navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 6, 1-7; Sl 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19 L 2: 1Pd 2, 4-9; Ev: Jo 14, 1-12, no Domingo V da Páscoa (A) e Dia da Mãe

Filho ─ Papá, eu posso fazer-te uma pergunta?
Pi ─ Pode, pode sim, meu filho.
Filho ─ É verdade que os pais sabem mais que os filhos?
Pai ─ É… é verdade.
Filho ─ Então, diga-me: quem é que inventou o avião?
Pai ─ Ah, essa é fácil, meu filho. Foi Santos Dumont.
Filho ─ Nesse caso, porque não foi o pai dele?
Pai ─ (sem resposta)

Nós poderíamos dizer, como o povo ao constatar as semelhanças dos pais nos filhos: “tal pai, tal filho” ou “quem sai aos seus não degenera”. Os filhos herdam algo de importante dos seus pais. E é a sua herança que lhes permite de ver mais longe e de ir adiante. E, de algum modo, os feitos e vitórias dos filhos poderão ajudar-nos de certa forma a reconhecer os pais (o mesmo acontece com alguns aspetos menos positivos…).

Hoje, no 4º Evangelho, as palavras Jesus e Pai estão em destaque. Estas duas palavras encontram-se escritas neste Evangelho de João mais de uma centena de vezes. E a palavra Pai a maioria das vezes na boca de Jesus. Tudo isto para indicar que entre Jesus e o Pai existe unidade, mas não confusão. O que Jesus reclama dos seus discípulos é que acreditem em Deus como Pai a partir da sua relação de Filho Unigénito. No fundo, Jesus está a informar os seus discípulos que aquele Deus em quem confiam ter a sua salvação, pode ser acessado como Pai na relação com Jesus. E nesta hora de despedida, garante-lhes que o acesso ao Pai é Ele mesmo, caminho, verdade e vida.

Claro que Jesus não é um caminho de terra batida ou uma estrada de alcatrão. É um caminho pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. É preciso, portanto, atravessar esta maneira de viver, viver esta maneira de viver, para chegar ao PAI. Jesus também não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A verdade bíblica não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (cf. João 18,38), mas à pergunta inédita e surpreendente: «QUEM é a VERDADE?» (D. António Couto).

Filipe tem tido dificuldades em sintonizar com a “onda” de Jesus, desde aquele momento em que insiste na pergunta “onde” ir comprar pão para dar de comer à multidão (cf. João 6,5). E Jesus sempre insistiu não no onde como o shopping, mas numa relação com o Pai, no sentido do profeta Isaías (55,1-2): «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!». Na verdade, Filipe continua à espera que Deus se revele de forma espetacular à maneira do Antigo Testamento e, por isso, não está capaz de sintonizar na visão que Jesus apresenta da sua relação íntima e de confiança com o Pai.

Hoje comemora-se o Dia da Mãe. D. António Couto, quando faz a exegese da palavra Verdade com a qual Se identifica, traduz: ʼemet, que deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. E aquele biblista acrescenta:

Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se vive. É aquela verdade que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere a filósofa, de origem judaica, Edith Stein, depois Santa Teresa Benedita da Cruz. A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto.

Numa terra atravessada pelo sangue provocado pelas armas e pela insensatez da prepotência de muitos, é a atitude de uma Mãe que nos pode valer, na sua capacidade de se alegrar ou de verter umas lágrimas nas nossas situações contrastantes. E de agir em conformidade com o que é melhor. Nas horas de aperto, uma mãe não se põe a calcular, mas a responder em conformidade com o que dita a sua relação com os seus filhos. Assim é o amor de Deus! Na mensagem escrita para este Dia da Mãe, os bispos da nossa Conferência Episcopal Portuguesa afirmam que as mães são “afinadoras de corações”:

A melodia da maternidade é todo um alfabeto musical, é uma história de Amor em tom maior, de coragem, de responsabilidade e de perseverança, que insiste em manter o coração alinhado e afinado, não obstante os sobressaltos e notas soltas. Ser mãe é muito mais do que dar à luz. É amar de forma infinita para além da razão e da compreensão, é abdicar de tantos sonhos, é ensinar a voar e ficar a assistir, de sorriso rasgado e coração cheio, às conquistas dos filhos.

Aquela experiência vivida pela primitiva comunidade de Jerusalém, referida nos Atos dos Apóstolos (6,1-7) ajuda-nos a compreender, também, a comunidade como “mãe”, disponível para assistir os seus filhos nas suas necessidades, num momento concreto em que o número das pessoas que acreditavam em Jesus estava a aumentar e era preciso dar-lhes assistência. Mas de um modo inspirado pelo Espírito Santo: para que uns pudessem continuar a evangelizar a outros seria dada a missão de servir na caridade (diaconia). E, assim, pela história fora, a Igreja seguirá sendo esta comunidade maternal que assistirá os seus filhos, procurando responder às suas necessidades, sempre inspirada pela “onda” de Jesus que é o Espírito de Amor que o une ao Pai e a nós.

Pedro ajuda-nos a compreender que fazemos parte de um edifício em que somos “pedras vivas” assentes na “pedra angular” que é Cristo. É Ele que edifica esta comunidade feita de pedras vivas. Um “Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração” (D. António Couto).

Portanto, o caminho que Jesus nos propõe é de uma verdade de carne que leva à vida eterna. E a verdade é a vida eterna que Jesus semeia nos nossos corações, nesta primavera à espera de um verão de maturidade. Semeia a verdade que está na sua vida e espera pacientemente que sigamos livremente os seus passos. Jesus é para nós o que a primavera é para as flores. Para alguns povos, primavera quer dizer literalmente “abertura”, vida que se abre, janelas e portas escancaradas ao Senhor que nos visita constantemente e de muitas formas. Por vezes, perdemo-nos ou disviamo-nos do caminho combinado. Mas ali está Deus, como aquela voz simpática de um GPS que diz “vamos recalcular o seu itinerário”, trazendo-nos de volta a Jesus, caminho certo que leva ao Pai eterno.

Neste tempo de incerteza e de tantas guerras violentas, confiamos as mães a Maria, que é a mãe de todas as mães. Recordamos e rezamos pelas mães que que perderam filhos e estão de luto, mas também pelas mães que lutam pela saúde da sua família, mães cuidadoras de idosos e de pessoas com deficiência. Que as mães não esqueçam que os seus filhos também são filhos de Maria. Com elas, Maria partilha a sua responsabilidade materna, carrega os sofrimentos e as dificuldades dos seus filhos. Com as mães – e ainda mais do que elas – ela deseja a sua felicidade.