L 1: 2Rs 17, 5-8. 13-15a. 18; Sl 59 (60), 3. 4-5. 12-13; Ev: Mt 7, 1-5. Os itálicos são tirados de aliturgia.com
A divisão do povo de Deus em dois reinos, hoje relatada pela primeira leitura, rapidamente se transformou numa leitura que espelha a nossa relação com Deus: não só como povo, mas também pessoalmente, todos nós estamos expostos a este perigo, que é, de um lado, está o desejo do Senhor e, do outro, a força da natureza que reclama de nós uma liberdade sem Deus. Voltar as costas ao Senhor é sempre expor-se ao poder do inimigo que devassa a nossa existência, se apodera de nós e nos transforma segundo os seus critérios para nos deixar ao seu serviço sem quaisquer direitos. Ouvir a advertência do Senhor é o único caminho para a salvação e liberdade total. Então, andar na presença do Senhor, ter unidade de vida e ser feliz implica cumprir os seus mandamentos. Uma coisa é certa: não faltam advertências do Senhor. Cabe a cada um de nós estar atento a elas no dia-a-dia.
No Evangelho, Jesus, que conhece o nosso coração, chama-nos à atenção para a possibilidade do julgamento do outro. É difícil para qualquer homem, um julgamento do outro com justiça. É difícil ao homem julgar sem ser julgado. O que os olhos veem não é a verdade porque o olhar está viciado pelo coração do homem. Somos cegos que querem ver sem vencer a própria cegueira. No que respeita à vida dos outros, não podemos ser tão atrevidos. Então, o caminho que Jesus nos indica é voltarmos o olhar sobre nós próprios: a única fronteira de julgamento possível é a do nosso património pessoal, humano e espiritual. O outro é meu irmão e é nessa qualidade que hei de olhá-lo para que seja o amor [que é Deus!] a vê-lo e a julgá-lo e não os meus olhos que são maus.
É útil a respeito desta liturgia da Palavra o que afirmou Francisco na Evangelii Gaudium n. 228:
…torna-se possível desenvolver uma comunhão nas diferenças, que pode ser facilitada só por pessoas magnânimas que têm a coragem de ultrapassar a superfície conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais profunda. Por isso, é necessário postular um princípio que é indispensável para construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, torna-se assim um estilo de construção da história, um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida. Não é apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste.
Em síntese, o maior mandamento que nos permite estar voltados para o Senhor é, à luz das palavras de Jesus, pedirmos o dom da sabedoria, e exercê-lo: o de olharmos os irmãos com os olhos de Deus.
