L 1: Ex 34, 4b-6. 8-9; Sl Dn 3, 52.53-54.55acd-56 L 2: 2Cor 13, 11-13; Ev: Jo 3, 16-18, na Solenidade da Santíssima Trindade. Os itálicos são das admonições do dia em liturgia.pt
«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» ─ é com esta afirmação de Jesus a Nicodemos que somos chamados a aproximar-nos do mistério da Santíssima Trindade e a celebrá-lo na liturgia. E como é que podemos conhecer o Deus revelado assim por Jesus Cristo ─ o Deus que ama tanto o mundo a tal ponto de nos dar o seu Filho único ─ num mundo cheio de contradições e guerras?
Jesus revela-nos Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. O eterno Amante, o eterno Amado e o eterno Amor (D. Bruno Forte). A uma criança poderemos sugerir a analogia do gelado com três sabores! Jesus revela-nos Deus como nunca antes d’Ele tinha sido possível conhecer. E esta é a parte mais profunda da mensagem de Jesus. Antes de Jesus, conhecia-se o Deus Criador, o Altíssimo, Todo-poderoso mas distante. Jesus apresenta-nos um só Deus como três Pessoas que vivem em comunhão, como uma família. Portanto, o Deus que Jesus nos dá a conhecer com a sua encarnação, vida, paixão, morte, ressurreição, ascensão e envio do Espírito Santo, é um Deus para nós nos relacionarmos com Ele e não só para o conhecermos e obedecermos. É um ser de relação.
Como pode Deus amar o mundo como ele está? Pois é assim o Deus que Jesus nos revela: um Deus de um amor paciente. Cuidado! Não estamos a falar de um Deus que fica parado a ver as coisas a acontecer. Convém, a par disto, esclarecer já o conceito amor. Não é um sentimento, que vem e vai. Não é fruto de uma emoção. É fruto de uma escolha, de uma decisão. Ama como Deus quem vive numa atitude permanente de serviço. Ora, como tal, seja em que circunstância for podemos amar como Deus ama: estando ao serviço, sobretudo quando o ser humano vive tribulações. Deus ama-nos em todas as circunstâncias.
Este Deus que nos ama tanto, é o único que pôde e pode continuar a escolher ser vulnerável a nosso favor. Nós não escolhemos ser frágeis e até nos podemos envergonhar de mostrar as nossas fragilidades. Mas Deus, não sendo frágil, pôde escolher-se frágil. Também na ação de amar: Deus nunca pode não amar. Nós é que podemos umas vezes amar e outras vezes não. Se quisermos compreender bem o que significa o amor incondicional de Deus, teremos de O imitar até ao limite que nos foi apresentado por Jesus: «amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem, para vos tornardes filhos do vosso Pai que está nos céus» (Mt 5,44).
A prova maior deste amor incondicional de Deus Pai é o facto de nos ter dado o Seu Filho único. E dando-nos este Filho único abrir as portas para entrarmos numa relação de intimidade com Ele, através do Espírito Santo que os une. Por vezes, podemos ser tentados a pensar que a nossa relação com Deus mais importante está na ordem do sabermos muitas coisas acerca de Deus ou da religião. Nicodemos era mestre em Israel e vivia na obscuridade; tinha vergonha de se encontrar com Jesus durante o dia e, por isso, procurava-O durante a noite. A ele, Jesus apresenta-lhe um Deus que lhe quer tocar o coração, mais do que encher a mente. Se Deus fosse um Ser para meramente compreender, nem sequer os professores académicos o conseguiriam fazer. (Um professor da Faculdade de Teologia dizia aos alunos que se chegassem à disciplina de Mistério de Deus afirmando conhecê-lo plenamente, dizia-lhes que os reprovaria, porque lhe estavam a acabar com a disciplina!)
O Mistério de Deus pode ser difícil de compreender, porque será? Porque é excesso de luz. Ao posso que a confusão (o “enigma”) entre os seres humanos, por vezes, também é difícil de compreender, porque é excesso de trevas. Podemos, até, fazer aqui uma tabela comparativa entre a luz de Deus e as trevas da confusão:
O Mistério de Deus é uma realidade positiva, cheia de confiança, otimismo e esperança. Relacional: quer fazer-se compreender e comunicar, enviando continuamente sinais e mensagens. É possível falar com ele, procurar vê-lo, tocá-lo e contemplá-lo. Sensível, pleno de calor e acolhimento (como o sol que nos aquece). Abraça o ser humano, trazendo a serenidade e o colo de uma proteção maternal (Salmo 131). Pleno de sentido; oferece constantemente a oportunidade de dar rumo e significado à nossa vida. Provoca-nos, expande os nossos espaços e horizontes. Pede e dá coisas grandes (o máximo). Abre-nos ao amanhã, encarando o futuro como um amigo com esperança. A oração (pedagogia para educar o olhar e deixar-se iluminar nas crises, na dor ou na morte). É divino e conduz ao divino.
O mistério das trevas é uma realidade insensata, vazia de significado, assente no desespero e no medo. Impenetrável: não deseja desvelar-se e afasta-se se houver uma tentativa de aproximação. É como um ídolo estéril: tem olhos mas não vê, orelhas mas não ouve, mãos mas não toca. Frio, insensível e metálico. Ignora o ser humano, tornando quem se aproxima dele parecido com a sua própria rigidez. Torna tudo e todos privados de sentido. Não provoca nem pede mudança; tudo nele é plano, estático e sem vida. Gera incerteza e medo; o futuro é visto como um inimigo hostil. A desistência ou a entrega à obscuridade. É diabólico e torna as pessoas tenebrosas.
Embora esta distinção possa parecer estranha, a verdade é que todos nós, consciente ou inconscientemente, escolhemos diariamente qual destas duas dimensões queremos privilegiar na nossa vida e no nosso testemunho. Jesus ensinou os seus discípulos a, enquanto estiverem no mundo diante das dificuldades, a vencer o mundo pela força do seu Espírito de Amor que vem do Pai. Como poderíamos imitá-l’O para vencermos como Ele venceu, escolhendo ser frágil com os frágeis para os salvar? Diria em três passos, à imitação da familiaridade solidária que existe dentro da Santíssima Trindade:
- Ser bons filhos. É neste relação que a nossa vida começa por ser fundada. Mesmo se a nossa história nos pregou “partidas”, os cristãos sabem que Deus Pai nunca os abandonaria. Mas também criou os pais biológicos ou adotivos para ajudar na educação prática desta confiança.
- Ser bons irmãos. É nas nossas relações fraternas que a nossa vida se desenvolve e nunca nos salvaremos sozinhos, mas a partir da solidariedade com todos, com relacionamentos significativos de cooperação. Neste “Dia dos Irmãos”, a CEP oferece-nos uma mensagem em que se propõe a «redescoberta da fraternidade que não está somente na consanguinidade, mas no dom efetivo e afetivo. Não uma vez, mas quotidianamente. Trata-se de rever as relações, reconhecer os erros, usar a misericórdia e o perdão, aceitar e reconhecer o diferente».
- Ser bons pais. Quer dizer, também, pastores, governantes, etc. Podemos sê-lo de todos a partir da amizade social. Especialmente dos mais vulneráveis e esquecidos. Sê-lo-emos como Deus Pai se tivermos até a coragem de amar os inimigos, não sentimentalmente, mas com boas ações, que não se devem negar a ninguém.
