A partir deste domingo e durante três domingos, escutaremos o capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, onde se encontra o Discurso das Parábolas de Jesus. As parábolas são como que “bolas” que Jesus passa para as nossas mãos para aprendermos a “jogar” as nossas capacidades entre o ouvir e o entender, o olhar e o ver as realidades que Ele nos quer apresentar. As parábolas são espelhos para refletir a verdade, não muros para a esconder, um filtro que revela a postura interior de quem escuta. Com as parábolas, Jesus quer livrar-nos de uma escuta estéril, como, por vezes, acontecia com os seus contemporâneos, ficando na “casca literária” do que Ele dizia, mas levar-nos a saborear o interior e a comprometer-nos nas exigências que os seus ensinamentos comportam. As parábolas são pedagogias de Jesus para nos ajudar a passar da rapidez com que, por vezes, queremos as coisas sem o nosso esforço, para a lentidão que permite descobrir a interação entre Deus e a nossa boa vontade. Mas as parábolas não são meramente um “jogo” para o nosso entendimentos, mas uma “trampolim” para as acrobacias dos nossos corações (coração = centro das paixões e decisões), por vezes endurecidos pela indecisão e incapacidade de exercer a própria liberdade diante da novidade de Deus.
Hoje, calha começarmos a meditar na parábola da semente, a “mãe de todas as parábolas” (D. António Couto). À primeira vista, com as palavras “àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado”, parece que Jesus está a usar uma linguagem codificada para excluir deliberadamente algumas pessoas, mas a realidade teológica e psicológica desse texto é muito mais profunda. Aqui, o “ter” e o “não ter” não se referem a bens materiais, mas a disposições espirituais diante das parábolas de Jesus. Ter significará abertura, fé inicial, desejo de Deus; enquanto que não ter significará a autossuficiência, o achar que já se sabe tudo, o fechamento à novidade de Jesus. A dialética aqui apresentada em Mateus 13 ensina-nos que a revelação divina não é uma questão de inteligência intelectual, mas de afinidade espiritual. Os mistérios do Reino não são “segredos” para iniciados intelectuais, mas verdades que só se tornam visíveis para quem ama e se põe a caminho. Os discípulos são “felizes” porque os seus olhos e ouvidos estão sintonizados com a presença do Messias, permitindo que a semente da Palavra caia em terra boa e dê fruto.
Com esta parábola da semente, a primeira verdade que Jesus coloca nos nossos ouvidos e diante dos nossos olhos, é a de que Ele é um semeador que “esbanja” as suas sementes (no fundo, esbanja-Se), independentemente da qualidade dos terrenos: caminho árido, pedras, espinhos e terreno fértil. Estas formas de terreno podem ser a descrição das “paisagens” do nosso coração. Nos quatro cenários em que as sementes são semeadas podemos ver a técnica dos autores das escrituras ─ 3 + 1 ─ em que há três elementos que parecem levar ao fracasso e um quarto que é a solução.
E a segunda verdade é a de que somos chamados a acalmar-nos, por um lado, confiando e trabalhando como bons agricultores dos dons que Deus semeia nas nossas vidas e, por outro, a ter paciência na espera que aquilo que foi recebido pela fé venha a dar frutos no tempo de Deus. A pressa (do pronto-a-vestir, pronto-a-comer e pronto-a-brincar; D. António Couto) com que os seres humanos tentam obter o sucesso pode levar-nos aos 3 primeiros cenários, que o próprio Jesus explica ser: o Maligno que não deixa que a Palavra de Deus se apegue à nossa atenção, a nossa inconstância e as preocupações e prazeres deste mundo. Aquele 1 que é a solução é ouvir a Palavra de Deus e compreendê-la. Esta escuta e compreensão, na pedagogia que Jesus procura incutir nos seus discípulos, afasta-nos do triunfo fácil e aproxima-nos da confiança em que Deus trabalha em nós através da esperança e em profundidade. Como o profeta Isaías diz na primeira leitura, a Palavra do Senhor não regressará ao céu sem que produza o seu efeito. O que é preciso é que cada um de nós ajude a realizar, entre sofrimentos, mas também acolhimento das primícias (como falava o apóstolo Paulo), aquele “parto” da libertação dos filhos de Deus.
