navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 1Pd 1, 18-25; Sl 147, 12-13. 14-15. 19-20; Ev: Mc 10, 32-45

No caminho para Jerusalém contemplamos um misto de emoções e sentimentos: preocupação, medo, ambição, indignação. Só Jesus estava a viver aquele realismo esperançoso declarado por Jose Luis Martin Descalzo como o verdadeiro sentimento cristão, melhor que o otimismo que, não raramente, nos leva a cair em euforias inúteis e perigosas. Só Jesus estava ali a assumir o seu caminho de entrega com lucidez e sem arredar um passo de encontro ao que deveria ser.

Não há nenhum momento da vida de Jesus que não tenha sido de serviço. O que sabemos melhor é o que se refere à sua vida pública. Sabemos umas poucas coisas da sua infância e aos 12 anos, na ida ao templo entre os doutores. Mesmo nestes longínquos episódios a sua presença tenra era serviço. Então na Cruz do Calvário, exerceu o máximo serviço à humanidade, não envergando sinais de poder, mas ajudando-nos a decifrar o verdadeiro poder dos sinais. Vivendo na sua Pessoa o que ensinou aos seus discípulos.

No Calvário, exerceu, inclusivamente, a primeira ação da história do que viria a ser o futuro dicastério para a causa dos santos: ali canonizou o bom ladrão, que O ladeava no lado oposto ao mau ladrão, sem burocracia e com base numa única virtude: a humildade. Foi a estes que o Pai decidiu reservar os lugares à direita e à esquerda de Jesus, no seu trono de glória, a Cruz. A etiqueta divina dos lugares no calvário conecta-se com a passagem evangélica de hoje. O cálice do batismo que Jesus “bebeu” é vertido ali, assim como a mais profunda lição de humildade, testemunhada pelo bom ladrão: “Ele não mereceu este fim… Senhor, salva-me… Lembra-Te de mim quando estiveres na tua realeza”. Este não lhe pede um lugar de destaque, mas unicamente que esteja na Sua memória. A este, Jesus não demora em declarar “ex cátedra” «amen te digo: hoje estarás comigo no paraíso» (Lc 23,43).

Uma das coisas que considero mais estranhas, alternativas ou concorrentes com o Evangelho, é o risco que os crentes correm, por vezes, ao projetarem no Reino dos Céus os esquemas pessoais, institucionais e as arquiteturas da terra. Ao oferecer-nos a sua primeira Encíclica ─ Magnifica Humanitas ─ o Papa Leão XIV adverte-nos, precisamente, sobre o perigo de construirmos continuamente uma torre de Babel, em vez de construirmos a cidade santa de Jerusalém. Esta representa a possibilidade de salvaguardarmos a dignidade de cada pessoa, de promovermos a justiça e de possibilitarmos a fraternidade (cf. n. 1). A torre de Babel não se refere somente à confusão de línguas, mas também à divergência dos espíritos.

Jesus tanto apreciou a nossa humanidade que não só a encarnou como passou o tempo todo a chamar-se “Filho do homem”. E o título que alguém pode ter para si, que é comum a todos os batizados, é precisamente o de… Filho de Deus. Mas para o entendermos, teremos de assumir como Jesus que somos filhos humanos. Portanto, não há outro trono que o da humildade, para vivermos o serviço divino.

«Obedecendo à verdade, purificastes as vossas almas para vos amardes sinceramente como irmãos», escreveu o Apóstolo Pedro. A humildade que nos permite responder a esta exortação é a semente incorruptível semeada pela Palavra de Deus nos nossos corações. O resto é como a erva e a flor da erva: seca e cai. Portanto, no caminho da fé fixemos os nossos corações naqueles valores que edificam em nós a vida eterna.