L 1: At 16, 22-34; Sl 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 7c-8; Ev: Jo 16, 5-11
Estamos muito próximos das solenidades da Ascensão do Senhor e do Pentecostes, e o Evangelho mostra-nos que a despedida de Jesus vai ficando cada vez mais densa não só de emoções humanas, mas sobretudo de moções espirituais e da responsabilidade sobre a missão que o Mestre quer entregar aos seus discípulos, não como um fardo mas como uma solução para os males do mundo.
Mas há uma condição, própria de quem vive a abnegação (“colocar o dever acima de si mesmo”): Ele tem de partir para que o Paráclito venha. Para ser Ele o emissor do Espírito Santo, Ele tem de estar na glória do Pai. Estas palavras de Jesus fazem-me lembrar tantos emigrantes que para darem aos seus melhores condições de vida, tiveram de se apartar da sua família, por vezes, por longos anos, por amor vivido à distância e a traduzir-se por um outro tipo de presença qualificada. No projeto de Deus, esta qualidade traduz-se sobretudo por bens espirituais.
O discurso de Jesus não só descreve os sentimentos aparentemente contraditórios dos discípulos (tristeza por Ele ter de partir/mas interesse que Ele vá) como também transporta uma promessa sobre o Espírito Santo e a sua atividade dentro e a partir dos discípulos, a saber: sobre o pecado, a justiça e o julgamento. O pecado consequência da falta de fé; a justiça que é ter de partir; o julgamento do príncipe deste mundo que já está condenado. Na prática, Jesus quer transmitir aos seus é que, após a sua partida (que se traduz no mistério pascal), o mal já não tem a última palavra; porém, o bem precisa da fé e do empenho de todos.
Hoje comemora-se civilmente o Dia Internacional do Enfermeiro, no qual se distribui um kit informativo a todos os enfermeiros. Lembra-se Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem moderna. As suas publicações de estudos comparativos trouxeram à enfermagem inovações que resultaram da diminuição de mortes numa percentagem surpreendente (no contexto da Guerra da Cimeira, em meados do séc. 19).
Recordo-me do juramento feito por várias de gerações de finalistas de enfermeiros que estudaram em Viseu e que era feito com palavras de Florence:
Juro dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a Enfermagem com consciência e dedicação, guardando sem desfalecimento os segredos que me forem confiados. Respeitando a vida desde a conceção até à morte, não participando voluntariamente em atos que coloquem em risco a integridade física e psíquica do ser humano, mantendo elevados os ideais da minha profissão, obedecendo aos preceitos da ética e da moral, preservando a sua honra, o seu prestígio e as suas tradições.
Reflito que este “kit” de ética na enfermagem está de algum modo inspirado no “kit” que Jesus deixou aos seus discípulos antes de partir, inspirando-os a acreditar n’Ele e no seu projeto de justiça divina contra o mal no mundo.
É este mesmo “kit” que Paulo e Silas trazem no coração, ao passar por Filipos, nas suas viagens em que concretizam a expansão da fé cristã. Aqueles pés de apóstolos presos e as portas abertas não são só o relato de uma prisão consequência de uma perseguição dos apóstolos pelos magistrados; são também a cura de uma certa normalização de leis instituídas que não libertam o ser humano do que o prende a este mundo. Naquela circunstância, aquele carcereiro descobre o que Quem o pode salvar a ele e à sua família: «Acredita no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua família».
Afinal, o carcereiro descobre que está encarcerado, ao passo que os apóstolos estão presos, mas com o coração livre por acreditarem em Jesus e anunciarem a salvação em seu nome. Na tentativa de aprofundar melhor este paradoxo entre o ser carcereiro (porque se obedece a leis humanas) e encarcerado (por não se conhecer a Lei de Deus que liberta e dá vida), descobri a provocação de um ator italiano ─ Paolo Ruffini ─ que a partir do projeto “Up & Down” acompanha e anima pessoas com a Síndrome de Down, avisa que dentro da palavra “normal” está a palavra “mal”. Estamos de tal forma sobrecarregados pelo mal que o o normalizámos, tornando o mal normal. Procurai, sugere ele, de concentrar-vos sobre o “norbem”. Não é a sombra, nem a obscuridade, mas a luz, qualquer que seja a forma em que esta luz nos possa chegar. Mesmo a partir das feridas que, porventura, se possam tornar fendas, pelas quais a luz também poderá passar.
Descobri, também, que o “fundador” académico do conceito “norbem” é o psicólogo/psicoterapeuta Paolo Fabrini, a advertir com o seu trabalho que “normal” é um conceito estatístico frio. Ser normal é apenas “estar na média”, o que muitas vezes anula a individualidade. Segundo este, deveríamos perguntar às pessoas “Estás norbem?” em vez de “Estás normal?”, levando as pessoas a estar mais em conformidade com o sentido último da sua existência, do que estar meramente em conformidade com a sociedade. No fundo, trata-se do paradoxo entre o estar encarcerados nas prisões deste mundo ou “carcerados” ou abnegados ou dedicados altruístas (como Jesus e os apóstolos, a Florence Nightingale e outros) por um amor que causa terramotos que abrem as portas para a vida eterna.
Continuemos a rezar, no contexto da Semana da Vida, aclamando “Bem-aventurados os que protegem a vida; em cada vida um dom, em cada gesto a paz”:
Senhor da Vida e da Paz, dá-nos um coração capaz de proteger cada vida, especialmente as mais frágeis e esquecidas. Ensina-nos a ser construtores de paz num mundo ferido pela guerra e pela indiferença. Que o teu Espírito nos torne guardiões da dignidade humana e testemunhas da esperança que não morre. Ámen.
