L 1: Os 6, 3b-6; Sl 49 (50), 1 e 8. 12-13. 14-15 L 2: Rm 4, 18-25 Ev: Mt 9, 9-13, no X Domingo do Tempo Comum (A) Reflexão inspirada, em parte no Pe. Pedro Rodrigues (Meditar a Palavra em Liturgia Diária) e em D. António Couto (Mesa de Palavras).
Jesus passa, vê Mateus e diz-lhe: «Segue-Me!». Ele levantou-se prontamente e seguiu Jesus. Uma história de chamamento não pequena e tão profunda ao mesmo tempo. Não está só em jogo a vida de Levi-Mateus, mas a da casa, da mesa, dos pecadores, dos discípulos, dos fariseus e do templo de Jerusalém. Vejamos por pontos:
- Estamos no coração do Evangelho e Jesus anda a caminhar com os seus discípulos. E no caminho Jesus vai perdoando os pecados e fazendo curas. Jesus tinha acabado de curar e perdoar o paralítico e foi com a mesma compaixão que passou diante do posto do cobrador de impostos. Compaixão e perdão é a chave para entendermos o Evangelho segundo Mateus. E é também o segredo da sua vida e vocação, como testemunhou, também, a respeito da sua própria vocação o Papa Francisco: miserando atque eligendo, olhou-o com misericórdia e escolheu-o.
- Olhemos para a posição de Mateus: sentado num lugar que o fazia ser conotado como impuro (cúmplice dos romanos e ladrões). Estava sentado como o cego Bartimeu que Jesus também curou no caminho, mas via mais do que ele, mas somente desprezo e exclusão por parte dos judeus. Mas logo que é olhado com amor por Jesus e convidado a seguir o Mestre, levantou-se, como o cego Bartimeu, este deixando a capa, Mateus deixando aquela função e partindo para a missão. Outros, no caminho, como Tiago e João pediram com vaidade o contrário que estes: queriam sentar-se um à esquerda e outro à direita, do trono da glória de Jesus. Ao que o Mestre respondeu que não sabiam o que estavam pedir.
- O que é que faz levantar/ressuscitar aquele homem? É o triunfo da graça sobre o julgamento, da compaixão sobre o legalismo. Só um amor assim poderia levar um homem que manejava números de for a injusta a transformar-se em apóstolo e evangelista.
- D. António Couto observa um aspeto interessante: «Tudo somado: Mateus, sai do comércio e da banca de impostos para a CASA e para a MESA. Espaço relacional novo. Puro confronto com o comércio que se faz(ia) na MINHA CASA, que é o Templo de Deus (Mateus 21,12-13)». Com a sua compaixão a transformar vidas, Jesus está, também a ser profeta em relação à religião e ao templo. Com Ele nasce um novo culto que contrasta com as pedras e o dinheiro, com sistemas rígidos e cultos vazios. A verdadeira ordem das coisas que agradam a Deus já tinha sido profetizada por Oseias: «Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos».
- «Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» A resposta à dada por Jesus, não pelos discípulos. Há coisas que Deus não manda dizer; diz Ele próprio em Jesus. E o Mestre fá-lo com a imagem da medicina. E é aqui está o coração do Evangelho: Deus não nos ama porque somos bons; Ele torna-nos bons porque nos ama. O amor não é prémio, mas remédio. É nesta esperança da ação bondosa de Deus que Abraão, citado pelo Apóstolo, acreditou contra toda a esperança humana. “S. João Crisóstomo explica assim, e explica bem: «era contra a esperança humana o modo da esperança que vinha de Deus». Quer dizer: o que era prometido a Abraão (vir a ser pai aos 100 anos, contando a sua esposa Sara 90) era humanamente inacreditável, para não dizer mesmo coisa ridícula” (D. António Couto).
- O chamamento de Mateus é, hoje, também para nós: quando estamos “sentados” naquele posto das nossas rotinas onde lidamos com pesos e culpas. Convidados a deixar para trás o banco da autossuficiência, abandonar o medo e confiar no olhar que perdoa. Significa levantarmo-nos para uma vida nova, possível não porque somos bons, mas porque um dia o Senhor olhou-nos com um olhar que nos transforma. Vida nova é estender a mesa da misericórdia aos outros. Os cristãos, curados pelo amor, tornam-se também instrumentos de cura. A Igreja continua esta missão de Jesus: de ser casa aberta para os feridos, mesa de acolhimento para os pecadores, lugar onde a graça cura e transforma. Não lugar de calculismos ou de comércio da graça. O que recebemos de graça, somos chamados a dar de graça.
- Portanto, é a consciência humilde de sermos pecadores que nos abre à graça de Deus e não outra coisa. O Papa Francisco explicou porque aquele Mateus se levantou e seguiu Jesus: «a primeira condição para ser salvo é sentir-se em perigo; a primeira condição para ser curado é sentir-se doente… sentir-se pecador é a primeira condição para receber este olhar de misericórdia… pensemos no olhar de Jesus: tão belo, tão bom, tão misericordioso, e também nós, quando rezamos, sintamos este olhar sobre nós: é o olhar do amor, o olhar da misericórdia, o olhar que nos salva… não ter medo».
A moral não é a prisão do homem, mas antes o elemento divino nele… A moral que a Igreja ensina não é um fardo especial para os cristãos. É a defesa do homem contra a tentativa de o abolir. Se a moral – como vimos – não é a escravidão do homem, mas a sua libertação, então a fé cristã é o ponto de partida para a liberdade humana.
─ Joseph Ratzinger, Ponto de Viragem para a Europa, 1994
