
1) A Eucaristia como alimento no caminho da vida cristã
A solenidade do Santíssimo Corpo e o Sangue de Cristo é a celebração da presença de Nosso Senhor Jesus Cristo como Ele mesmo a prometeu aos seus discípulos: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20), presença que acontece sob a ação do Espírito Santo. A Eucaristia prolonga a vida nova recebida no Batismo e alimenta a missão recebida no Crisma, como veremos adiante.
Como nos mostra a primeira leitura, Deus sempre acompanhou o seu povo ao longo da história, provando-o e alimentando-o. E já ali se manifesta a diferença e reciprocidade entre o alimento físico necessário para o caminho pelo deserto e o alimento superior que está na Palavra que sai da boca de Deus, e que está na contemplação das ações de Deus em favor do povo.
Portanto, nesta solenidade celebramos o coração da fé cristã: a presença real de Cristo na Eucaristia, que é o mistério do amor que se faz alimento. Diante deste mistério, difícil de compreender, mas fácil de comer, somos chamados a expressar a nossa gratidão. O povo costuma dizer que “a ingratidão tem a memória curta”. Então, ao expressarmos a nossa gratidão por tão grande alimento, estamos a reconhecer quer a presença de Jesus na nossa vida, quer aquilo que Ele fez por nós ao longo da nossa história pessoal e de povo. É por isso que a Eucaristia também se traduz por “ação de graças”. Enquanto os judeus se escandalizaram com as palavras de Jesus, e ainda hoje muitos se escandalizam ou ridicularizam o ato de comer a Eucaristia, os crentes acolhem-n’O não meramente como uma lembrança do passado (juntamente com a fotografia da 1ª comunhão), mas uma substância que continua a transformar as nossas vidas. Olhemos com realismo as palavras de Jesus: «Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia». “Tem” a vida eterna! Enquanto vamos participando na Eucaristia, Jesus vai-nos lançando na vida eterna ou, dito de outro modo, vai-nos ressuscitando. Porque ao comer a sua carne, Ele vai-nos transformando n’Ele.
2) A Eucaristia como alimento da comunhão
Ao participarmos na Eucaristia, vindos de nossas casas particulares, a celebração vai-nos transformando a todos na comunhão comunitária. A Eucaristia é fonte de unidade. São Paulo não mente ao sublinhar que o Corpo de Cristo que comungamos é, também, sinal daquele “um só corpo” feito de muitos, de todos os que participamos deste pão divino. Portanto, Corpo de Cristo não é só a hóstia consagrada que adoramos e comemos, mas também, a Igreja reunida.
O Papa Bento XVI não deixou de o dizer no seu testamento espiritual: «Jesus Cristo é verdadeiramente o caminho, a verdade e a vida — e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o seu corpo».
Assim, a Eucaristia é dupla comunhão: com Jesus sacramentado e com o seu corpo que é a Igreja. Tenho reparado em muitas ocasião de festas religiosas que muitas das transformações que o Espírito Santo sugere à Igreja passam ao lado do povo de Deus, de forma que o celebrar nem sempre resulta em mudança de vida para melhor. E o que não se muda por convicção, muitas vezes terá de mudar-se por arrasto. Melhor seria se fosse pela convicção alimentada pela leitura dos sinais dos tempos iluminada pela Palavra de Deus e pela força do alimento eucarístico.
3) A Eucaristia como alimento da missão
A Igreja faz a Eucaristia a pensar na saúde espiritual de cada um; e a Eucaristia faz a Igreja a pensar na salvação de todos. A Eucaristia é, como todas a Liturgia em geral, o centro, o cume para o qual tendemos e do qual somos enviados em missão. Cada celebração eucarística é encontro, comunhão e envio. É encontro porque Cristo Se faz presente; é comunhão porque nos une a Ele e entre nós; é envio porque quem se alimenta do Corpo do Senhor é chamado a ser corpo de Cristo no mundo. São João Crisóstomo advertia: «Tu queres honrar o Corpo de Cristo? Não O desprezes quando O vês nu. Não o honres aqui com tecidos de seda, se lá fora O deixas sofrer com frio e fome». A Eucaristia não é só adoração, mas compromisso. Alimentados por Jesus, somos chamados a ser presença viva d’Ele na vida quotidiana.
A Eucaristia não ficou completa com a Última Ceia no cenáculo. Ela culminou no Calvário público, onde Jesus Se deu em favor de todos. É com este espírito que somos chamados a viver a Eucaristia: deixando-nos alimentar, para, na vida, levar este alimento traduzido em palavras de anúncio e gestos de caridade.
