L 1: 1Rs 17, 7-16; Sl 4, 2-3. 4-5. 7-8 Ev: Mt 5, 13-16.
A liturgia de hoje, na sequência das bem-aventuranças, continua a ajudar-nos a refletir sobre as perspetivas do Reino de Deus. Como se entrará nele? O que significa viver nele? Reflitamos com a ajuda de elementos básicos do dia-a-dia, assim como de atitudes básicas com que Jesus nos propõe acolher a sua mensagem.
Água, farinha, azeite, lenha, sal e luz (fogo) ─ são elementos básicos com os quais se preparam dois tipos de refeição: uma que tem que ver com a sobrevivência humana, outra que é de transformação sobrenatural; com os mesmos elementos com se tenta resolver a sobrevivência, segundo o mandato da Palavra de Deus, também se pode obter a vida que não tem fim. Uns elementos são convocados a alimentar o interior; outros são símbolos que nos convocam a manifestarmos Deus no exterior.
Farinha e azeite são a base do alimento. Sem eles, a viúva e o filho estavam resignados à morte (“comeremos e esperaremos a morte“). Eles representam o sustento básico, a vida que é preservada de forma íntima e doméstica, dentro de casa. Representam o sustento interno. Sal e luz são igualmente elementos básicos da vida quotidiana em que Jesus pega projetando-os para fora (impacto externo). O sal dá sabor e preserva o que já existe; a luz afasta as trevas e guia.
Há momentos ou fases na vida pessoal e de um povo em que se passa pela seca ou aridez. Um punhado de farinha no fundo de um tacho pode ser símbolo do pouco que Deus precisa para fazer o milagre da abundância. Por vezes, sonhamos sair da aridez com a ambição de coisas grandes, quando, na verdade, Jesus não nos guia por aí. Para sermos sal e luz, quer dizer, temperar o mundo com boas obras, basta que imitemos a atitude de Elias e da viúva de Sarepta: ter a coragem de condimentar o quotidiano com a Palavra de Deus e de obedecer às pequeninas coisas que o Senhor nos sugere a partir dela.
Ao ser humano que tende, no meio das grandes crises, a esperar a morte, Deus promete a vida e a felicidade. Porque Deus não criou o homem para a morte nem para a infelicidade. Deus quer o homem vivo e que ele se salve, por isso a sua palavra ressoa em toda a terra e em todos os corações na forma de esperança.
Portanto, o que hoje podemos pedir ao Senhor para que haja abundância de felicidade nos nossos corações e o possamos traduzir publicamente em boas obras, é o pouco essencial, do qual Ele pode fazer germinar o muito em favor de muitos. Mas este muito só é possível com o “vós sois”. O pouco essencial que cada um pode oferecer tem de passar pela confeção do “nós”. É na comunhão que tudo o que tem de ver com o Reino de Deus, e que já está semeado em cada coração, se amassa para que possa servir de alimento para todos.
Portanto, nenhum de nós, aliás, nenhuma pessoa, é indiferente ao mundo na perspetiva do Reino de Deus. Trata-se do saber estar e do dar conta de quem está, com a pobreza do que se é e do que se tem. Só há uma maneira de ser sal e luz: é salgando e iluminando. Por vezes, como Jesus diz, é preciso compor o sabor e altear a luz. O “livro de receitas” é a Palavra de Deus, o “forno” é a Eucaristia e a “mesa” é a missão.
