L 1: 2Rs 24, 8-17; Sl 78 (79), 1-2. 3-5. 8-9; Ev: Mt 7, 21-29
Aquela expressão italiana indica que há uma enorme diferença entre ter boas intenções, fazer promessas ou teorizar qualquer coisa (o dizer) e conseguir realizá-la concretamente (o fazer). Na realidade, é sempre mais fácil dizer verdades e manifestar boas intenções do que fazer o bem na prática. As categorias do bem, do bom e do belo, para terem força, precisam de estar juntas e não podem ser contempladas em separado. Era o mesmo que quiséssemos contemplar uma pintura num museu e, ao chegar, lá lêssemos em prosa a explicação da pintura em ver de a contemplarmos em cores vivas. Melhor ainda é essa pintura servir para uma finalidade interpessoal honrosa, como aconteceu num célebre episódio da vida do Papa João XXIII, para dar a ganhar dinheiro a um pobre.
O Belo ganha utilidade moral. O Bem ganha uma forma visível e atraente. O Bom materializa-se num ato de caridade e dignidade humana. Se retirarmos o Bem (a ética) do Belo, a arte pode tornar-se vazia ou até cruel. Se retirarmos o Belo (a estética) do Bem, a moralidade corre o risco de se tornar rígida, cinzenta e puritana. E se retirarmos o Bom (o benefício real, o sabor da vida), ambos se tornam distantes da experiência quotidiana das pessoas. A força destas categorias reside, portanto, na sua indivisibilidade. Quando caminham juntas, um ato de bondade comove-nos tanto como uma sinfonia, e uma pintura magnífica inspira-nos a sermos pessoas melhores. Elas alimentam-se mutuamente.
Também para Jesus, o dizer e o fazer não são a mesma coisa, mas que se devem complementar, pois diz: «Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus». Para Jesus, edificar sobre a rocha firme é da ordem do fazer e não meramente do dizer. Não é uma mera declaração de intenções, portanto. E a verdade gravada em ações é mais forte do que a verdade meramente descrita por palavras. E se aquelas ações forem boas, jamais se apagarão do coração de Deus, embora as más ações tenham melhor fama entre os homens.
Alguém dizia que as palavras, por vezes, podem enganar, mas as ações nunca enganam, porque gravam fundo. As palavras podem influenciar, mas só as ações é que servirão de prova. Para que as palavras valham será sempre necessária a presença de duas pessoas, mas as ações, boas ou más que sejam, de uma só pessoa manifestam o que ela é realmente. Portanto, se conseguirmos entender as pessoas pelas suas ações, então jamais seremos enganados pelas suas palavras.
A missão de Jesus foi sempre ensino e cura, nunca uma só destas coisas. a cura concretizava o significado do Reino que está latente nas palavras. Mas patenteou as palavras nas ações benevolentes em favor da humanidade. A celebração da Eucaristia sintetiza esta verdade contida na liturgia de hoje: a presença real de Jesus que comungamos é concretização da Palavra com que nos guia e com que confessamos a fé n’Ele. Pela sua Palavra nos ilumina e com o seu Corpo e Sangue nos fortalece para O imitarmos na prática.
Antes que a psicologia explicasse que é uma das fontes de felicidade deixar de procrastinar, quer dizer, não demorar a pôr em prática as tarefas que nos cabe fazer, Jesus ensinou-o e testemunhou-o aos seus discípulos para que tivesse uma vida inabalável. E há também quem confirme hoje aquilo que Jesus insinuou naquelas palavras: que a vontade é mais importância que a inteligência. O psiquiatra espanhol Enrique Rojas afirma que:
A força de vontade é definida como a capacidade de estabelecer objetivos concretos e mensuráveis e empenhar-se para os alcançar. Diz-se que a força de vontade é mais importante do que a inteligência atualmente. A força de vontade não é considerada genética, mas sim adquirida e cultivável. Desenvolver a força de vontade consiste em vencer a resistência através de pequenas ações diárias. Propõe-se uma “tabela de exercícios” baseada em hábitos de disciplina diária. O exemplo do estudante ilustra a força de vontade através do estudo, do apoio familiar e do cumprimento de deveres. Uma força de vontade bem desenvolvida leva à escolha do que é melhor, e não apenas do que é desejável. Uma força de vontade forte está relacionada com a maturidade da personalidade. Uma força de vontade fraca e mal desenvolvida está ligada à imaturidade.
Portanto, vale mais construirmos a nossa relação com Jesus e com os irmãos com passos pequenos no exercício da nossa vontade, em obediência à vontade de Deus, do que palavras grandiosas que nos levem a correr o risco de nos afastarmos de Deus e dos irmãos, por insensatez de falar mais do que praticar. A sabedoria popular advertiu-o com o ditado “muita parra pouca uva”. E Jesus advertiu que é pelos frutos que se vê a qualidade da árvore (Mt 7,16). O que conta a primeira leitura ─ a gente mais representativa da nação judaica foi deportada para o exílio da Babilónia e «só ficou a gente humilde do povo» ─ é suficiente para aprendermos que vale mais colocar a nossa humildade ao serviço da vontade de Deus do que sermos deportados com os nossos muitos dons para o exílio a serviço de outros deuses.
