navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45), 11-12. 14-15. 16-17; Ev: Lc 11, 27-28, na Festa da Virgem Santa Maria do Rosário de Fátima

Na Exortação Apostólica Signum magnum (13/5/1967), o Papa Paulo VI chama a atenção de todos os filhos da Igreja para «o inseparável vínculo que existe entre a maternidade espiritual de Maria e os deveres que têm para com Ela os homens resgatados», levando a considerar duas verdades muito importantes para a renovação da vida cristã:

1ª ─ Maria é Mãe da Igreja, não só por ser Mãe de Jesus Cristo e sua íntima colaboradora na nova economia da graça, quando o Filho de Deus n’Ela assumiu a natureza humana para libertar o homem do pecado mediante os mistérios da sua carne, mas também porque brilha à comunidade dos eleitos como admirável modelo de virtude.

2ª ─ É, pois, dever de todos os cristãos imitar religiosamente os exemplos de bondade que lhes deixou a Mãe do Céu. (…) É em Maria que os cristãos podem admirar o exemplo que lhes mostra como realizar, com humildade e magnanimidade, a missão que Deus confiou a cada um neste mundo, em ordem à sua eterna salvação e à do próximo.

É com estas palavras do Papa Paulo VI que podemos compreender o Evangelho desta festa, aqueles dois “elogios” ─ «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito» e «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» ─, saídos, respetivamente, da boca de uma mulher e da boca de Jesus. São duas “bem-aventuranças” que se entrelaçam por um laço especial ─ o Sim de Maria ─ da sua implicação humilde e silenciosa no projeto salvífico de Deus. Diria que uma destas bem-aventuranças é instrumental e a outra final; a primeira é predisposição, a segunda realização; a primeira abertura humana, a segunda dádiva de Deus.

Naquela “mulher”, que aparece várias vezes evocada na leitura do Apocalipse, tanto podemos ver Maria, como a Igreja, “grávidas” pelo Espírito Santo, chamadas a caminhar no deserto, e ambas com o fruto da sua gestação ameaçada pelo mal devorador. O autor do Livro canta «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido», vendo Deus continuar a realizar através da Igreja o que primeireou na pessoa de Maria. E Maria, “revestida de sol”, continua a interceder e recomendando. Intercedendo junto de Deus para que o mistério de fecundidade espiritual realizado a partir do seu Sim continue a ser realizado através da Igreja. E recomendando insistentemente aos homens a firmeza da fé e o espírito de oração, penitência e reparação.

Aproveitando as palavras da homilia do Patriarca de Lisboa na vigília de ontem, este deserto não é escuridão, mas silêncio fecundo. Em Fátima, Maria não aparece de rompão, mas como luz suave, não forçando, mas convidando a ter fé e confiança a Deus que nunca abandona o seu povo. Adverte que esta noite coloca-nos diante de uma responsabilidade. Não basta acender uma vela. Não basta receber luz. É preciso tornar-se luz. E hoje na Eucaristia: uma das maiores profecias de Fátima para o nosso tempo: a humanidade só encontrará paz quando descobrir novamente que é família. Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho. Aqui todos somos filhos acolhidos pela mesma Mãe. A Mensagem de Fátima só é verdadeiramente acolhida quando se transforma em missão. Quando aquilo que aqui recebemos se torna luz para os outros. Quando aquilo que aqui contemplamos se transforma em vida nova. Amar como Maria é carregar o sofrimento dos outros, é tornar-se próximo, é recusar a indiferença. Não há amor verdadeiro a Deus sem amor concreto pelo irmão. Em Maria gera-se a nova humanidade. Nela nascem homens livres. Nela nascem corações reconciliados. Nela nascem homens e mulheres capazes de amar. Nela nascem filhos da luz. O outro deixa de ser uma ameaça, passa a ser um irmão.