Gn 2, 18-24 (n. 180); Fil 4,4-9 (n. 195); Mt 7,21.24-29 (n. 215), por ocasião de um Matrimónio
Caríssimos irmãos, os noivos escolheram três leituras para esta liturgia da Palavra do seu Matrimónio. Fizeram-no com o cuidado com que também escolheram o menu que logo à tarde nos irão servir no restaurante onde se vai realizar a boda. Então, a boda começa já aqui, com a degustação (ou pré-aperitivo) da luz com que Deus quer iluminar esta novo lar.
- Com a leitura do livro do Génesis, recordamos a teologia da criação do homem e da mulher. E a formação desta decorre não só do poder de dar nomes, mas sobretudo da perceção de que o homem sem a mulher nunca se sentiria completo. Por vezes, uma fraca interpretação desta passagem do Antigo Testamento induz numa visão desigualitária da mulher em relação ao homem, não sendo verdadeira. Não foi o homem que criou a mulher, o que o texto revela é que é Deus o criador dos dois, na perspetiva da igual dignidade fundamental e da necessária complementaridade. Na recente encíclica “Magnifica humanitas“, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA, o Papa Leão XIV afirma que
No centro da visão cristã do ser humano está a grande afirmação segundo a qual o homem e a mulher são criados à imagem e semelhança do Deus trinitário (cf. Gn 1, 26-27). Cada pessoa, constitutivamente feita para a relação, é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação. A sua dignidade não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha. Por isso, a pessoa humana permanece sempre «a via da Igreja» e o coração de todo o caminho autêntico de desenvolvimento humano integral. (n. 50)
A nossa humanidade é “magnifica” porque é criada por Deus. Não somos nós que nos criamos. E se temos algum poder sobre a nossa vida, esse poder é consequência do facto de sermos criados à sua imagem e semelhança. Porque Deus é comunhão e não solidão, é solidariedade e não egoísmo.
Na Sagrada Escritura, tudo o que acontece Deus realizar quando o homem está num sono profundo, quer dizer que o homem não sabe como Deus realizou essa obra. A única coisa que o homem pôde fazer foi constatar que na mulher, também criada por Deus, encontrou aquela com a qual verá resolvida a sua solidão e respondida a sua complementaridade. A ponto de exclamar “esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne”. E é aqui que começa a sua vocação: deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, sendo com ela uma só carne. E a mulher percorrerá o mesmo caminho de vocação.
2. No Evangelho, Jesus fala-nos da casa edificada sobre a rocha firme que é Ele e todas as relações fundadas n’Ele. Jesus é o fundador da nova criação. E conforme o homem se admirou com a criação da mulher, os que escutavam Jesus ficavam igualmente admirados com a sua autoridade (que não era como os escribas). E como é que o discípulo de Jesus constrói a sua casa sobre a rocha? Está claro no Evangelho: ouvir as palavras de Jesus e pô-las em prática. Podem vir ventos e tempestades, mas nenhuma delas derrubará esta casa fundada sobre a rocha firme. É por aqui que se desenvolve uma vida sensata.
Um psicólogo conhecido como um dos maiores pesquisadores sobre o casamento, John Gottman, passando mais de 40 anos a estudar milhares de casais, diz que “antes do amor vem a admiração; sem admiração o amor dificilmente sobrevive”. Os seus estudos concluem também que “não é a falta de conflitos que mantém um relacionamento saudável, mas a forma como o casal se trata durante eles. Casais felizes cultivam muito mais interações positivas do que negativas. Eles dizem: “Eu entendo o seu ponto de vista”; “Obrigado por tudo o que você faz”; “Desculpa-me, eu errei”; “Vamos resolver isso juntos”; “Eu amo-te”. Em vez de: “Tu sempre…”; “Tu nunca…”; “A culpa é tua”; “Não quero mais conversar”. Mas existe algo que vem antes do amor: a admiração. É difícil continuar a amar quem deixamos de admirar. E a admiração não acaba de repente. Ela vai sendo desgastada pelas pequenas atitudes do dia a dia, pela falta de gestos com os quais a admiração entre os cônjuges acontece e cresce. Não faltaria aqui exemplos de pequenas coisas com que as relações conjugais se desgastam, desde hábitos diários a projetos pessoais. O amor não sobrevive apenas de sentimentos. Ele precisa de cuidado, respeito, dedicação e escolhas diárias. O que nos alegra e dá esperança é que a admiração pelo outro pode aprender-se e recuperar-se, reconstruindo o diálogo, recuperando o vínculo.
3. São Paulo, na segunda leitura, traduz aquela atitude da admiração com a expressão “Alegrai-vos”; “Alegrai-vos sempre no Senhor, porque Ele está próximo”. E Paulo tem uma intuição muito interessante: como é que podemos dar conta de que o Senhor está próximo? Quando é “de todos conhecida a vossa bondade”. Ou seja: na bondade das pessoas, na bondade das famílias, etc. percebemos que Deus está próximo de nós. A começar pelas crianças que percebem que Deus as ama através da mediação do amor da sua mãe e de seu pai. Por isso, Paulo convida a não nos inquietarmos com coisa alguma. Pensemos bem: quando uma criança cresce num ambiente de amor incondicional formado pelos seus pais, feito de cuidado e admiração, poderá alguma coisa tirar-lhe a paz? Mas para isso, é preciso continuar a ter no pensamento, como diz Paulo, “tudo o que é verdadeiro e nobre, justo e puro, amável e de boa reputação, virtude e digno de louvor”. E conclui: “e o Deus da paz estará convosco”. No fundo, se Jesus se oferece a estes noivos e a todos nós como alicerce firme, Paulo sugere-nos que “paredes” e “telhados” nos poderão dar mais paz e segurança.
N. e N., Deus concedeu-vos a graça de vos encontrardes como a terra prometida por Deus um para o outro, o/a auxiliar semelhante, aquele/aquela com quem cooperar com Deus criador, dando nomes aos vossos filhos, antes de eles aprenderem a dizer o nome das coisas. A cada um de vós, pelo amor matrimonial, Deus dá-vos a oportunidade para partilhardes um futuro feliz, feito de sonho e de projeto. N., N. é a tua “pérola preciosa”; N., N. é o teu “tesouro”. Por isso, é que relativizastes tudo e todos, para decidirdes efetuar a vossa união na presença da comunidade e com a bênção de Deus. A Igreja fica hoje mais rica; a sociedade fica hoje mais rica. o futuro da humanidade sairá mais promissor com a vossa vocação de vida de união livre e fecunda. Que Deus vos guie sempre na longevidade da vossa união.
