navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Zc 9, 9-10; Sl 144 (145), 1-2. 8-9. 10-11. 13cd-14 L 2: Rm 8, 9. 11-13 Ev: Mt 11, 25-30

Caríssimos irmãos e irmãs, neste 14º Domingo do Tempo Comum, Jesus convida-nos, podendo ou não ter férias do trabalho, a fazer “termas para a alma“. A mensagem do Evangelho é uma terapia para o cansaço que se apega aos nossos pés e aos nossos corações, provocado pelo desgaste da nossa entrega e pela confusão que teimam em, por vezes, fazer-nos esquecer o verdadeiro horizonte que atrai as nossas vidas.

A salvação “da alma” não é algo que alguém de nós possa merecer por si próprio(a). Antes, pode ser algo que nos predisponhamos a receber da liberalidade e gratuidade divinas, segundo a sua lógica e os seus desígnios. Frequentemente, o ser humano gere a sua relação com o passado e o futuro, no presente, arcando com pesos que nunca foi e será Deus a impor à humanidade. Muito daquilo a que damos o título de Cristianismo ou de ser cristão ou, até católico, nem sempre se identifica com o essencial da vida da fé e, oxalá, não nos afaste do próprio caminho da fé! Por vezes, aquilo a que chamamos de Religião não passa da sacralização de uma cultura. E quantas vezes aquilo que é puramente tradição social se imiscui com a vida da fé mascarando-se de religião. Umberto Galimberti propõe uma distinção deste tipo de religião da verdadeira fé, que apresenta razoavelmente como a confiança na Palavra de Jesus, ao menos como Ele a expõe. Por vezes, quando a fé se torna religião, esquece-se da sua dimensão da confiança na relação com uma pessoa, para se tornar o mero dever de cumprir leis, tornando-se uma organização e uma pertença humana que pode afastar da pertença divina. Por vezes, até, à procura de uma segurança humana por se viver deste ou daquele modo. Mas nem sempre abertos aos desafios do Reino como é apresentando por Jesus. Bem evangelizada, a Religião deverá/deveria ser a possibilidade de caminhar juntos, com as possibilidades que a cultura oferece, na construção do projeto divino. Mas sabemos que nem sempre é assim: muitas vezes a Religião serve para fragmentar e dividir do que para unir. Para não falar do abuso da religião para fazer conflitos e guerras (não só fora das Igrejas!). Isto prova que as pessoas vivem “entulhadas” de ambições religiosas desconectadas com Deus e com o resto da humanidade, enquanto que os pobres e os mais vulneráveis são obrigados a viver em “trinceiras” ou “margens” existenciais. A este respeito, não deveríamos só falar na busca da verdadeira religião, mas também na busca da verdadeira humanidade. Penso ter sido este um dos desígnios que terá levado o Papa Leão XIV a escrever a sua primeira carta encíclica “Magnifica Humanitas”.

O único “jugo” proposto por Jesus é a relação com Ele. Ele também encarnou numa cultura precisa, aproveitou-a para crescer e usar como linguagem (as parábolas e metáforas são prova disso), mas não se deixou manipular por ela. A cultura é como uma roupagem para Jesus, sendo que o coração do seu projeto é a relação com o Pai e com a humanidade que aceitou salvar servindo.

Hoje, Jesus chama-nos à sua escola em que o que temos de aprender é a mansidão e a humildade, quiçá os dois instrumentos mais eficazes que podem dar descanso às nossas almas, na perspetiva de as edificar. É dito pela filosofia que o entendimento, a vontade e o afeto são as três faculdades da alma. E o entendimento e a vontade as mais determinantes, uma vez que o entendimento apresenta o alvo (ilumina a realidade, analisa, julga o que é verdadeiro ou falso, o que é bom ou ruim; ele funciona como os “olhos” da alma) e a vontade decide caminhar: é o motor; o entendimento pode mostrar o que é certo, mas é a vontade que escolhe agir ou não agir; ela é a faculdade da liberdade e da moral). Assim, a mansidão e a humildade são os instrumentos que nos ajudam a ver com mais profundidade e a querer aprofundar melhor a nossa relação com Deus e os irmãos.

No Caminho de Santiago, os peregrinos usam um refrão que é “Ultreia! Suseia!” que quer dizer: mais acima e mais além. Talvez seja uma tradução daqui-lo que Jesus quer para as nossas vidas. Para não ficarmos atrelados a pesos que nos impedem de ser livres e de caminhar. E, por fim, podemos também considerar a outra faculdade da alma, o afeto. Alguns filósofos achavam que ele era perigoso, por tender a distraír-nos. Mas não! Mahatma Gandhi dizia que “um homem não vale aquilo que vale a sua inteligência, mas aquilo que vale o seu coração”. Na verdade, não basta saber coisas e fazer coisas, mas sentir-se bem no caminho, com os outros e na companhia permanente d’Aquele que sabemos que nos ama incondicionalmente (é a ortopatia que motiva e completa a relação entre a ortodoxia e a ortopráxis). Assim é a vida cristã de Batizados: não só na água que nos purifica e nos irmana, mas também no fogo ─ o Espírito Santo, Amor de Deus ─ que nos aquece e faz avançar.

Aproveitemos o verão para, saindo ou não de casa, fazermos viagens interiores que nos permitam ver novas paisagens, e, sobretudo, aprofundar melhor a nossa relação com Deus e com os irmãos.