L 1: 1Rs 21, 17-29; Sl 50 (51), 3-4. 5-6a. 11 e 16; Ev: Mt 5, 43-48
O amor de Deus de que somos destinatários e que somos chamados a partilhar não tem limites. Se lhe colocássemos limites, já não estaríamos a adorar o verdadeiro Deus. Se lhe dermos limites, a esse amor, não passaremos da “geografia” religiosa dos pagãos. Afinal, o que diferencia os crentes dos pagãos não é crer ou não crer no Deus verdadeiro, mas amar ou não os inimigos.
Ser filho de Deus Pai que está nos céus não é ter ou não ter inimigos, mas amar os que temos; não é ser perseguido, mas orar pelos perseguidores. O amor incondicional de Deus é para todos, como o sol e a chuva. E parafraseando o ditado popular: no amor incondicional, tal Pai, tais filhos.
Mas que tipo de amor sem limites é este, como se conjuga desta afirmação de Elie Wiesel?
Devemos sempre tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o algoz, nunca o atormentado.
We must always take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented.
Esta é uma das tensões mais profundas da ética e da espiritualidade: como unir a radicalidade do amor evangélico (que humaniza o inimigo) com a urgência da justiça histórica (que exige a defesa do oprimido)?
À primeira vista, a frase de Elie Wiesel — sobrevivente do Holocausto — parece colidir com as palavras de Jesus no Sermão da Montanha. No entanto, quando olhamos mais de perto para o contexto de Jesus, percebemos que amar o inimigo não é sinónimo de silêncio, passividade ou neutralidade.
Aqui estão os três caminhos fundamentais para compatibilizar essas duas ideias:
- Em primeiro lugar, o amor não é cumplicidade. O ágape do N.T. não é um sentimento difuso de afeto, mas um desejo ativo pelo bem do outro e pela verdade. Jesus nunca foi neutro diante da opressão: Ele confrontou abertamente os fariseus, expulsou os vendilhões do Templo e defendeu as minorias marginalizadas da sua época (mulheres, estrangeiros, doentes). Portanto, o silêncio que consente com a injustiça não é amor. Denunciar o erro do opressor é, na verdade, a forma mais radical de amá-lo, pois tenta impedi-lo de continuar a desumanizar-se através da opressão.
- Em segundo lugar, quando Jesus está a convidar a “amar os inimigos”, Ele está a propor uma estratégia de resistência não-violenta ativa, e não de submissão. Um pouco antes deste episódio, Ele convida a “dar a outra face”. No contexto cultural da sua época, se um superior batia com as costas da mão na face direita de alguém para humilhá-lo, oferecer a face esquerda forçava-o a bater com a palma da mão, tratando a vítima como igual. Assim, era como se um um “inferior” deixava patente sem palavras: “a sua tentativa de me humilhar falhou”. A neutralidade esconde-se por medo ou conveniência, deixando o opressor agir livremente. O amor aos inimigos desarma o opressor ao recusar usar as mesmas armas dele (o ódio e a violência), mas mantendo-se firme na denúncia do erro.
- Finalmente, afirma-se a distinção entre a pessoa e a opressão. A compatibilidade entre Mateus 5 e a afirmação de E. Wiesel reside numa divisão clara de alvos: devemos ser intolerantes com a opressão (quebrando o silêncio e combatendo a injustiça para proteger a vítima) e devemos manter a janela da redenção aberta para o opressor (orando por ele e não o reduzindo ao seu pior erro, esperando que ele se converta). O silêncio diante do mal é um pecado de omissão. Já o convite de Jesus garante que, ao quebrarmos esse silêncio para defender o perseguido, não nos tornemos monstros iguais àqueles que combatemos. A justiça sem amor degenera em vingança; o amor sem justiça degenera em cumplicidade.
Convido-vos, hoje, a celebrar em sintonia com as crianças africanas, no seu dia internacional, em memória das vítimas de Soweto e com o objetivo de promover os direitos das crianças africanas.
