L 1: At 16, 11-15; Sl 149, 1-2. 3-4. 5-6a e 9b; Ev: Jo 15, 26 – 16, 4a
Um dos temas que me tem fascinado na vida cristã é o da relação da Palavra de Deus com a Realidade. E vejo no Evangelho de hoje esta implícita esta relação profunda, quando Jesus diz «Procederão assim por não terem conhecido o Pai, nem Me terem conhecido a Mim. Mas Eu disse-vos isto, para que, ao chegar a hora, vos lembreis de que vo-lo tinha dito».
Ao mesmo tempo, contempla-se aqui a relação da eternidade com o tempo. Para Deus não há limites e os discípulos de Jesus podem encontrar a Sua força no meio dos seus limites. A chave é permanecer em Jesus através do Espírito Santo. Jesus veio-nos garantir que, após a sua morte e ressurreição, poderemos sentir a paternidade de Deus Pai através do seu Espírito, o “outro Defensor” ou “outro Paráclito” (cf. Jo 14, 15-21).
É precisamente o Espírito Santo, no hoje da nossa história, que nos permite conhecer Deus como Pai a partir do testemunho de Jesus, das suas palavras e dos seus gestos concretos. E a grande confirmação do que Jesus aconselha aos seus discípulos é a eficiência da missão no meio da perseguição, ou no meio de ambientes ou paragens não evangelizadas.
A leitura dos Atos mostram-nos como o Evangelho entrou na Europa, provavelmente, pela primeira vez. Foi uma mulher simples ─ a Lídia ─ a primeira a acolher as palavras de Jesus, pelo testemunho do Apóstolo, e a ser batizada, depois de Deus lhe ter aberto o coração. A eficácia apostólica não teria força nenhuma se o afeto de Deus não estivesse naquele coração humano. Significa que a verdadeira evangelização não é fruto do medo da eventualidade de não se ir para o Céu, mas é fruto da abertura a um amor ultramundano que ajuda a acolher o Céu já a partir aqui deste vida terrena.
Como Lídia, há por aí tantas pessoas simples, negociantes de qualquer coisa, à beira de qualquer margem a quem Deus preparou o coração para que alguém iluminado pelo Espírito Santo possa testemunhar que é verdade: que Deus é Pai e que em Jesus Cristo abriu um caminho de salvação para todos.
Temos de “gritar” ao mundo que não se pode adorar a Deus e maltratar a humanidade, como Jesus previra, ao dizer «aproxima-se a hora em que todo aquele que vos matar julgará que presta culto a Deus. Procederão assim por não terem conhecido o Pai, nem Me terem conhecido a Mim. Mas Eu disse-vos isto, para que, ao chegar a hora, vos lembreis de que vo-lo tinha dito». Jesus salva-nos com um único sacrifício, mas deixou-nos uma missão inacabada: daí o envio do Paráclito, para que possamos continuar, hoje, a obra iniciada por Jesus. Concluo que Evangelizar é, também, promover e proteger a vida.
Encontrei pelas minhas navegações pela internet a notícia a dizer que em 2009, durante umas férias em Santa Lúcia, Amy Winehouse demonstrou o seu lado mais humano e altruísta ao financiar secretamente uma cirurgia vital de aproximadamente 5 mil euros para Julian Jean-Baptiste, um vendedor de cocos local que não tinha recursos para o tratamento. Longe dos holofotes e das polémicas que marcaram a sua carreira, a artista acompanhou a recuperação do homem sem procurar qualquer reconhecimento, revelando uma generosidade profunda que contrastava com a imagem pública projetada pelos tabloides. Este gesto de solidariedade silenciosa serve como um lembrete de que, para além do seu génio musical, Amy possuía uma sensibilidade rara e uma capacidade genuína de se tornar um abrigo para a dor alheia.
Certamente, no episódio narrado pelos Atos, não foi só Paulo a confirmar aquela irmã na fé, mas também ela a abrigá-lo na sua casa, no meio de perseguições de que, frequentemente, era alvo na expansão do cristianismo que estava a levar a cabo.
Na minha oração, hoje, evoco a iniciativa eclesial que é a “Semana da Vida“, na qual se proclamam “bem-aventurados os que protegem a vida” e afirmando-se “em cada vida um dom; em cada gesto a paz”. Peço, pois, ao Senhor da Vida e da Paz que nos dê um coração capaz de proteger cada vida, especialmente as mais frágeis e esquecidas. Que nos ensine a ser construtores de paz num mundo ferido pela guerra e pela indiferença. Que o seu Espírito nos torne guardiões da dignidade humana e testemunhas da esperança que não morre. Oremos, irmãos.
