navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 19, 1-8; Sl 67 (68), 2-3. 4-5ac. 6-7ab; Ev: Jo 16, 29-33

Na semana passada ouvimos Jesus dizer aos seus discípulos «agora vou para Aquele que Me enviou e nenhum de vós Me pergunta: ‘Para onde vais?’». Depois, ouvimos-Lhe dizer «nesse dia, não Me fareis nenhuma pergunta». Hoje, os discípulos constatam «agora vemos que sabes tudo e não precisas que ninguém Te faça perguntas». Este encontro da falta ou da não necessidade de perguntas com a constatação de que, realmente, Jesus sabe tudo e que os discípulos de Jesus não precisam de Lhe fazer nenhuma pergunta confirma-nos que a intimidade de Jesus, mais do que a investigação sobre as coisas sagradas, leva-nos a saborear tudo o que é importante no tempo preciso, ou seja, na hora de Jesus e no tempo de Deus, na medida justa. Como aprendemos nos exercícios inacianos: mais do que saber indefinido, trata-se de saborear o essencial.

Esta pedagogia de Jesus não inibe os discípulos de fazerem perguntas; o que Ele não quer é que eles façam perguntas superficiais, escondendo as perguntas profundas ou fundamentais, para as quais Ele os provoca com respostas, aqueles que os “obrigam” a formular as perguntas necessárias. A respeito da sua relação com o Pai e da sua missão, Jesus não esconde nada aos seus, mas vai desvelando o essencial à medida da sua compreensão e dentro da oportunidade do tempo em que ainda estará com eles fisicamente. Após este tempo, promete-lhes enviar Espírito Santo, cuja luz os ajudará, no meio da dispersão e de tribulações, a interpretar o que Ele lhes tinha dito.

Amedeo Cencini, na sua conferência “Abraçar o futuro com esperança”, a partir do min. 17:11, ajuda-nos a perceber como na abertura ao sentido do mistério também a atitude espiritual pode ajudar a decidir a atitude psicológica e, de forma concreta, o modo no qual nos dispormos a viver o futuro. E, para isso, coloca-nos diante de duas possíveis leituras ou dois modos de entender aquilo que não se pode entender: por um lado, o mistério de Deus, que é difícil de compreender por ser excesso de luz; por outro, o enigma, que é difícil de olhar por excesso de trevas. Oferece-se a seguinte tabela comparativa:

Critério de ComparaçãoMistério / Luz 🌟Enigma / Trevas 🌑
Definição e OrigemExcesso de luminosidade; luz tão intensa que os olhos humanos não conseguem suportar inicialmente.Impenetrabilidade do sentido por excesso de escuridão e crueza.
Natureza e AtitudeUma ideia positiva, cheia de confiança, otimismo e esperança.Uma realidade insensata, vazia de significado, assente no desespero e no medo.
Relação e ComunicaçãoRelacional: quer fazer-se compreender e comunicar, enviando continuamente sinais e mensagens.Impenetrável: não deseja desvelar-se e afasta-se se houver uma tentativa de aproximação.
Interação HumanaÉ possível falar com ele, procurar vê-lo, tocá-lo e contemplá-lo.É como um ídolo estéril: tem olhos mas não vê, orelhas mas não ouve, mãos mas não toca.
Ambiente EmocionalSensível, pleno de calor e acolhimento (como o sol que nos aquece).Frio, insensível e metálico.
Ação sobre o IndivíduoAbraça o ser humano, trazendo a serenidade e o colo de uma proteção maternal (Salmo 131).Ignora o ser humano, tornando quem se aproxima dele parecido com a sua própria rigidez.
Impacto no Sentido da VidaPleno de sentido; oferece constantemente a oportunidade de dar rumo e significado à nossa vida.Torna tudo e todos privados de sentido.
Horizontes e ExigênciaProvoca-nos, expande os nossos espaços e horizontes. Pede e dá coisas grandes (o máximo).Não provoca nem pede mudança; tudo nele é plano, estático e sem vida.
Visão do FuturoAbre-nos ao amanhã, encarando o futuro como um amigo com esperança.Gera incerteza e medo; o futuro é visto como um inimigo hostil.
Caminho de IntegraçãoA oração (pedagogia para educar o olhar e deixar-se iluminar nas crises, na dor ou na morte).A desistência ou a entrega à obscuridade.
Dimensão EspiritualÉ divino e conduz ao divino.É diabólico e torna as pessoas tenebrosas.

