Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo. O sal que livra da corrupção e tempera, a luz que ilumina e guia os passos no caminho do bem. Foi neste sentido que Jesus aplicou estas imagens do conhecimento de todos, para nos levar a viver as ações nem sempre fáceis de praticar para todos!
Para isso, também nos ofereceu a pessoa deste Santo, muito provavelmente o Santo mais popular de todo o mundo. Santo António. Pensemos nisso: não há praticamente uma igreja, seja em Tokio ou em Buanos Aires, que não tenha uma imagem dele, fruto da devoção e fé no seu poder de interceção. Foi um homem com uma inteligência e uma coragem fora do comum.
Jesus coloca-nos esta personalidade no meio de nós para nos ensinar a ser sal e luz, como o Santo foi na sua vida.
Proponho-vos meditarmos da Palavra de Deus através da forma como Santo António deixou que esta Palavra trabalhasse nele e a partir dele, para o bem comum. E proponho fazê-lo através dos seguintes segredos, segredos a partir dos quais António obedeceu a Jesus, sendo sal da terra e luz do mundo. E para cada segredo um milagre que hoje podemos permitir Deus realizar nas nossas vidas.
António, homem…
1º ─ … Inconformista.
Inconformista é uma pessoa que ou pessoa que não se conforma ou não se resigna. que ou pessoa que se opõe aos hábitos e normas dominantes no contexto social em que está inserido. Como sabemos, cresceu com o nome de Fernando, numa família nobre e bastante rica (vivendo entre o séc. XII e XIII), que lhe deu uma boa educação humana e cristã, mas cedo quis ingressar na Ordem agostiniana em Santa Cruz de Coimbra, onde se aperfeiçoou na oração e nos estudos. Porém, o saber não bastava para ele. E foi no contacto com os franciscanos mártires que tinham ido para Marrocos converter os muçulmanos, regressando martirizados, que mudaram o coração deste Santo e o fizeram decidir-se ingressar na Ordem franciscana, propondo-se ir continuar a missão deles em Marrocos. Como sabemos, isso não aconteceu por causa de uma doença e o mandato de regresso a Portugal. No entanto, uma tempestade muda o rumo da sua vida para Itália e ali se encontro com aquela que iria ser a principal atividade da sua vida: ser pregador contra as heresias e lutador pela justiça em favor dos pobres. António viveu aquilo que vivem muitos migrantes que aportam noutros países à procura de uma vida melhor. Não foi à toa que neste sua recente visita à Espanha, o Papa Leão XIV visitou o porto nas Canárias para ali se manifestar contra a indiferença em favor da dignidade humana, afirmando que: pessoas não são números, a dignidade humana não tem passaporte, é preciso combater o conformismo, lutar contra as indústrias da morte, propondo uma exame de consciência internacional, e pedindo a interação em soluções a longo prazo que levem a impedir outros naufrágios, propondo acolhimento e integração.
Milagre: como António, descobrir que não cabemos na indignidade das coisas deste mundo, consciência que nos leva a saltar para uma dignidade maior, não tendo medo da transformação. Nem que para isso, seja preciso tomar decisões corajosas. Mesmo que para isso seja preciso, por vezes, quebrar respeitos humanos para a obediência a Nosso Senhor.
2º ─ … Da Palavra.
Homem da Palavra de Deus. Homem que saia do barulho, encontrando a sabedoria de Deus no silêncio. Na primeira leitura, a Sabedoria de Deus diz uma atitude que António praticou muito bem: «Aquele que medita na lei do Altíssimo, se for do agrado do Senhor omnipotente, será cheio do espírito de inteligência». Portanto, a nossa inteligência não vem primeiro, como muitos pretendem dizer, substituindo Deus. Primeiro vem a “lei do Altíssimo” em cuja meditação descobrimos o que é preciso saber para nosso bem e o bem de todos. António é chamado pela Igreja de “Doutor Evangélico” e “Arca do Testamento”, precisamente, porque guardava na sua mente e no seu coração toda a Sagrada Escritura e, também, sabia relacioná-la com os máximos expoentes filosóficos do seu tempo e, não menos importante, sabia relacioná-la com os acontecimentos do seu tempo, atualizando-a com uma linguagem compreensível para todos.
Milagre: escutar antes de falar. A obediência às coisas boas não vem de falarmos muito, mas de escutarmos muito (ob-audire). É esta verdadeira escuta com o coração que nos permite não só ser homens da Palavra escutada, mas também “homens de palavra” honrada com ações coerentes.
3º ─ Do encontro.
