Jb 19,1.23-27a; 1Jo 3,1-2; Mt 5,1-12, por ocasião de um Funeral
Escutámos a Palavra de Deus, que é aquela luz que nos ajuda a encontrar o sentido desta vida quando somos surpreendidos pelo limite e pela morte. Para ajudar a refletir sobre estas leituras, porém, deixai que partilhe convosco um pensamento que me tem acompanhado à vários anos como padre no ver partir as pessoas para a casa do Pai: as pessoas costumam morrer como viveram; morre-se como se vive. E voltei a constatar este pensamento no pedaço da passagem desta nossa irmã N. que me foi dado contemplar. Morreu como viveu. Não digo assim a respeito dela para encaixar a sua situação na frase, mas para sublinhar que a sua partida original refere-se à sua forma original de viver. Deixai que vos diga que para mim foi a primeira vez que em foi dado celebrar o sacramento da Santa Unção no hospital com a presença da família nuclear e alargada (nunca me tinha acontecido assim e costumo ir ajudar o capelão de vez em quando, lá para trás costumava ir lá muitas vezes). Da mesma forma que digo que esta nossa irmã N. morreu como viveu, também podemos dizer, morreu como amou, morreu como doou a sua vida. Nesta perspetiva, a morte ─ que cremos ser só mesmo uma passagem dentro da vida eterna que já começou e não tem fim ─ confirma a sua originalidade de viver. Se a gramática da vida terrena tende a fazer-nos “fotocópias”, a gramática da vida eterna só pode confirmar a nossa originalidade. É esta a esperança cristã: a que de a nossa vida terrena está semeada uma promessa de vida pessoal sem sofrimento e sem fim.
A escolha das leituras reflete a vida da N. e da forma como a sua família vive esta passagem (uma vez que foram os familiares que as escolheram):
- Estamos aqui para escrever bem fundo a respeito da N. as convicções de Job, que no meio do sofrimento atroz nunca arredou da verdade: crer na vida e estar de pé na fé diante de todas as contrariedades, até ao fim. Como Job, que afirmou “na minha carne verei a Deus”, e com esta simples afirmação disse duas coisas: que não fugiu do corpo, mas a partiu d’Ele para entrar numa grande intimidade com Deus. Também a respeito da nossa irmã N.: a doença não foi uma fuga do seu corpo, mas viveu estes últimos dias como o topo da sua entrega ao Senhor. Para um olhar como o de Job, que 2000 anos antes de Cristo, já era capaz de vislumbrar o seu Redentor vivo. Também a sua família, nos momentos últimos, não fugiram do seu corpo frágil (como, infelizmente, acontece), mas dali puderam vislumbrar o rosto de Deus que doa a vida e a colhe neste jardim, como Lhe aprouver.
- O evangelho das bem-aventuranças de Jesus costuma ser apresentado como um código de uma vida bem-conseguida, uma vida vivida contracorrente, que mostra vidas a viver a santidade muito para além das palavras. A tradução do Papa Francisco, na sua exortação apostólica “Alegrai-vos e exultai“, ajuda-nos a ver a riqueza que está no viver contracorrente de Jesus: ser pobre no coração; reagir com humilde mansidão; saber chorar com os outros; buscar a justiça com fome e sede; olhar e agir com misericórdia; manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor; semear a paz ao nosso redor; abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas. E a regra de comportamento que serve de “prova dos nove” desta santidade contracorrente são as obras de misericórdia, nas quais a nossa irmã N. já viu Jesus naqueles que cuidou e ajudou a cuidar. É aqui que podemos também reler o testemunho de Job 2000 anos antes de Cristo: quando cuidamos dos mais frágeis já estamos a ver Jesus com estes próprios olhos da carne. Neste sentido, os olhos do corpo são mestres dos olhos da alma, para que depois também possamos reconhecer Jesus no céu glorioso! Esta forma de ler o Evangelho das bem-aventuranças, certamente nos ajudou a tocar a vida desta nossa irmã e de ver refletida nela, assim como dos nossos irmãos e irmãs nos seus momentos de maior fragilidade ou vulnerabilidade, a felicidade do Reino de Deus!
- As palavras inspiradas a São João, na sua primeira carta, confirmam uma verdade que temos vindo a revalorizar no caminho sinodal da Igreja: o título mais elevado que um ser humano pode receber nesta terra é o facto de sermos chamados “filhos de Deus”! Não há outro título mais elevado! E o mundo não pode vir a reconhecer outro título mais elevado para além deste, e se não reconhecer este título como tal, então, como diz o discípulo amado, é porque não reconheceu a Jesus. Mas não é só um título; é o que ele manifesta ou deixamos que Deus manifeste nele: é o que deixamos que Deus manifesta na nossa vida que nos faz semelhantes a Ele! Ao ler esta sabedoria transferida para nós pelo apóstolo João, estava a pensar no marido da N., o N., e nos filhinhos (N. N. N.) e familiares que deixa e a veem partir: é preciso continuar a acreditar que o que Deus manifestou na vida desta nossa irmã, vai continuar a manifestar-se no espírito que viveram e vivem em família, através da memória do que cresceram juntos, do que viveram juntos, do que sonharam juntos. Aparentemente, ao chamar para a vida eterna os nossos entes queridos, parece que Deus nos tira muito, para não dizer tudo. Mas, na verdade, Ele só está a colher os frutos maduros que mandou cuidar na “sua vinha” e não é para saborear sozinho. Ele tem formas, na vida e na Igreja, de nos ajudar, também, a saborearmos os frutos deixados pelas vidas maduras dos nossos irmãos que partem.
Caríssimos irmãos e irmãs, a N. viveu e atravessou a esperança com fé e apoiada na caridade de Deus manifestada no amor dos seus familiares e amigos. Com a sua partida entrou num tempo novo e definitivo. Para ela como para nós, a promessa de Deus semeada é feita de um princípio ativo: o cuidado para com quem fica e sofre esta perda. É esta, também, a melhor herança que os nossos entes queridos nos podem deixar: a capacidade de amar cuidando uns dos outros, imitando Jesus. Certamente foi isto que contemplámos na vida da nossa irmã N. com o seu marido e filhos, e naqueles que ajudou na sua profissão a cuidar: viver as coisas ordinárias com um amor extraordinário. É assim que também nós podemos viver a vida cristã, desmistificando a santidade: para “ir para o céu” não é preciso fazer coisas extraordinárias, mas sim fazer as coisas ordinárias com um amor extraordinário.