O autor sublinha que, embora esta distinção possa parecer inédita, todos nós, consciente ou inconscientemente, escolhemos diariamente qual destas duas dimensões queremos privilegiar na nossa vida e no nosso testemunho. Jesus ensinou os seus discípulos a, enquanto estiverem no mundo diante das dificuldades, a vencer o mundo pela força do seu Espírito, conforme Ele mesmo venceu. E diante das provações futuras que lhes anuncia, a sua confiança no Ressuscitado não pode ter limites. Diante do mistério de Deus que nos envolve, cada uma das nossas escolhas em cooperar com Ele é sempre útil, ainda que pareça inútil (a utilidade da nossa inutilidade!), enquanto, por vezes, em relação à vida que põe de lado a interação com o mistério de Deus, façamos o que fizermos, poderemos correr o risco de virmos a ser descartados.

Na passagem de Paulo por Éfeso, é nítida a passagem entre o ascetismo do batismo de João e a gratuidade do novo e definitivo Batismo de Jesus, no Espírito Santo. O batismo cristão supõe a conversão da parte de quem o recebe, mas é dom gratuito, porque fruto do sacrifício pascal do Senhor. Portanto, como os Efésios, que ainda não tinha chegado até aqui, também alguns cristãos já batizados e até crismados, mas não verdadeiramente iniciados, e, enfim, todos nós, precisamos de dar este salto, entre uma crença baseada no enigma ou uma vida nova de fé baseada na aproximação ao mistério que é Deus.

A notícia com que hoje rezo à luz da Palavra é o grande número de celebrações do Sacramento do Crisma, durante estes meses de primavera-verão, em que muitos jovens fazem a passagem para aquilo a que se espera ser “adultos na fé” no culminar da iniciação cristã. D. Bruno Forte, no seu pequeno livro “Crismar-se, porquê? A Confirmação e a Beleza de Deus“, fala da “ponte do burro” como uma passagem particularmente difícil, como é esta idade ou passagem de etapa para muitos jovens. Na origem desta expressão parece estar uma antiga lenda, que fala de um Santo, de um burro e do Diabo. O Santo tinha de atravessar muitas vezes uma torrente impetuosa. O Diabo ofereceu-se, então, para construir uma ponte, na condição de poder apoderar-se da alma do primeiro que a atravessasse. O Santo aceitou, e o Maligno parecia já estar a saborear a delícia de poder apoderar-se da alma do homem de Deus. Este, porém, demonstrou que era mais sábio do que o Diabo, pois, ao atravessar a ponte, mandou que passasse primeiro… o burro, que — foi poupado, — como o Santo previra porquanto não agradou ao grande adversário!

Peço ao Senhor para que os jovens que estão para celebrar o sacramento do Crisma para que se fiem em Deus, usando a sua inteligência e a boa vontade, para poderem atravessar as torrentes mais impetuosas e avançar livres e serenos pelo caminho da vida. Para que não tenham pressa de chagar ao “fim” no percurso das “cosias” de Deus, para, em muitos casos, a seguir confiarem mais nas propostas enigmáticas de grupos ou instituições que lhes prometem um bom futuro. Para que nunca se sintam sós, acolhendo a promessa de Jesus, e sintam na proximidade do seu Espírito Santo aquele Defensor e Consolador que os ajudará a vencer nas provações diversas da vida. Oremos, irmãos.