Hoje é muito difícil o encontro, num mundo não mediado pela tecnologia, parece que é muito difícil o encontro quotidiano presencial e direto, como fazemos como quando vivemos em família ou quando vimos à Eucaristia ouvir a Palavra de Deus e comungar o Corpo do Senhor, comungando com a vida dos irmãos. Santo António encontrou tanta gente, não só para lhes ensinar a verdade, mas também para conhecer as suas vidas e ajudar a superar os seus males. Não foram encontros para aparecer, mas para socorrer, curar os pecados, curar a solidão profunda. Santo António compreendia muito bem que não fomos criados para viver como ilhas, isolados, para para amar e ser amados.
Milagre: não deixar que nenhuma tecnologia substitua a bússola que é o nosso coração. A única tecnologia que ele usou desafiando São Francisco de Assis foi o livro e o mínimo de formação dos seus condiscípulos, nada mais. “Primeiro o amor, depois a técnica” (A. Gaudí).
4º ─ Da natureza.
Há duas árvores que são significativas na vida de António: ele foi da oliveira de Santo António dos Olivais em Coimbra à nogueira de Camposampiero, perto de Pádua, onde passou os últimos dias da sua vida terrena. A oliveira símbolo da misericórdia; a nogueira símbolo do acolhimento. São símbolos de atitudes que sintetizam a sua vida: naquela nogueira em que os seus confrades lhe fizeram um eremitério, acolhia todos aqueles que lhe pediam ajuda para as suas aflições; acolhia a todos com misericórdia.
Milagre: o recolhimento na natureza. O cuidado de ambientes onde o ser humano se possa encontrar com o seu Criador e, ao mesmo tempo, encontrar-se com os seus irmãos. Embora muitas vezes a vida no puxe para estarmos ligados às máquinas, entre o carro que conduzimos e os computadores com que trabalhamos, precisamos, de vez em quando, de nos apartarmos para ver melhor a luz interior que somos chamados a partilhar, lugares onde podemos encontrar o melhor sabor da vida, para que a possamos temperar.
5º ─ Da justiça.
Foi homem da justiça em favor dos pobres ou “pai dos pobres” contra os usuários do seu tempo. Muitos eram presos por não poderem pagar dívidas, por causa de juros cada vez mais elevados. Enfrentou tiranos como Ezelino de Romano, que metia na prisão esses pobres. As exortações de Santo António partiram-lhe o coração com palavras duras. Ezelino recebeu António e este amadureceu-lhe o coração. Abriu-lhe a mente. Mais tarde, Ezelino libertou os presos.
Milagre: o diálogo pacifista em favor da ação caritativa em favor dos últimos. A sua luta contra a usura diminuiu a exploração de muitos pobres. A economia de comunhão (são só solidária!) é um milagre muito precisa e urgente hoje. Conta-se a história de uo funeral de um rico do qual António disse não ter lá o seu coração físico. Foram abrir o cadáver e, de facto, não o tinha lá. Foram encontrá-lo junto aos seus bens mundanos. “Onde estiver o teu coração, aí está o teu tesouro”, disse Jesus.
Em conclusão. De monte calvário a monte de Santo António
Que o nosso bom Deus, pela interceção de Santo António, continue a proteger no caminho de nossas vidas. Por vezes, como conta a narração daquele milagre que aconteceu aqui na primeira metade do séc. XVIII, também as estradas onde navegamos têm irregularidades, e o acondicionamento dos nossos carros nem sempre é equilibrado, como aquele lavrador devoto. Como ele, sempre temos a hipótese de ajoelhar diante de tão grande mistério de Deus que veio até nós em Jesus Cristo, nosso salvador, que nos continua a guiar com o exemplo de tão grande Santo, não só de Lisboa e de Pádua, mas também de Silva Escura! Conforme aqui nasceu esta capela e esta festa para perpetuar o acondimento daquele milagre, também nas nossas vidas possamos permitir que o Senhor realize muitos milagres por interceção deste Santo, para que todas as horas de calvário se transformem em horas de ressurreição ou de vida nova. Diz a oração que está na vossa pagela, que Deus escuta o coração de Santo António. É este o maior segredo: é que tenhamos a Palavra do Senhor no nosso coração e que dialoguemos os problemas da vida com ela. É daí que irromperá vida nova, para nós, para as nossas famílias, para as nossas atividades, para a fraternidade e a paz de todos. Não obedecemos ao Evangelho isoladamente, porque o Senhor não disse “Tu és o sal e a luz…”; disse “Vós sois” como se dissesse “juntos”. É assim, como Santo
