L 1: At 8, 26-40; Sl 65 (66), 8-9. 16-17. 20; Ev: Jo 6, 44-51. O itálico é das admonições do dia em liturgia.pt
Em Jo 14,6, no contexto da peregrinação gloriosa para o Pai (a Jerusalém), Jesus dir-nos-á «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim». No Evangelho deste dia, no contexto do que os biblistas chamam de “não peregrinação” (a Jerusalém) ou o discurso do Pão da Vida diz-nos «Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer».
O jogo entre peregrinação e “não peregrinação” tem que ver com a relação entre a identidade e missão de Jesus. No capítulo 6, no contexto da segunda Páscoa, Jesus não vai a Jerusalém, para informar os seus discípulos que está a substituir o sistema do culto antigo por um novo culto. Em vez de ir ao Templo de Jerusalém participar no ritual da Páscoa, Jesus revela-se Ele próprio como o novo lugar de encontro com Deus e como o “Pão da Vida” (a verdadeira Páscoa). A “não peregrinação” geográfica sublinha que Jesus já não necessita do Templo físico ou dos ritos tradicionais, pois Ele é a realidade que eles prefiguravam. Ele traz a plenitude do dom de Deus diretamente aos homens, onde quer que eles estejam.
No chamado “Livro da Hora” ou a “Secção da Glória” (Jo 13-20) encontrar-nos-emos não com uma peregrinação física a um local de culto, mas a passagem (transitus) de Jesus deste mundo para o Pai. Enquanto as peregrinações anteriores eram movimentos dentro da história (de Jesus em direção a Jerusalém), a “peregrinação gloriosa” é o movimento final e definitivo de Jesus de volta à sua origem divina através da Cruz, da Ressurreição e da Ascensão. Por que é “Gloriosa”? Porque, para João, a cruz não é uma derrota, mas o momento em que Jesus é “levantado” (exaltado) e glorificado. Ao “partir para o Pai”, Ele conclui a obra que veio realizar, abrindo o caminho para que os discípulos também possam ter comunhão com o Pai.
Hoje comemora-se o Dia Mundial do Escutismo. Os valores preconizados por este movimento ─ espírito de entreajuda e cooperação, respeito pela natureza, sentido de responsabilidade e autonomia, coragem para enfrentar desafios, desenvolvimento espiritual e ético ─ e as suas atividades ─ caminhadas e explorações, acampamentos, jogos ao ar livre, encontros entre agrupamentos ─ são formas de redirecionamento para uma maturidade humana “resolvida” que possibilite, na perspetiva do escutismo católico, um autêntico crescimento cristão.
Deus pode servir-Se de muitos dinamismos para nos atrair para Cristo, mas é sempre o Pai quem atrai os homens para o Filho, como é pelo Filho que o Pai nos dá a vida. De novo, Jesus Se contrapõe ao maná que caiu do Céu no tempo de Moisés. O verdadeiro Pão do Céu é Ele próprio, que na Eucaristia Se torna o alimento do seu povo. Na Cruz, Ele deu a vida por nós; na Eucaristia, dá-nos o sacramento da sua passagem da morte à vida, e assim, pela Eucaristia, Ela faz chegar até nós essa mesma vida.
Como nos prova a leitura dos Atos, entre todos os dinamismos, o processo da iniciação cristã é o mais patenteado, fazendo experimentar aquele que procura Deus um caminho de consistência. Na liturgia de hoje, é clara uma relação excecional e poderosa entre os sacramentos do Batismo e da Eucaristia, mediados pela Confirmação. Haveria que apostar mais na preparação e celebração destes sacramentos.
