garante-nos: “O que Jesus faz à vista dos seus discípulos e em confronto com os seus discípulos parece ser em primeiro lugar para eles, para nós, para baralhar as nossas contas e a nossa esquadria mercantilista. A questão não está, de facto, em produzir mais. A questão está em partilhar mais, de preferência tudo”.

E reparemos ainda que o que nós usufruímos depende daquelas “sobras”, que fazem da Eucaristia não só memorial da história da salvação, mas também tarefa para hoje, para continuarmos a partilhar aquele tudo para todos. O “fermento” deste pão abençoado e partilhado é o amor (D. António Couto), do qual, garante o Apóstolo Paulo, nada nem ninguém nos pode separar. O Papa Leão XIV, no n. 88 da sua recente Encíclica “Magnifica Humanitas” diz-nos que

Para a comunidade cristã, a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia. Ela nasce da comunhão na fé e nos Sacramentos: o Batismo e a Confirmação unem-nos em Cristo, para que sejamos um só corpo e um só espírito, um só coração e uma só alma (cf. Ef 4, 4; At 4, 32). A Eucaristia, sacramento da unidade, alimenta a nossa pertença ao corpo de Cristo e educa-nos para a partilha. As diversas sensibilidades presentes na Igreja, as convicções fortes que animam cada um, são uma riqueza se permanecerem ancoradas na certeza da unidade, enquanto dom recebido e tarefa a assumir.

Então, no tempo e no mundo de hoje, colaboremos com este grande milagre de vida plena com o pouco que temos e somos, acreditando que o Senhor o abençoará e multiplicará em favor dos que O buscam. O mundo precisa muito da Eucaristia, não como um mero cumprimento moral legal, mas como uma “meta” para quem caminha no deserto e “fonte” de alimento para a Terra Prometida.

Agustin De La Torre